O sector global de fintech entrou numa nova fase de consolidação e crescimento, marcada por maior rentabilidade, disciplina operacional e um papel cada vez mais relevante na transformação dos serviços financeiros. Em 2025, as receitas globais das fintechs ultrapassaram os 504 mil milhões de dólares, o que representa um crescimento de 22% face ao ano anterior e um ritmo de expansão mais de quatro vezes superior ao das instituições financeiras tradicionais.
Actualmente, as fintechs representam cerca de 4% das receitas globais dos serviços financeiros, um marco que confirma a sua evolução de segmento emergente para sector com escala própria, ainda com amplo potencial de crescimento. Esta maturidade é visível em vários indicadores: 74% das maiores fintechs cotadas já são rentáveis, face a 68% no ano anterior, e a margem média de margem operacional (EBITDA) subiu de 16% para 20%. Ao mesmo tempo, o financiamento em capital próprio aumentou 53%, para 58 mil milhões de dólares, acompanhando o regresso do investimento a empresas com modelos mais sólidos, maior disciplina operacional e perspectivas sustentadas de crescimento.
Em 2025, os mercados de saída voltaram a ganhar tração. O número de ofertas públicas iniciais (IPOs) no sector fintech cresceu 50%, para 42 operações, enquanto o volume global de fusões e aquisições aumentou de forma expressiva, passando de 105 mil milhões de dólares em 2023 para 184 mil milhões em 2024 e 251 mil milhões em 2025. Esta evolução confirma a entrada do sector numa nova fase de maturidade, maior selectividade e relevância estratégica crescente na transformação dos serviços financeiros.
«O sector fintech deixou de ser uma promessa de disrupção para se tornar um pilar estrutural do sistema financeiro, registando um crescimento 4x superior aos incumbentes. A pergunta já não é se a tecnologia vai mudar a banca e os seguros, mas sim que instituições terão a disciplina de execução para capturar esse valor antes dos seus concorrentes. Estamos a assistir à passagem de uma década de recuperação para uma nova era de resiliência estrutural do sector fintech. A IA agêntica, os activos tokenizados e a convergência regulatória entre bancos e fintechs não são tendências isoladas, são as peças de um novo modelo de negócio financeiro que se está a construir agora. Quem só observar de fora este próximo ciclo, arrisca-se a competir amanhã em desvantagem permanente, sendo que a vantagem competitiva pertencerá a quem executar com mais rapidez e disciplina financeira, não necessariamente a quem tem a marca mais sólida ou o balanço mais robusto», afirma Pedro Pereira, Managing director & senior partner da BCG Lisboa.
O relatório destaca ainda a evolução dos neobancos como uma das dinâmicas mais estruturantes da próxima fase do sector. Os principais operadores estão a alargar a sua proposta de valor para áreas como crédito, investimento, seguros, transferências internacionais e soluções de poupança para clientes com maior capacidade financeira – passando de modelos assentes num único produto para plataformas financeiras mais completas, com maior capacidade para aprofundar a relação com o cliente. O crédito ao consumo surge, em particular, como uma das frentes de expansão mais relevantes, com destaque para o crédito sem garantia e para modelos alternativos de avaliação de risco.
Esta evolução não deverá ser homogénea entre geografias. Na Europa, o contexto regulatório mais exigente e a presença de incumbentes com forte enraizamento tende a favorecer estratégias de parceria e complementaridade, em vez de disrupção directa. Portugal, inserido neste quadro europeu e com um ecossistema fintech em crescimento, acompanha estas tendências globais num contexto de digitalização acelerada dos serviços financeiros.
No conjunto, o estudo conclui que o sector fintech vive hoje um momento estruturalmente distinto. O crescimento regressou, mas num contexto mais exigente, em que a vantagem competitiva depende cada vez mais da capacidade de combinar escala rentável, prontidão regulatória, execução consistente e adopção disciplinada das novas tecnologias.

















