Por Tânia Reis
Apesar da crescente qualificação da população portuguesa, continuam a verificar-se desafios significativos na transição para o mercado de trabalho, desde fenómenos de sobrequalificação às desigualdades salariais entre homens e mulheres, passando pelas assimetrias territoriais que marcam o início das carreiras (pode ver as principais conclusões do estudo aqui)
Nesta entrevista, o investigador aborda ainda a necessidade de reforçar a articulação entre ensino superior, empresas e decisores públicos.
O estudo conclui que a área de formação tem um impacto maior nos resultados profissionais dos diplomados do que o tipo de instituição frequentada. O que explica esta prevalência?
Primeiro, permita-me explicar o que fizemos. Dividimos o trabalho em duas partes, numa primeira analisámos o desemprego dos diplomados em 2016/2017 e em 2020/2021 – para abranger precisamente as diferenças entre cinco anos e um ano após a conclusão do curso -, e os seus determinantes, como factores demográficos, académicos e contextuais. A segunda parte estendeu essa análise para o domínio da qualidade do emprego. Uma das variáveis mais saltou à vista em ambas foi a área de formação. Sempre pensámos que o tipo de sector – público ou privado, ou a reputação da instituição eram variáveis significativas, mas chegámos à conclusão que é nas áreas de estudo que aparecem as grandes diferenças. Nas Humanidades, nas línguas, na psicologia e nas ciências naturais, ou seja, ciências naturais, matemática e estatística, temos taxas de desemprego estimadas de 14 pontos percentuais a mais do que nos cursos de engenharia no grupo dos diplomados de 2020/2021, diminuindo para 8-10% nos diplomados de 2016/2017.
A que se deve esse desempenho particularmente positivo das áreas Engenharia em várias dimensões da qualidade do emprego?
Acho que é apenas capacidade de absorção. Estes mercados de trabalho estão mesmo a precisar desse tipo de pessoas, ainda assim os outros indicadores de qualidade do emprego também o demonstram, os salários são mais altos e a satisfação é maior. Não considero que as faculdades de engenharia estejam a fazer alguma coisa bem e as demais não. É uma tendência as áreas serem mais prevalentes do que as instituições. Na verdade, é uma tendência internacional e algo que já tínhamos mapeado na revisão da literatura, mas que não tínhamos maneira de confirmar para Portugal sem um estudo destes.
Portugal revela dificuldades em integrar diplomados altamente qualificados em funções compatíveis com o seu nível de formação. Que factores ajudam a explicar este fenómeno da sobrequalificação?
É sempre uma questão de percepção. Verificámos que 55% dos diplomados de 2021 se sentiam sobre qualificados, mas um ano depois da conclusão do curso esse número baixava para 37,5%. Um fenómeno interessante foi o facto de o sentimento de sobrequalificação ser mais prevalente em mestrados, o que pode significar que estão num trabalho onde não precisariam de ser mestres para o desempenhar.
Outro exemplo diz respeito aos cursos técnicos superiores profissionais, apesar de serem uma parte reduzida da amostra, cuja formação tem uma duração de dois anos. Estes técnicos superiores sentem que estão a desempenhar funções de uma pessoa com o ensino secundário pois é difícil para as empresas e para o sector público reconhecer que existe uma categoria intermédia entre o ensino secundário e a licenciatura dita convencional.
Será um problema de falta de adaptação do mercado de trabalho? Ou seja, um desalinhamento entre o que os recém-licenciados têm para oferecer e o que as empresas procuram…
O estudo não nos dá as causas, apenas o mapeamento, contudo da minha percepção, há de facto um desajuste importante. Há determinadas profissões em que um determinado grau é obrigatório, como Arquitectura, Medicina ou Psicologia, e o processo de Bolonha veio basicamente forçar os mestrados integrados, já que a licenciatura de três anos não é suficiente para exercer.
Trabalho na Universidade do Porto e também costumo falar com os meus alunos sobre estes temas e muitos diplomados dizem que vão para as empresas e não aproveitaram 80% ou 90% do curso, porém o ónus da empregabilidade não deve recair sobre as instituições de ensino, a nossa responsabilidade é prepará-los para um futuro melhor. E de facto, sabemos que depois as empresas fazem formação para adequar melhor estes trabalhadores às suas funções.
Adicionalmente, repare também no aparente contra-senso, quando os diplomados afirmam que são sobrequalificados para as funções que desempenham… Creio que é mesmo uma questão de desajuste e acho que estes resultados mostram que esse desajuste é real.
Um dos aspectos mais marcantes do estudo é a persistência das desigualdades entre homens e mulheres. O que mais o surpreendeu nos dados analisados?
