Saúde mental sob pressão devido a desemprego, pobreza e exclusão social, diz estudo da Ordem dos Psicólogos

Na sequência da actual pandemia, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) lançou o relatório “Crise económica, pobreza e desigualdades – Relatório sobre Impacto Socioeconómico e Saúde Mental”. De acordo com o documento, a saúde e o bem-estar psicológicos não existem isolados do seu contexto, dependendo de um conjunto de determinantes socioeconómicos como a pobreza, a exclusão ou a precariedade e desemprego.

 

Desta forma, «a crise socioeconómica terá, inevitavelmente, um impacto negativo e acentuará estes determinantes, produzindo consequências negativas na saúde mental dos portugueses. Sendo que, por seu lado, os problemas de saúde mental agravarão a crise socioeconómica, diminuindo a produtividade e aumentando as desigualdades», lê-se no relatório da OPP.

Segundo os dados partilhados no mesmo relatório, «a pobreza vive de mão dada com o desemprego, a instabilidade laboral, a ausência de recursos financeiros, as dificuldades no acesso à educação e à saúde de qualidade e a má qualidade da habitação. Durante a pandemia COVID-19 e durante os períodos de crise socioeconómica todos estes factores se agravam, juntamente com o estigma, a vergonha, a discriminação e a exclusão associadas à pobreza».

De acordo com a Ordem dos Psicólogos, torna-se ainda mais premente uma verdadeira aposta nos serviços de apoio psicológico, quando os próprios estudos indicam que «um em cada três desempregados a receber subsídio sofre de um problema de saúde mental». Existem ainda evidências robustas que demonstram a relação entre o desemprego de longa duração e níveis de doença mental e suicídio mais elevados, segundo diversos dados, constata-se que o aumento da taxa de desemprego implica um aumento na taxa de suicídios e de homicídios

Paralelamente, o aumento do desemprego e a perda de rendimento está associado a um aumento das situações de violência doméstica. A Organização Mundial de Saúde refere que o número de casos de violência doméstica, durante o confinamento, aumentou até 60%. E não só o desemprego, mas também a instabilidade no emprego (o medo de o perder e de vivenciar dificuldades económicas) está também associada com um aumento de 33% no risco de apresentar problemas de saúde mental.

Os dados do relatório indicam que a pobreza ou a exclusão social atingem uma proporção alarmante nos cidadãos em situação de desemprego: 58,4%. «O desemprego tem um impacto negativo inequívoco no bem-estar subjectivo. Por exemplo, o aumento de 1% na taxa de crescimento do desemprego de longo prazo, eleva 7% a sensação de agravamento da vida. Mesmo depois de conseguirem voltar a encontrar um emprego, muitos indivíduos não retornam nunca ao seu nível anterior de satisfação com a vida. Mesmo pequenos períodos de desemprego podem causar danos significativos e permanentes na satisfação com a vida e felicidade dos cidadãos», pode ler-se no relatório da OPP.

O documento refere também que «Portugal é dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da situação de pobreza – pode demorar até cinco gerações para que as crianças pertencentes a uma família que esteja na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio». Paralelamente, «os indivíduos em sociedades com maiores desigualdades sociais têm pior Saúde Psicológica e bem-estar emocional».

De acordo com o relatório da OPP, verifica-se um aumento dos problemas de saúde psicológica em função da crise socioeconómica de 2008. Por exemplo, houve um crescimento de 30% dos casos de depressão entre 2011 e 2012 e um aumento da incidência dos primeiros episódios de depressão nas mulheres após os 45 anos e nos homens entre os 55 e os 64 anos.

Os dados do relatório da DGS – A Saúde dos Portugueses – Perspectiva 2015 – revelaram os efeitos negativos da crise socioeconómica na deterioração da saúde psicológica dos cidadãos portugueses. Por exemplo, o peso da sobrecarga das doenças mentais, relativamente aos anos vividos com incapacidade, no conjunto total das doenças é de 22,55%. Os dados do INFARMED mostraram que entre 2011 e 2012 houve um aumento de 7,6% nas vendas de anti-depressivos e estabilizadores do humor. As prescrições de ansiolíticos mais que duplicaram neste período entre os cidadãos com 65 anos ou mais.

Segundo a DGS, entre 2011 e 2013 o número de casos de perturbação mentais na infância em Portugal continental (seguidos no Sistema Nacional de Saúde) aumentou 168%.

 

Actual situação
A Ordem dos Psicólogos revela que tendo por base todos os dados e premissas referidos anteriormente, é inevitável o aumento dos problemas de saúde mental provocados pela crise pandémica e pela crise socioeconómica, tornando-se expectável um aumento da procura dos serviços e cuidados de saúde psicológica.

Todavia, a pandemia suspendeu serviços de saúde mental em 93% dos países do mundo; de acordo com a OMS, cerca de 75% dos serviços de saúde mental dos locais de trabalho e cerca de 78% dos serviços de saúde mental nas escolas foram parcialmente perturbados.

Já em Portugal, em termos de resposta a situação não é a mais favorável. Embora existam cerca de 24.000 psicólogos no país e neste período se tenha criado a linha de aconselhamento psicológico do SNS24, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) conta apenas com 250 psicólogos ao nível dos cuidados primários (2,5 para cada 100.000 habitantes) e cerca de 1.000 no total.

No sentido de dar resposta à necessidade de crescimento económico e manter uma força de trabalho produtiva e saudável, e de dar resposta às problemáticas da pobreza, da exclusão social e das desigualdades sociais, a OPP destaca como relevante um conjunto de acções que permitam diminuir o impacto da crise socioeconómica, provocada pela pandemia COVID-19, na saúde psicológica dos portugueses. Entre outras, destaque para o maior acesso aos serviços e cuidados de saúde mental, mudança de comportamentos, intervenção no stress laboral e riscos psicossociais, aumento da literacia em saúde psicológica, promoção da resiliência e investimento na promoção da saúde mental nas escolas.

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