Representação feminina em funções tecnológicas na Europa desce para 19%

Margarida Lopes
9 de Março 2026 | 12:20

As mulheres representam hoje apenas 19% das funções tecnológicas na Europa, uma queda face aos 22% registados em 2022, num momento crítico para a ambição europeia em inteligência artificial. Portugal acompanha esta tendência, evidenciando um desalinhamento entre formação STEM e presença no sector tecnológico. As conclusões são do novo estudo Women in Tech and AI in Europe: Can the region close its gender gap?, da McKinsey & Company.

 

O estudo, que analisa a evolução da representação feminina no sector tecnológico europeu e o impacto da IA na redistribuição de funções e liderança no conjunto dos 27 países (EU-27), surge num contexto em que a McKinsey estima que a adopção de IA soberana poderá acrescentar mais de 480 mil milhões de euros anuais à economia europeia até 2030. No entanto, a concretização desse potencial dependerá da mobilização de talento qualificado e da expansão da base de liderança tecnológica, incluindo mulheres.

Apesar de um aumento na participação feminina em cursos STEM, que representam actualmente 33% das licenciaturas e 39% dos doutoramentos nestas áreas, essa evolução não se traduz numa presença proporcional no mercado de trabalho tecnológico. O estudo mostra que o pipeline entre formação e emprego em tecnologia enfraqueceu, com a representação feminina em funções tech a cair para os 19%.

Além disso, apenas 13% dos cargos de gestão em tecnologia são ocupados por mulheres, percentagem que desce para 8% em cargos de direção e c-level. A maior quebra ocorre entre o nível de entrada e a primeira função de liderança, o que indica uma perda significativa de talento feminino nas fases iniciais da progressão de carreira.

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Portugal surge em linha com os restantes países da Europa, ou seja, apesar de níveis significativos de participação feminina na formação STEM, essa base educativa não se traduz proporcionalmente em presença no mercado tecnológico. Além disso, tal como noutros países da União Europeia, o nível geral de igualdade de género não garante maior representação feminina em funções tech, evidenciando um desalinhamento estrutural entre formação e mercado de trabalho.

O estudo identifica ainda um efeito estrutural da inteligência artificial na redistribuição de funções. As mulheres estão sobre representadas em áreas como gestão de produto (39%) e design (53%), que representam apenas uma pequena fração da força de trabalho tecnológica e onde a procura tem vindo a diminuir com a automação de tarefas. Em contrapartida, o crescimento concentra-se em áreas como IA, dados, infraestrutura e engenharia de software, onde a representação feminina continua significativamente inferior.

Esta transformação não se limita às funções, mas estende-se ao próprio perfil de competências exigidas. Segundo a análise da McKinsey, 17% das competências atuais poderão tornar-se predominantemente automatizadas pela IA, 72% passarão a ser desempenhadas em modelo híbrido, combinando trabalho humano e tecnologia, e apenas 11% permanecerão exclusivamente centradas nas pessoas. A redistribuição do valor para funções mais técnicas e híbridas reforça a necessidade de preparar o talento para funções de supervisão, governação e decisão estratégica.

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O estudo identifica três factores que estão a ampliar o gap de género: a sub-representação estrutural nas áreas técnicas de maior crescimento, a automação de funções onde as mulheres estão mais concentradas e a persistência de barreiras culturais e organizacionais. Segundo o inquérito, 49% das mulheres reportaram experiências de preconceito ou discriminação no último ano e 82% referem que precisam de provar mais as suas competências do que os seus pares homens.

Fechar o gap de género na tecnologia não é uma agenda paralela, mas uma alavanca estratégica para fortalecer a competitividade europeia em IA. Empresas que adotem uma abordagem integrada, combinando cultura organizacional, requalificação técnica e modelos operacionais inclusivos, poderão simultaneamente responder à escassez de talento e reforçar a diversidade na liderança tecnológica.

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