Por Anabela Veloso, Bastonária da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução
Durante décadas, as ordens profissionais estruturaram-se em torno de modelos assentes na especialização e na delimitação clara de competências, com, designadamente, leis de actos próprios. Cada profissão desenvolveu o seu espaço, com regras – nomeadamente de acesso -, práticas e culturas bem definidas. Este modelo garantiu rigor técnico, identidade profissional e confiança social. No entanto, o contexto actual — marcado pela complexidade dos problemas, pela crescente flexibilização, pela transformação digital e pela exigência de respostas integradas — está a desafiar a rigidez dessas fronteiras.
As alterações estatutárias mais recentes vieram viabilizar as sociedades multidisciplinares e trouxeram uma mudança relevante neste paradigma. A possibilidade de reunir, numa mesma estrutura, profissionais de diferentes áreas do saber abre caminho a uma nova forma de organização do trabalho e, consequentemente, de prestação de serviços. De repente, o valor é criado não apenas pela especialização, mas também pela articulação entre saberes.
No contexto da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução e das restantes ordens profissionais, esta evolução levanta questões estratégicas que vão muito além do enquadramento jurídico. Será que as sociedades multidisciplinares permitem responder de forma mais eficaz às necessidades dos cidadãos e das empresas? Serão sinónimo de soluções mais completas e menos fragmentadas? Como será possível atrair, integrar e gerir pessoas em estruturas cujo modelo deixa de ser unidimensional e passa a ser colaborativo e interdisciplinar?
Sem grande esforço, rapidamente conseguimos imaginar que se possa encontrar benefício em, por exemplo, num mesmo espaço, obter aconselhamento jurídico, serviços de topografia e acompanhamento em áreas como arquitectura e/ou engenharia. A integração destas competências numa mesma estrutura reduz fricções, aumenta a eficiência e reforça a abrangência. Contudo, não deixa de surgir a dúvida: deverá, pela protecção do cidadão, haver limites a estas uniões? Ou deverá prevalecer sempre o interesse da flexibilização, na certeza de que haverá sempre ganhos?
É neste cenário que as ordens profissionais continuam a ter de ser capazes de preservar a identidade e a exigência técnica das suas profissões, garantindo que a multidisciplinaridade não dilui competências, mas antes as valoriza. Este equilíbrio exige uma gestão cuidada das carreiras, da formação e dos modelos de desenvolvimento profissional. A especialização continua a ser essencial, mas passa a coexistir com a necessidade de adaptação a um mercado de trabalho mais volátil. Ou seja, as ordens também terão de encontrar novas formas de dialogar e colaborar no acompanhamento dos profissionais – inclusive quanto à sua formação e fiscalização.
A verdade é que, para os Recursos Humanos, esta realidade também implica uma mudança profunda na forma como se pensa e integra o talento numa estrutura que não tem uma especialização perene. Já não basta recrutar bons profissionais em cada área. Nesta lógica de partilha de recursos, é necessário identificar perfis capazes de trabalhar em equipa, de comunicar entre disciplinas e de compreender problemas de forma transversal. A colaboração e a versatilidade deixam de ser elementos acessórios e passam a ser competências centrais.
No entanto, apesar de todas estas exigências, tal poderá ser, afinal, uma oportunidade. As novas gerações procuram ambientes dinâmicos, onde possam aprender, experimentar e desenvolver competências em diferentes áreas. Estruturas mais abertas e colaborativas tornam-se, por isso, mais apelativas e alinhadas com as expectativas actuais do mercado de trabalho.
Não nos deixemos petrificar pelas dúvidas e percamos os medos. A multidisciplinaridade pode funcionar como um catalisador de mudança. Ao promover a integração de diferentes competências, cria-se um ecossistema mais dinâmico, mais resiliente e mais preparado para o futuro. A questão central não é, portanto, se as sociedades multidisciplinares devem existir. Creio que o foco deverá ser a sua integração de forma inteligente e sustentável, sempre com atenção ao cumprimento dos limites estatutários. Importa, portanto, que saibamos desenhar modelos de colaboração eficazes, promover culturas organizacionais abertas e garantir que a diversidade de competências se traduz em valor concreto.
Quando tudo parece interligado – os problemas e as soluções -, as sociedades multidisciplinares surgem como uma evolução natural desse contexto. Para as ordens profissionais, representam um convite à adaptação. Para os Recursos Humanos, são uma oportunidade clara de redefinição da forma como se gere talento. Para os profissionais, esta é uma plataforma estratégica para sinergias. E, para a sociedade, podem inaugurar um caminho mais célere para soluções mais completas, mais eficientes e mais alinhadas com as expectativas. Poderemos então todos vir a ganhar com este modelo? A resposta só depende de nós. Todos. Afinal de contas, na cooperação é que está o ganho.












































































































































































































