Por Anabela Veloso, bastonária da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução
Quando, há uns dias, encontrei, nas redes sociais, um alerta de uma pediatra dirigido aos pais que, certamente assustados, ligavam ou enviavam mensagens a horas pouco apropriadas, parei para reflectir sobre a forma como, actualmente, vivemos o trabalho. Não deixa de ser irónico pensar que as ambições de outros tempos nos trouxeram até este lugar. Um lugar marcado por um contexto profissional cada vez mais exigente, acelerado e permanentemente ligado. De repente, não temos de estar no escritório para atender uma chamada, as cartas – tão estruturadas e ponderadas – foram substituídas por emails feitos de imediatismo e informalidade, a reunião pode acontecer em qualquer circunstância e não temos de esperar pelo dia útil seguinte para deixar um recado, pois basta ter whatsapp.
É neste cenário que temas como o burnout, a hiperconectividade e a dificuldade de conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar deixaram de ser questões periféricas para passarem a ocupar um lugar central na reflexão sobre o trabalho e a sustentabilidade das carreiras. Nas profissões jurídicas, e em particular em actividades como as de solicitador e agente de execução, esta realidade assume contornos especialmente desafiantes.
A pressão constante associada ao cumprimento de prazos, a responsabilidade inerente à gestão de processos sensíveis, a possibilidade de garantir tantas respostas a partir do smartphone, a necessidade de disponibilidade quase permanente e a relação diária com situações de conflito ou tensão emocional criam um contexto particularmente propício ao desgaste físico e psicológico.
Hoje, a tecnologia permite responder a um e-mail a qualquer hora, praticar actos, acompanhar processos e manter contacto permanente com clientes, colegas e entidades. Embora esta transformação tenha trazido ganhos claros de eficiência, trouxe também um efeito colateral significativo: a diluição das fronteiras entre trabalho e vida pessoal. A prometida flexibilidade resultou, afinal, em dependência e, de alguma forma, em trabalho invisível e não pago. Sim, vivemos numa lógica de disponibilidade contínua, em que o tempo de descanso é frequentemente interrompido por notificações, chamadas ou urgências.
Nas profissões liberais, este fenómeno é ainda mais intenso. Ao contrário de organizações e estruturas empresariais tradicionais, onde existem equipas maiores, divisão de tarefas e especializações, muitos solicitadores e agentes de execução acumulam várias responsabilidades em simultâneo. Além da componente técnica e jurídica – que exige estudo e formação contínua -, gerem equipas, clientes, organização administrativa, prazos, facturação e questões operacionais do escritório. O resultado é, muitas vezes, uma sensação permanente de ansiedade e sobrecarga.
O burnout surge precisamente neste contexto. Mais do que cansaço, trata-se de um estado prolongado de exaustão física e emocional, frequentemente acompanhado de perda de motivação, dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação de distanciamento em relação ao trabalho. Em profissões assentes num elevado sentido de responsabilidade e num envolvimento intenso, muitos profissionais têm dificuldade em reconhecer os sinais de desgaste, normalizando, durante demasiado tempo, níveis de stress excessivos.
Ao mesmo tempo, a má conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar acaba por gerar impactos que ultrapassam as paredes do escritório e o contexto laboral. A dificuldade em desligar, a ausência de tempo de qualidade com a família e a incapacidade de criar momentos de descanso efectivo comprometem não apenas o bem-estar individual, mas também a qualidade do exercício profissional. Um profissional exausto tende a tomar decisões menos eficazes, a comunicar pior e a perder capacidade de reacção e adaptação. Já para não falar nos efeitos sentidos pela família, alicerce de estabilidade e segurança.
Perante esta realidade e sendo claros os avanços na lei, torna-se essencial promover, na prática, uma cultura de trabalho mais equilibrada e sustentável, designadamente no universo das profissões liberais. E essa mudança começa, desde logo, pela criação de limites claros. Definir horários de trabalho, evitar responder sistematicamente a contactos fora de horas e reservar períodos efectivos de descanso não deve ser visto como falta de dedicação, mas como uma condição necessária para garantir qualidade e longevidade profissional.
A organização do trabalho é igualmente determinante. Delegar tarefas administrativas sempre que possível, automatizar processos repetitivos e investir em ferramentas de gestão pode reduzir significativamente a sensação de sobrecarga. Aqui, a inteligência artificial pode, efectivamente, ser uma aliada preciosa. Muitas vezes, o problema não está apenas na quantidade de trabalho, mas na dificuldade em estruturar prioridades e criar rotinas.
Outro aspecto essencial passa, sem dúvida, pela valorização do tempo pessoal e familiar. Manter espaços de desconexão é fundamental para preservar o equilíbrio emocional e estar ligado ao que mais importa. Actividade física regular, pausas durante o dia, hobbies e momentos de convívio não são “luxos” incompatíveis com o sucesso profissional. São factores decisivos. Vitais. E era aqui que a afamada flexibilidade poderia (e deveria) fazer toda a diferença, com ganhos irrefutáveis nos níveis de motivação e, consequentemente, na produtividade.
Também o combate à cultura da disponibilidade permanente merece reflexão. Estar sempre acessível e contactável não significa necessariamente prestar um melhor serviço ou ser um melhor profissional. Pelo contrário: profissionais que conseguem gerir energia, foco e equilíbrio tendem a ser mais empáticos, pacientes, compreensivos e a responder de forma mais eficaz, mais humana e mais consistente.
Num momento em que tanto se discute saúde mental no trabalho, importa reconhecer que a sustentabilidade das profissões jurídicas depende não apenas da competência técnica, mas também da capacidade de criar modelos de exercício profissional mais saudáveis. Cuidar do equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal não é um detalhe, não é um sinal de menor ambição e também não pode continuar a ser algo reservado a uma minoria. Cuidar de nós, profissionais, tem de ser, cada vez mais, uma condição respeitada para garantir carreiras longas, impactantes e sustentáveis. E, obviamente, vidas felizes.














