O Center for Responsible Business and Leadership da Católica-Lisbon promoveu a primeira edição do Mental Health in the Workplace Summit 2022. Mais de duas dezenas de oradores partilharam informação, desafios, boas práticas, projectos e até as suas experiências pessoais no âmbito da saúde mental.
Por Tânia Reis
Durante as duas manhãs dos dias 19 e 20 de Julho, cerca de 400 profissionais estiveram no auditório da Católica-Lisbon para ouvir as partilhas. A Human Resources esteve presente, na qualidade de media parter exclusivo do evento, na área da Gestão de Pessoas, a apresentar as ideias principais nesta reportagem.
Dia 1 O estado da arte
O primeiro dia foi dedicado ao estado da arte da saúde mental nas organizações. Filipe Santos, dean da Católica-Lisbon, reconheceu o papel das universidades e das escolas de negócios como espaços mobilizadores para as mudanças na sociedade, mas reforçou que são as empresas os grandes agentes sociais de mudança.
«A saúde mental em contexto profissional tem impactos negativos na economia e em toda a sociedade», afirmou o responsável. «Portugal é indicado como sendo o de maior risco de burnout e um dos países com taxas mais elevadas de doenças mentais. Estigma, profissionais pouco capacitados para o problema e líderes pouco sensibilizados são as barreiras que é necessário derrubar, aliadas à necessidade de uma «vontade mobilizadora de passar à acção».
Já Maria de Fátima Fonseca, secretária de Estado da Saúde começou por fazer notar que organizações saudáveis precisam de pessoas saudáveis, garantindo que a promoção do trabalho digno, sem descurar a saúde mental, está na agenda do governo. «A pandemia trouxe a visibilidade do tema e contribuiu para o fenómeno de o reconhecimento crescente da saúde mental não poder ser negligenciado por nenhum actor do governo e da sociedade.» Partilhar boas práticas e linhas orientadoras, mas também inspirar na primeira pessoa quem vive os desafios no dia-a-dia são medidas que devem ser adoptadas para se agir. Os investimentos na saúde dos colaboradores são essenciais para a produtividade e para o desenvolvimento económico e social, pelo que os modelos de organização do trabalho têm de ser ajustados ao contexto actual, defendeu. «Um ambiente de trabalho saudável e seguro é um direito fundamental de cada cidadão», acrescentou a secretária de Estado.
Online Empathy Gap
O neurocientista australiano e partner do Neuropower Group, Misha Byrne, levou os participantes numa viagem ao interior do cérebro, realçando que se há algo que caracteriza este órgão é a forte resistência à mudança. E se a pandemia provocou mudanças radicais na forma como o cérebro actuava, agora este tem de enfrentar mais uma mudança – a do trabalho híbrido. «Como podemos fazer o nosso trabalho e ainda nos sentirmos humanos?», foi a questão que colocou à audiência.
A verdade é que o desempenho e a saúde mental não caminham separados. «A humanidade passou por um reset, em que, devido a uma pandemia, passámos de um modelo presencial para um remoto, e agora estamos a atravessar um segundo reset, em que o remoto se tornou híbrido», explicou o neurocientista. As organizações não podem assumir que, apesar de termos sobrevivido aos últimos dois anos, esta realidade não tem consequências para os colaboradores.
Muitas empresas estão a investir em life skills, mas a transição para o modelo híbrido é atribulada. Segundo Misha Byrne, as lideranças enfrentam três grandes desafios: «Trabalhar em tempo de pandemia mexeu com o cérebro humano; o trabalho híbrido é um modelo diferente, e estamos todos a reaprender a funcionar nesta nova realidade; estes desafios e mudanças estão a levar a uma reavaliação do que é realmente importante.»
Além do défice de dopamina – neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e motivação – e alta fadiga cerebral, as alterações no modelo de trabalho levaram a um «online empathy gap», ou seja, as relações virtuais, sejam elas profissionais ou pessoais, afectaram a nossa capacidade de sentir empatia pelo outro e por nós mesmos.
«São vários os bons exemplos de empresas que conseguiram lidar e adaptar-se a esta nova realidade, mas a grande maioria não», revelou o especialista, partilhando que já há forma de apoiar as organizações neste caminho com abordagens baseadas na neurociência.
Portugal não está bem
É um estudo que o indica. Filipa Pires de Almeida, deputy director do Center for Responsible Business and Leadership, da Católica-Lisboa, e José Sintra, head of People Strategy da VdA, apresentaram o Research Note “Mental Health in the Workplace”, realçando que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 300 milhões de pessoas sofrem de depressão em todo o mundo. As conclusões da investigação revelam que a saúde mental afecta todos os departamentos nas organizações e que os empregadores que trabalharem o tema terão colaboradores mais motivados, saudáveis, produtivos, o que levará a uma maior atracção de talento. Entre as dimensões com maior impacto na saúde mental no trabalho encontram- se os riscos psicossociais, stress, tecnostress e burnout.
Leia a entrevista na íntegra na edição de Agosto (nº.140) da Human Resources, nas bancas.
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