Esta questão do gender pay gap é sempre muito curiosa porque só pegando em dados é que conseguimos ver. No estudo comparámos homens e mulheres em situações exactamente iguais, numa espécie de grupo de controlo. Tiraram exactamente o mesmo curso, exactamente a mesma média, têm exactamente a mesma idade, o mesmo número de filhos, exactamente a mesma área, por aí fora… E, ainda assim, temos diferenças salariais – de trabalho por hora – na ordem dos 12% e, quando analisamos cinco anos no mercado de trabalho, esse número sobe para 16. O gap aumenta com o tempo. Continuo a achar estes valores surpreendentes, pois actualmente controlamos tudo. Em teoria, quanto mais controlamos mais nos aproximamos da discriminação pura no fundo, não é?
A seu ver, como é que se pode resolver essa situação?
Não sei, infelizmente já demos tempo ao mercado para corrigir isso e não tem acontecido. Se o mercado está a criar este tipo de realidade há-de haver um motivo, uma razão qualquer que faça com que faça que isso não esteja a funcionar.
Hoje, a discussão principal tem a ver com as licenças parentais e o papel da mulher na família, que de facto são diferenças importantes. Apesar dos privilégios atribuídos legalmente, nomeadamente no que diz respeito à amamentação, depois há o factor social e económico, Um empregador por exemplo que precise de um trabalhador a tempo inteiro, se contratar uma mulher sabe que haverá maior probabilidade de haver problemas familiares para resolver e horas de trabalho perdidas. São coisas que estruturalmente vão demorar a ser resolvidas, mas acho que tem que ver com a maneira como nos organizamos. Acredito genuinamente que um empregador, regra, não é discriminador.
Os resultados também indicam que os diplomados das regiões do interior enfrentam maiores dificuldades na fase inicial da carreira. Como é que se reduzem estas assimetrias territoriais?
Sim, isso verifica-se na taxa de desemprego. Estou precisamente na Bulgária, numa conferência de economia regional a apresentar alguma investigação que faço, não relacionado com este estudo, precisamente sobre diferenças regionais e as questões de mobilidade dos estudantes e, de facto, a conclusão a que chegamos está igualmente relacionada com a capacidade de absorção das empresas. E tipicamente em economia regional, vemos as instituições de ensino superior como uma maneira de salvar algumas regiões mais periféricas dos seus problemas de desenvolvimento. Portugal é um caso muito curioso, porque temos praticamente uma instituição de ensino superior em todas as regiões, excepto em três regiões NUTS [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos], portanto, nesse sentido o sector Público fez um bom trabalho de distribuição.
O facto de a pessoa ir estudar para uma região diferente da sua, já faz com que fique com maior probabilidade nessa mesma região, mas também descobrimos que nestas regiões do interior NUTS 3, 50% dos diplomatas saem e, como seria de esperar, o fluxo principal é para o Grande Porto e a Área Metropolitana de Lisboa. Por outro lado, este mesmo valor em Lisboa é apenas de 5%. Portanto, apenas 5% dos estudantes que se diplomam em Lisboa saem da zona.
Contudo, as instituições de ensino superior têm um papel de formar estes estudantes, mas não de os reter quando saem. Estas instituições estão já em sítios onde se colocam em muitas dificuldades do ponto de vista do sistema. Já atraem alunos que não são tão bons, já não enchem as suas vagas com frequência. Algumas usam estudantes internacionais para poderem sobreviver. Ainda assim, se uma parte destes estudantes fica já é um bom sinal. Todavia, também sabemos que quando eles ficam, não ficam em condições tão boas. Acho que é um problema a jusante das instituições e mesmo do Estado. Até certo ponto, acho que não há assim um grande milagre que possamos fazer. Estes movimentos rurais urbanos são naturais.
O facto de mais de um décimo dos diplomados analisados residir no estrangeiro também tem que ver com essa capacidade de absorção?
Acho que sim, mas, ao contrário dos outros indicadores analisados, não sei se esse resultado é positivo ou negativo. É também nossa função formarmos estudantes para irem para fora. Não considero que devemos prendê-los por cá. Estamos a transformar os nossos estudantes e eles vão para condições melhores. Há diferenças salariais importantes, mas também comparar salários sem comparar custos de vida é de certo modo injusto.
A média final do curso surge como um dos factores mais associados à probabilidade de desemprego. Como interpreta este resultado?
Esse resultado é, de facto, muito interessante porque sempre foi dito que a média não importa, o que interessa são as competências, mas a verdade é que um aluno que mostra que é melhor em todo o percurso, no fundo, já se posicionou. Claro que também é importante que tenham as suas experiências durante o curso, como voluntariado por exemplo, e parece-me bem que o ensino superior se posicione para dar isso aos estudantes num contexto extracurricular. Mas o tema da média não ser relevante sempre me fez confusão.
