E se o salário fosse pago à semana? O potencial da flexibilidade salarial em contexto de incerteza

Desde o início da pandemia, e parafraseando o sociólogo, filósofo e ensaísta polaco-britânico Bauman, “a única certeza da situação económica é a incerteza”: a Euribor atingiu recordes históricos, os preços das matérias-primas dispararam e, consequentemente, as despesas diárias começam a ser difíceis de suportar. Sem dúvida, a capacidade para poupar dos portugueses tem vindo a reduzir, e assumir despesas imprevistas já é, em muitos casos, algo muito complicado.

Por Ricardo Freitas, Sales manager de Portugal na Cegid HCM

 

Face a este contexto, as empresas podem ter um papel activo na melhoria do bem-estar emocional e saúde financeira dos seus colaboradores, que é um dos principais factores para o aumento da produtividade. Por esta razão, oferecer benefícios flexíveis e disponibilizar apoio aos colaboradores é fundamental para que a situação económica actual não interfira no bem-estar dos colaboradores e para que a sua performance profissional não seja afectada.

Há alguns anos, a remuneração flexível surgiu como um benefício revolucionário, uma forma de aumentar o salário líquido dos colaboradores sem custos para a empresa. Através desta forma de pagamento, a empresa endereça uma parte do salário dos colaboradores a despesas diárias como cheques creche e restaurante, vales de transporte, seguro de saúde ou programas de formação, com as respectivas deduções fiscais. No entanto, a remuneração flexível não atende às expectativas de quem precisa do salário para dar resposta a possíveis despesas inesperadas e emergências financeiras. Parece pouco provável que uma pessoa que tem dificuldades em gerir o seu salário até ao final do mês queira ou possa desfrutar de um seguro de saúde privado, mesmo através de um pagamento flexível. Por esta razão, é importante que as organizações e os departamentos de Recursos Humanos se adaptem às necessidades dos seus colaboradores tendo em conta a actual conjuntura económica e social.

 

Salário “a la carte”: flexibilidade e rapidez no pagamento de salários

Nos países anglo-saxónicos, é bastante comum que o pagamento do salário seja feito semanalmente em lugar de uma vez por mês. Esta modalidade pode ser bastante benéfica para os colaboradores, uma vez que, segundo vários estudos, muitas pessoas que recebem o salário até ao último dia de cada mês têm um pico de consumo nos dias seguintes a recebê-lo. Nesse sentido, o pagamento do salário de forma semanal pode suavizar estes padrões de consumo, reduzindo os excessos que ocorrem nos primeiros dias de cada mês e as dificuldades que podem, eventualmente, suceder nos últimos dias.

Em Portugal, a maioria das empresas opta pagar o salário relativo ao mês vencido, até ao último dia de cada mês, especialmente no caso de contratos por tempo indeterminado. Contudo, esta forma de pagamento está a sofrer uma mudança de paradigma graças às novas tecnologias. Há já algum tempo que proliferam ferramentas no mercado que permitem aos trabalhadores aceder ao salário relativo aos dias já trabalhados de forma imediata, gratuita e confidencial. Este serviço de salário “a la carte” que é disponibilizado por várias soluções tecnológicas, permite que os colaboradores recebam o salário quando lhes for mais conveniente, sem terem de esperar pelo último dia do mês e sem que sejam penalizados por isso. Qualquer colaborador pode, em tempo real, solicitar o salário referente aos dias já trabalhados até à data, através de uma aplicação móvel, sem qualquer custo adicional.

Actualmente, vivemos uma cultura do imediato, em que os avanços tecnológicos aceleram o ritmo de vida, provocando uma vontade crescente de resultados imediatos e satisfação instantânea. Assim sendo, as empresas que se renderem à flexibilidade salarial, proporcionam o direito e a liberdade dos seus colaboradores escolherem quando e como querem receber o salário, sem necessidade de justificação, melhorando assim o compromisso e a satisfação dos mesmos.

Porém, esta modalidade de pagamento também pode ter desvantagens: se o colaborador tiver de lidar com pagamentos de dívida mais altos, como uma hipoteca ou uma renda imóvel, receber o salário no final de cada mês pode ser mais vantajoso, na medida em que é garantido o valor para tal despesa na data prevista. Ainda assim, a opção de oferecer aos colaboradores de aceder ao respectivo salário à medida que o mês avança, além de ser uma óptima forma de melhorar a experiência do colaborador, é também uma boa prática a ter enquanto empresa comprometida e preocupada em atender às necessidades das suas pessoas.

Em suma, é fundamental reinventar a experiência laboral para conseguir atrair e reter talento nas organizações. De facto, de acordo com o estudo da startup Playflow, estima-se que as empresas que oferecem esta modalidade de pagamento de salários conseguem reduzir em 21% a rotatividade dos colaboradores e contratar 27% mais rapidamente.

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