Reportagem. Do Reino Unido a Nova Iorque: trabalhar fora sem sair de Portugal

Anna Luísa Marotti trabalha para o Art Institute em Nova Iorque, e Renato Gonçalves está na Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), no Reino Unido. Além da nacionalidade, estes dois portugueses têm outro ponto em comum, o facto de serem estagiários do INOV Contacto, o programa de estágios internacionais que permite aos jovens portugueses saír do país com a finalidade de testar e aumentar competências numa empresa internacional.

Por Sandra M. Pinto

 

Qualificar os jovens portugueses em matéria de internacionalização e proporcionar-lhes a oportunidade de iniciarem as suas carreiras internacionais é o objectivo do INOV Contacto. Dirigido a jovens com formação superior e entidades que queiram reforçar as suas equipas com talento português, o programa implementa estágios profissionais em qualquer parte do mundo, durante 6 a 9 meses, tempo durante o qual os jovens desenvolvem as suas competências no mercado internacional e as entidades usufruem de capital humano altamente qualificado para impulsionar o seu negócio. Com a pandemia tudo mudou. O desafio mantém-se mas agora o estágio internacional acontece desde Portugal e em total modo remoto.

Para Renato Gonçalves esta acaba por ser a sua primeira experiência profissional, pois como refere «tive outras, mas não eram experiências na minha área de estudos».

Trabalha remotamente para a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), do Reino Unido. «O nosso trabalho na agência está dividido entre duas grandes áreas: comércio e investimento» esclarece, «na vertente do comércio, onde eu estou integrado, o nosso objectivo é aumentar, por um lado, o número de empresas portuguesas que exportam para o Reino Unido, por outro, a quota de mercado das empresas portuguesas que já exportam para o país». Para isso, refere Renato, «executamos diversas tarefas, desde apoio, promoção e capacitação das empresas e associações portuguesas no mercado, reporte permanente da situação político-económica britânica a Portugal e a expansão e apresentação de Portugal enquanto destino de investimento, através de contactos directos, consultoras, associações empresariais, entre outros».

Já para Anna Luísa Marotti, esta não é a sua primeira experiência profissional, pois, além de ter realizado dois estágios curriculares, durante a licenciatura e mestrado, ambos em agências de comunicação, esteve durante quase um ano a colaborar com o Município de Viseu, onde integrava o departamento de cultura, mais especificamente na área responsável pela comunicação e eventos. Actualmente, trabalha no Art Institute, em Nova Iorque, onde é assistente de produção. «Presto assistência na produção dos mais variados eventos que a organização promove, estando presente na concepção, desenvolvimento e implementação dos mesmos.»

 

«Não devemos chorar quando algo não corre como esperamos, mas sim continuar a melhorar as nossas habilidades e continuar a perseguir os nossos objectivos, emergindo de cada derrota mais sábios e sempre com o mesmo nível de entusiasmo. Por isso, para mim, o INOV Contacto está a ser uma incrível experiência.» Renato Gonçalves

 

 

Estagiar lá fora cá dentro

Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, os estágios que deviam decorrer presencialmente estão a ser realizados de forma remota. Renato e Anna Luísa estão a trabalhar para organizações onde não conhecem ninguém pessoalmente. Terá essa realidade feito diferença? Renato acha que não. «Comunicamos inúmeras vezes diariamente, por isso não me parece que tenha feito diferença», afirma. «Com a distância, acredito que o nosso trabalho de equipa foi até reforçado, não só para alcançar os objectivos a que nos propomos, como para os superarmos.»

Anna Luísa reconhece que as novas tecnologias permitem tornar o processo muito mais prático e fácil. «Apesar de nunca ter conhecido pessoalmente nenhum membro da equipa, as constantes chamadas telefónicas e trocas de mensagens ajudam-nos a criar laços e fortalecer o espírito de equipa», sublinha. «Tenho a sorte de ter uma chefe bastante compreensiva, objectiva e motivadora, o que facilitou muito a adaptação a esta nova realidade.»

No que diz respeito às dificuldades sentidas, Renato Gonçalves revela que, em relação à quarentena, não tantas como seria de esperar. «Acho que conseguimos adaptar-nos bem à situação. Claro que há sempre algumas dificuldades, pois certas funções não podem ser desempenhadas da mesma forma, como interagir com diversas empresas nas feiras, e não estarmos com os nossos colegas presencialmente torna a aprendizagem de todos um pouco menos eficiente.» Não obstante, Renato vê nesta situação também algumas vantagens, como o facto de não ter de fazer deslocações diárias. «Ganhamos bastante tempo extra que podemos usar para sermos produtivos, desenvolver novos skills, trabalhar na nossa saúde mental e física, entre outros. Vão sempre haver prós e contras em tudo, mas acho que o truque é fazermos o melhor com o que temos.»

