Pessoas que evitam conversas difíceis, normalmente, não gostam de conflitos e ganharam mais expressão agora que o trabalho remoto se instalou e podem, com justa causa, enviar o tal e-mail, o tal comentário nos canais virtuais, ao contrário de terem de se expor face a face. Conveniente? 😉
Por Joana Russinho, People enthusiast, head of Human Resources e autora de “Eu e os Meus rh”
Quem nunca se sentiu poderoso ao responder “à letra” a um e-mail menos agradável? Quem nunca se sentiu orgulhoso e cheio de coragem perante a pálida luz de um ecrã que não responde? Quem nunca esperou para finalmente atender o telefone? A distância fisica adia mas não resolve.
Por outro lado, a linguagem escrita não tem a componente verbal nem a não verbal associadas. Quem lê, lê à sua imagem e semelhança e interpreta com base nos seus modelos de regulação. Ora, isto pode potenciar uma situação menos grave para um conflito ou exacerbar um já existente.
Por outro lado, se saber gerir conflitos é um dos pontos principais nos relacionamentos pessoais e uma das categorias da Inteligência Emocional, será que não estamos a contornar o desenvolvimento de uma competência crítica para a nossa vida profissional, em modo online?
Ora pensemos em conjunto:
#1: Tipicamente, quem evita conflitos está preocupado e procura agradar os outros. Necessita de uma validação social, de colegas e/ou terceiros, e só o facto de imaginar entrar num conflito o retém. É perfeitamente natural que gostemos que nos apreciem, mas isso deve ser “o drive”? Ser consensual, para evitar um diálogo que pode colocar em causa a imagem que outro(s) têm de nós?
Na psicologia ouve-se frequentemente que “comportamento gera comportamento”. Então por que não aceitar a realidade, manter a mente aberta e uma postura com base no respeito, se sabemos que teremos de manter uma conversa que pode ser difícil? Aprendemos sempre nestes momentos de confronto. Tenhamos humildade para tal. Mesmo quando as conversas são difíceis, as mesmas podem manter-se num registo de humildade mútua, respeitando o ponto de vista da outra pessoa e esperando que a outra pessoa respeite o nosso. Afinal, ninguém está num ringue de box!
#2: Se queremos ser genuínos, por que não arriscamos a sair detrás de câmaras e microfones? Vamos inteiros ao encontro do outro. Podemos optar por um lugar “neutro” onde ambos nos sintamos confortáveis sabendo que não seremos interrompidos, ou ouvidos. Antes, certifique-mo-nos de que temos tempo de qualidade, com a agenda liberta.
Quem nunca iniciou uma conversa, que preferia não ter, com o típico comentário: “Tenho uma reunião daqui a 15 min”. Ou então a manifestar uma não intenção de se sentar na cadeira “porque será rápido”? Estes tipos de intenções só servem para revelar falta de consideração pela outra pessoa e, no limite, deixa-nos mais expostos ao colocar a nu o nosso receio em conversar (ouvir, escutar e falar). Não nos iludamos, o que parece pode mesmo ser!
#3: Qual a quantidade de energia mental que gastamos a visualizar uma placa que anuncia “conflito iminente”. E o que seria se todos tivéssemos sempre a mesma opinião? Discordar de um colega numa reunião de trabalho com outros, acontece. Por isso é que as empresas são, também, organismos vivos.
O colega não gostou? Está no seu direito. Troquemos pontos de vista. Revelemos a nossa intenção: Podemos conversar sobre o que aconteceu? Se formos mal recebidos, tentemos perceber o que está a bloquear o outro. Talvez precise que nos mostremos empáticos, mesmo que o seu corpo pareça dizer: “Sai do meu gabinete”. Vá, calcemos os sapatos de quem não revela a mesma boa-vontade, em prol de um objectivo comum!
#4: Muito gostamos de rodeios até que nos sintamos confiantes para avançar. Que tal sermos directos, dirigindo os assuntos difíceis e indo directamente ao ponto? Sou a favor de conversas francas e cordatas em que ambas as partes falam abertamente sobre os detalhes de uma situação. Se a outra pessoa não valoriza a franqueza, então optemos por moderar a postura do pragmatismo e redobremos o jogo de cintura e o respeito. Este estilo de comunicação é mais aberto e menos ameaçador. Cansativo, sim, mas gratificante. Nada que uma corrida ao final do dia não faça desaparecer!
#5: E a linguagem discriminatória? Homens e Mulheres podem e devem ter conversas difíceis quando necessário. Costuma ouvir-se que enquanto os primeiros são assertivos, as segundas são agressivas. Estamos no séc. XXI, e ainda nos referimos à assertividade como uma qualidade positiva associada ao género masculino, e à agressividade como um traço de comportamento negativo associado ao feminino, quando assistimos a situação de resolução de conflitos entre ambos. Assertividade e foco são facilitadores, deixem a agressividade para os tempos livres.
#6: Quem nunca pensou adiar uma conversa difícil para um outro dia, convencer-se de que o assunto deixou de ser importante, porque com o tempo tudo se esquece? Desenganemo-nos. Adiar uma conversa para um momento futuro, ou fingir que nada aconteceu, não vai ajudar, até porque esse momento pode não chegar e pode haver o risco de se gerar um acumular de problemas todos eles derivados da mesma situação. Ajustemo-nos ao tempo que cada um necessita para colocar as ideias no sítio e tenhamos a conversa. Please, just do it! E sem e-emails (se possível).
#7: Por fim, quando a conversa terminar, deixe claro que terminou mesmo. Concentre-se nos ganhos que, no futuro mais ou menos breve, a conversa irá criar para o relacionamento entre ambos, e lembre-se que o que passou, passou. Amanhã é outro dia.
Nota: estes tópicos de reflexão são meramente indicativos, muito haveria para explorar a respeito de “conversas difíceis”. De como arranjamos estratégias de fuga, de como nos defendemos via diferenciação de género e de como a desejabilidade social é uma das grandes inimigas. A minha intenção não foi ser exaustiva, mas antes a de contribuir para trazer o tema à vida numa era de vida e de comunicação online.














