Quase 80% dos jornalistas que participaram num estudo sobre ambientes de trabalho saudáveis já ponderaram abandonar a profissão, sobretudo por causa dos salários estagnados, falta de progressão na careira e excesso de carga de trabalho.
O relatório divulgado, desenvolvido pelo Laboratório Português de Ambientes de trabalho Saudáveis (Labpats), aponta também como motivos deste risco de abandono da profissão as dificuldades de conciliação da vida profissional e pessoal, assim como a falta de condições laborais.
O estudo, que se centrou nos ambientes de trabalho, na saúde e no bem-estar dos jornalistas, diz que os dados recolhidos revelam sinais relevantes de “desgaste profissional e de fragilidade no ecossistema laboral”.
Embora muitos jornalistas continuem a atribuir significado ao seu trabalho, os resultados mostram “dificuldades persistentes” ao nível da remuneração, da organização do trabalho, da liderança, da comunicação interna, da saúde mental e da conciliação entre a vida profissional e pessoal.
Os autores sublinham que a elevada percentagem (79,5%) de participantes que já ponderaram deixar a profissão não deve ser lida como um dado isolado, mas como «expressão de um desequilíbrio entre exigência, reconhecimento, estabilidade, progressão e condições concretas de trabalho».
O estudo aponta para um “quadro misto”, com dimensões que funcionam como factores de protecção, mas com “fragilidades importantes” nas áreas mais estruturais do trabalho.
O teletrabalho apresenta a avaliação mais positiva, seguido do envolvimento dos trabalhadores. Em sentido contrário, os recursos para a saúde pessoal, o compromisso da liderança, a ética e valores organizacionais e alguns indicadores do ambiente psicossocial merecem “atenção prioritária”.
Pouco mais de um em cada quatro profissionais concordam que a organização se foca no bem-estar dos trabalhadores e tem políticas estratégicas para o promover, um dado que mostra que o bem-estar «ainda não é percepcionado como uma prioridade suficientemente integrada» na cultura das organizações, refere o documento.
A liderança surge como uma “área crítica”, não apenas pela forma como organiza o trabalho, mas também pelo modo como comunica, reconhece, escuta e protege as equipas.
No ambiente psicossocial, os especialistas destacam três sinais de alerta: só 20,9% dos participantes diz ser informado com antecedência sobre decisões importantes; 31,7% diz que os conflitos são resolvidos de forma justa e 32,2% entende que a chefia oferece boas oportunidades de desenvolvimento.
Apesar deste contexto, o envolvimento profissional mantém valores relevantes: 52,3% dos profissionais dizem sentir-se motivados e terem prazer no seu trabalho; 50,3% sentem que o trabalho dá significado à sua vida e 59,2% dizem-se satisfeitos com o que fazem.
«O problema não parece estar na falta de ligação à profissão, mas nas condições em que ela é exercida», consideram os autores do estudo.
O estudo mostra que os jornalistas valorizam uma liderança mais humana, empática, disponível e menos controladora, bem como maior transparência nas decisões, uma “escuta activa” e equidade no tratamento.
Foram igualmente mencionadas necessidades de melhor organização do trabalho e definição clara de funções.
A organização do trabalho surge como uma das áreas mais sensíveis: 42,6% dos participantes trabalham por turnos e 36,9% trabalham entre 40 e 50 horas por semana. O trabalho durante mais de 50 horas/semana é uma realidade para 12,5%.
Quanto às condições de trabalho, os profissionais sugerem o teletrabalho, horários mais flexíveis e semanas mais curtas, pedem respeito pelos horários de saída e menos pressão associada ao excesso de tarefas.
