«Inicialmente, a maior dificuldade foi a de gestão de expectativas», confessa Anna Luísa. «Ao receber a notícia de que iria para os Estados Unidos da América, especialmente Nova Iorque, fiquei em êxtase e senti que o meu maior sonho se havia concretizado», recorda. Nesta panóplia de sentimentos, não foi de ânimo leve que aceitou a ideia de que a minha experiência internacional seria passada na mesa da sala de casa dos seus pais. «No entanto, neste momento, encaro todos os acontecimentos como uma lição de vida, que veio provar que não temos controle sobre nada e que os desafios que surgem devem ser ultrapassados, sem nunca desistir.» Hoje, Anna Luísa aponta como maior dificuldade «a triste sensação de haver a necessidade de cancelar grande parte dos eventos, que, com certeza, seriam bastante bem sucedidos, devido ao panorama pandémico».

 

«Não nos podemos apoiar a 100% nos planos que fazemos, pois, de um momento para o outro, todo o panorama pode mudar. É importante ter a coragem de ser humilde e flexível, aceitando aquilo que o futuro reserva.» Anna Luísa Marotti

 

 

 

Gerir expectativas

 Um dos motivos pelo qual os candidatos concorrem ao INOV Contacto assenta precisamente no facto de que parte importante da experiência era ir para fora. Com a pandemia esta expectativa é interrompida. «Podemos ver a situação desse modo, ficando ressentidos por tudo e mais alguma coisa ou podemos, por exemplo, ver isto como uma oportunidade, um teste de perseverança para mostrarmos que mesmo nas circunstâncias mais adversas, conseguimos ser óptimos profissionais», sublinha Renato. «É rara a ocasião em que tudo corre às mil maravilhas, mas é exactamente por isso que não nos devemos deixar levar por pensamentos derrotistas. É fácil encontrar razões para nos queixarmos, mas quando enfrentamos a adversidade estoicamente, não só revelamos carácter, como também damos força a todos ao seu redor.»

Renato candidatou-se ao programa por intuição. «O INOV Contacto não era garantido e eu tinha outras opções que, na volta, talvez fossem melhores.» O jovem não sabia bem o que fazer, até que decidiu parar de se preocupar constantemente e deixar que as coisas fluíssem. A pouco e pouco, o caminho foi-se revelando. «Senti que agora era a altura do INOV Contacto, foi por isso que, mesmo quando nos deram a opção de cancelar e tentar no próximo ano, devido à pandemia, decidi continuar. Independentemente dos inconvenientes, há sempre algo bom a tirar de qualquer experiência. Não só sentia que era a altura ideal para o INOV Contacto, como também sabia que seria uma experiência única, e que se não arriscasse agora, quem sabe se iria alguma vez ter a mesma chance – “If not now, then when?”.»

No momento, Renato sente que tem, relativamente ao resto do estágio, as mesmas expectativas que sempre teve: aprender e contribuir o máximo que conseguir. «Esta tem sido uma experiência valiosa e acredito que continuará a ser. Estou incrivelmente grato pela oportunidade e o mínimo que posso fazer para repagar o nível de confiança que recebi é dar o melhor de mim.»

Também Anna Luísa garante não ter ficado com as expectativas defraudadas. «Apesar de não poder de facto deslocar-me para outro país, como inicialmente estava previsto, sinto que estou a conseguir tirar partido das oportunidades que me foram dadas», reconhece. Para a jovem, «não vivemos num mundo ideal, em que é tudo perfeito. Foi-nos atirado para cima da mesa um dos maiores desafios que um estagiário do INOV Contato poderia receber. Da minha perspectiva, tudo o que poderia fazer era superar e aproveitar ao máximo, dentro do possível, a oportunidade que me foi dada», afirma. Anna Luísa partilha que se candidatou ao INOV com a intenção de::« ver os meus horizontes serem alargados, de ver os meus hábitos e rotinas desafiados e de ver como é que as minhas acções podem impactar o mundo.»

No que diz respeito ao resto do estágio, Anna Luísa deseja continuar a ter a oportunidade de realizar as tarefas de forma autónoma e eficiente, sendo possível a cada dia aumentar o valor do seu trabalho e esforço. «Até ao final do estágio, espero que me sejam dadas cada vez mais responsabilidades, de forma a aprender cada vez mais.»

