Saúde das empresas vs. saúde dos colaboradores: uma equação impossível?

«Num momento de pandemia, em que o tema saúde é central às preocupações da humanidade e domina o contexto em que todos vivemos, é  natural que muitas empresas, mesmo as mais responsáveis, se interroguem se é possível resolver, com resultado positivo, a equação “saúde” do negócio vs. “saúde” dos seus colaboradores.»

 

Por Margarida Couto, presidente do GRACE  (Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial) em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

 

Quando o Estado de Emergência foi decretado, foram muitas as empresas que tiveram de se reinventar num ápice. De entre as que não tiveram a infelicidade de pura e simplesmente ter de fechar portas e suspender a sua actividade, assistimos a inúmeras empresar a “reformatar” as suas operações: empresa têxteis que reconduziram o essencial da sua produção para batas, máscaras e outro tipo de equipamento de protecção para profissionais de saúde, indústrias “pesadas” que se reconverteram para produzir ventiladores, fabricantes de perfumes que passaram a produzir produtos desinfetantes, e por aí fora.

Por outro lado, quase todas as que puderam continuar a desenvolver o essencial da sua actividade tradicional, migraram “de um dia para o outro” para teletrabalho, um desafio para o qual muito poucas estavam preparadas, em diversas dimensões. Por sua vez, os colaboradores tiveram de aprender a trabalhar em confinamento e, com as escolas fechadas, àqueles com filhos pequenos foi pedido o acrescido esforço de conciliar o teletrabalho com os muitos desafios inerentes a terem passado a ser cuidadores a tempo inteiro e “um género de professores”.

Muitas empresas – infelizmente demasiadas – tiveram de recorrer ao mecanismo do dito lay-off simplificado, deixando milhares de trabalhadores temporariamente inactivos, com muitas angústias vividas em confinamento.

Num momento em que a única certeza continua a ser a incerteza, o esforço que foi pedido, quer às empresas, quer aos seus colaboradores, foi – e será por muito mais tempo– gigantesco.

Às empresas responsáveis é pedido que, sem descurarem o negócio – do qual depende a sua sobrevivência – garantam também a segurança dos seus colaboradores, numa multiplicidade de dimensões: financeira, de protecção da COVID-19, de saúde mental e resistência a um novo tipo de stress, de apoio à família, etc.

Num momento de pandemia, em que o tema saúde é central às preocupações da humanidade e domina o contexto em que todos vivemos, é pois natural que muitas empresas, mesmo as mais responsáveis, se interroguem se é sequer possível resolver, com resultado positivo, a equação “saúde” do negócio vs. “saúde” dos seus colaboradores.

A resposta tem de ser positiva e há, felizmente, muitas empresas a demonstrar um forte sentido de responsabilidade social, correndo riscos, no interesse colectivo de todos. Empresas que mantêm a integralidade do salário a trabalhadores em lay-off, empresas que facultam aos colaboradores diversos tipos de apoio (incluindo em termos de manutenção de saúde mental) aos colaboradores confinados em teletrabalho, empresas que disponibilizam meios digitais para que os filhos dos seus colaboradores possam continuar a estudar “à distância”, empresas atentas às tantas vezes inesperadas “necessidades COVID-19”, empresas que combatem a inevitável sub-ocupação de alguns colaboradores, reforçando fortemente a sua formação (on line) e aumentando as suas competências, empresas que estão já a montar complexos (e dispendiosos) esquemas de progressivo regresso ao local de trabalho com preservação da saúde e segurança de todos, empresas, enfim, cujos líderes não se esqueceram que, mesmo em tempos de aguda crise como aquela que vivemos, se não continuarem a gerir o negócio de acordo com os agora chamados “critérios ESG” (Environmental, Social and Governance), e se não mantiverem a preocupação de contribuir para a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas, as suas empresas, ainda que agora “aguentem o negócio”, não estarão cá no futuro.

Como afirmou recentemente Paul Polman (CEO da Unilever entre 2010 a 2019, e actualmente membro da Direcção do Pacto Global das Nações Unidas), a actual crise pandémica, além de dizimar vidas, está a testar severamente as empresas, a verificar os limites da coesão social, a ameaçar rasgar “contratos sociais”. É um verdadeiro “teste ácido” à responsabilidade de muitas organizações e, infelizmente, muitas haverá que não passarão no teste.

Mas há combates que só se vencem com todos nas trincheiras em torno de um esforço comum, e não deixando nenhum soldado para trás. Para as empresas responsáveis, este é um desses combates.

 

 

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