Olhando para os números, mais um valor, de 10 a 20, da média dos diplomados significa mais 2 pontos percentuais de salário. Ou seja diferença entre dois estudantes com médias de 12 e 17 pode ser de 2% do salário e este valor aumenta a cinco anos, atingindo os 4 pontos percentuais. Toda esta comparação entre um e cinco anos é uma comparação muito interessante. É como se um ano depois de terminar o curso, todos são mais ou menos parecidos, mas cinco anos depois, começamos a ver as diferenças a aumentar em geral.
Outro factor também relevante é a experiência profissional durante o curso, nomeadamente estágios. Além da média e da área, isso depois também tem peso no final na entrada no mercado de trabalho?
Sim. É interessante porque esse tanto diminui a probabilidade de desemprego como aumenta os salários, mas apenas no espaço temporal de um ano, cinco anos depois essa diferença já não acontece. Portanto, a pessoa que tem experiência, entra com o pé direito no mercado de trabalho, mas depois, com o passar do tempo, a outra pessoa que não tinha experiência já tem, e aí as diferenças esbatem-se.
O estudo também analisou a satisfação com o emprego. Dos resultados que conseguiram obter, na insatisfação com o trabalho, o que tem maior peso é o factor salarial?
Boa pergunta, mas não lhe consigo responder a isso. O que analisámos foi o nível de satisfação, ou seja se a pessoa está satisfeita globalmente com o seu emprego e temos aproximadamente 62% de satisfeitos ou menos satisfeitos, porém não avaliámos a satisfação com os aspectos do emprego.
Que mudanças na ligação entre empresas e ensino superior poderiam contribuir para um melhor aproveitamento destes diplomados em Portugal?
Acho que há aí um terceiro actor que não deve ser esquecido. A nossa recomendação principal é para a tutela, para que haja mudanças por parte do Governo. Neste campo, em relação a outros países, estamos muito atrasados. Quando os jovens e as famílias escolhem os cursos não têm maneira de saber se o curso é melhor ou pior, paga mais ou menos. O que têm é senso comum, informação que circula de boca em boca, etc.
O objectivo do nosso estudo é também contribuir para que as famílias tomem decisões melhores na altura da candidatura ensino superior e isso também significa contribuir para que os estudantes percebam o que é que podem fazer para se integrar melhor no mercado de trabalho. Por isso, a nossa principal recomendação é a Direcção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência ter uma maneira de comunicar isto aos estudantes.
Este tipo de informação tornaria o sistema de ensino superior mais justo para as famílias e seria também um mecanismo de equidade e de justiça nas famílias mais desfavorecidas.
O outra mensagem também é que as instituições não devem ter receio de ser comparadas entre si, sabemos que têm qualidade e os resultados mostram que é a área que tem influência e não a universidade.
As licenciaturas são muito clássicas e são as nossas bandeiras, as nossas referências. O sistema está a mudar abaixo, no tema dos cursos profissionais, e acima por causa dos mestrados. Acho que o papel das empresas é nestas formações novas e acho que as instituições de ensino superior estão muito receptivas a que as empresas entrem e digam “preciso de um mestrado, de formar 15 pessoas por ano para uma coisa muito específica”. Não tenho dúvidas de que, da maneira como o sistema está desenhado, as instituições são capazes de, em pouco tempo, arranjar uma micro-formação, e um ou dois anos depois ter um mestrado pedido pela empresa.
Na minha opinião, a maneira de aproximar os conteúdos às empresas é fazer com que elas entrem nas instituições de ensino superior e partilhem o que precisam. Claro que é preciso ter alguma capacidade para poderem depois absorver estes diplomados, mas acho que é este o caminho e não deve ser feito pelas licenciaturas.
O mercado de trabalho mudou rapidamente desde a recolha destes dados. Quais são os factores que mais o deixam curioso em relação à próxima edição do estudo?
Os resultados deste estudo vêm do Eurograduate 2022, tivemos uma taxa de resposta de 12% dos diplomados portugueses, 18 mil respostas, um número interessante. O primeiro aconteceu em 2018, mas Portugal não participou, por isso não temos comparação com a edição anterior.
Agora, em 2026, temos a questão das LLM, da revolução da inteligência artificial e vai ser interessante comparar estes dados. Por isso, deixo um apelo aos diplomados de 2021 ou 2024-25 que vão ser contactados agora em Outubro para responderem ao inquérito.

