 

A importância de aprender

Apesar de não decorrerem de forma presencial, os estágios aportam um sem-número de ensinamentos aos estagiários. No caso de Renato, os aspectos técnicos são o foco principal, os quais aprende e aperfeiçoa diariamente, mas também outras pequenas coisas. Algumas, o jovem valoriza particularmente, como actuar quando se representa uma entidade governamental, refinação da escrita, melhores formas de mostrar o valor de propostas a importadores, entre outras. «Esta experiência foi absolutamente fora da minha zona de conforto, por isso considero todo o processo em si uma aprendizagem. Além disso, a disponibilidade adicional associada à quarentena é uma faca de dois gumes, tanto pode ser uma ameaça como uma oportunidade». Assim, Renato prometeu a si mesmo que esta não o abalaria, mas enriqueceria. «Tenho-me esforçado para manter esta promessa, através da expansão do conhecimento e aperfeiçoamento da saúde mental e física.»

De toda esta experiência, a primeira lição que Anna Luísa Marotti retirou foi a de que «não nos podemos apoiar a 100% nos planos que fazemos, pois, de um momento para o outro, todo o panorama pode mudar». Defende que «é importante ter a coragem de ser humilde e flexível, aceitando aquilo que o futuro reserva. Trabalhar no Art Institute abriu-me as portas para o universo cultural português, aprendendo a valorizar, ainda mais, o que é nacional e a importância da cultura nas nossas vidas quotidianas.»

 

O papel da “entidade empregadora”

Mas será que, numa situação tão excepcional como a que vivemos hoje, o papel deixado a estas entidades empregadoras mudou? Existirão agora mais preocupações ou cuidados? «Nada em particular», acredita Renato. «Em relação à pandemia, seguem-se as indicações do Governo, e, quando a situação permitir, somos bem-vindos a ir para o escritório em Londres. No mais, a atenção e feedback sobre o nosso trabalho e o interesse em manter-nos informados sobre os assuntos, independentemente da distância, é mais do que suficiente.»

Anna Luísa partilha: «Desde a primeira reunião, mesmo antes de nos apercebermos do tamanho que a pandemia iria ocupar nas nossas vidas, senti uma enorme preocupação pelo meu bem-estar e segurança por parte da Ana Miranda, directora do Art Institute. Com o chegar das restrições os cuidados foram acrescidos, ajudando-a a compreender melhor os riscos que, eventualmente, poderia estar a correr se se tivesse deslocado para Nova Iorque. Fui sempre reconfortada pela minha chefe, que sempre demonstrou empatia perante a minha situação, sabendo que era com muita pena minha que não realizaria o meu estágio nos Estados Unidos.»

 

O balanço 

Questionado sobre o que destaca como mais positivo nesta experiência até à data, Renato refere, a nível profissional: «a oportunidade de presenciar o excelente trabalho realizado pelos profissionais com quem trabalho, assim como a aprendizagem que obtive sobre as suas direcções, e claro, o privilégio de poder trabalhar com os meus colegas INOV Contacto, cujas habilidades me surpreendem todos os dias.» A nível pessoal, destaca a maturidade. «Há uns meses, estas respostas teriam sido completamente diferentes», confessa, «durante esta experiência, apercebi-me do impacto que valores como compromisso, perseverança, atitude e disciplina têm sobre a nosso passado, presente e futuro.»

Renato acredita que o facto de ter sido um INOV Contacto tão atribulado, o fez perceber que «não devemos chorar quando algo não corre como esperamos, mas sim continuar a melhorar as nossas habilidades e continuar a perseguir os nossos objectivos, emergindo de cada derrota mais sábios e sempre com o mesmo nível de entusiasmo. Por isso, para mim, o INOV Contacto está a ser uma incrível experiência», assegura.

Para Anna Luísa, existem vários pontos positivos nesta sua experiência. «O primeiro foi a possibilidade de aprender que é possível exaltarmos o que de melhor o nosso país tem para oferecer em águas internacionais. O segundo passa por ter tido a oportunidade de participar na iniciativa RHI Stage que, através do meio online, ajudou artistas a superarem as dificuldades da pandemia sendo palco dos seus espectáculos e tornando possível que o público pagasse o valor que achasse justo pelo seu trabalho. Por fim, mas não menos importante, foi ter a chance de trabalhar com uma equipa extremamente profissional, que prova a cada dia que o talento jovem é de valor e tem espaço no mercado», conclui.

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