Fala-se frequentemente da importância da empatia na liderança. No entanto, é menos comum questionar o oposto: o que promove uma liderança não empática? A resposta não reside apenas em traços individuais, mas num conjunto de factores organizacionais, culturais e sistémicos que incentivam e normalizam essa cultura.
Em primeiro lugar, um dos factores passa pela pressão por resultados a curto prazo. Quando o desempenho é medido exclusivamente por métricas financeiras imediatas, a dimensão humana é secundarizada. Os líderes são recompensados por entregas rápidas, mesmo à custa do bem-estar das equipas. Neste contexto, a empatia passa a ser vista como um obstáculo à eficiência.
Outro factor é a cultura organizacional baseada no controlo e na hierarquia rígida. Ambientes onde a autoridade não é questionada e o erro é penalizado desencorajam a escuta activa e a vulnerabilidade, dois pilares da empatia. Nestas estruturas, a liderança assume um carácter transaccional, focada em tarefas em detrimento das pessoas.
A própria trajectória de muitos líderes contribui para o fenómeno. Profissionais promovidos com base em competências técnicas, sem preparação para gerir pessoas, reproduzem estilos pouco empáticos. A ausência de formação em inteligência emocional perpetua este ciclo. A isto soma-se o impacto da digitalização e da aceleração do trabalho. A urgência constante, que marca o ritmo acelerado de muitas empresas, diminui o espaço para a reflexão e para a escuta genuína, favorecendo interacções superficiais.
As consequências são profundas. A nível cultural, instala-se a desconfiança e a inovação diminui, pois as pessoas evitam assumir riscos. Neste contexto, não é por acaso que, segundo a Gallup, mais de 80% dos trabalhadores em Portugal não se sentem activamente envolvidos com o seu trabalho. Também na saúde mental, a falta de reconhecimento e o excesso de pressão geram estados de stress e burnout nas pessoas.
Paradoxalmente, os resultados empresariais também sofrem. Uma liderança não empática pode gerar ganhos imediatos, mas compromete a sustentabilidade. Equipas desgastadas dificilmente mantêm a produtividade a longo prazo.
A empatia não é apenas uma competência individual, é uma escolha intencional da organização reflectida nos sistemas de avaliação e na forma como se entende o papel de liderar.
Quando assumi uma nova equipa na L’Oréal em Portugal, altamente experiente, decidi enviar a cada elemento uma pergunta simples: “O que te faz feliz?”. Curiosamente, quase ninguém respondeu com temas profissionais. Este pequeno passo, longe das métricas habituais, criou um espaço de segurança psicológica e uma conexão genuína que sustentou a nossa performance até hoje. Foi a prova de que a vulnerabilidade não é uma fraqueza, mas uma força impulsionadora da liderança.
Mitigar a liderança não empática exige mais do que formações avulsas em soft skills. Implica uma revisão corajosa de como definimos e recompensamos o sucesso corporativo. Enquanto as empresas continuarem a aplaudir os resultados sem questionar os meios, continuarão a fabricar líderes que sabem ler dados e gráficos, mas que são incapazes de ler pessoas.














