Solidão e saúde mental: Um problema de todos

A solidão não afecta exclusivamente cada pessoa, afecta os negócios e a sociedade. Dados tangíveis comprovam isso mesmo. E as empresas enfrentam um grande desafio: estamos tecnologicamente conectados, mas será que estamos relacionalmente conectados?

 

Por António Saraiva, Business Development Manager da ISQ Academy

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS), no seu 13.º Programa Geral de Trabalho (GPW13), identificou a Saúde Mental com uma necessidade de implementação acelerada. Esta iniciativa especial para o período 2019-2023 é tanto mais importante quanto a Saúde Mental fica ao abrigo da Universal Health Coverage (UHC), determinando que a ninguém pode ser negado o acesso aos cuidados de Saúde Mental, independentemente de ser rico ou pobre, ou de habitar num local remoto.

O princípio é simples: não existirá saúde, ou mesmo desenvolvimento sustentável, sem saúde mental. A depressão e os distúrbios de ansiedade representam um custo na economia global de cerca de um trilião de dólares por ano. Mas, mais grave ainda, existem por ano 800 mil óbitos derivados de suicídio, com a principal incidência nas pessoas mais jovens. Um estudo muito recente, realizado em Inglaterra, diz-nos que cerca de 5% das pessoas adultas sentem-se frequentemente ou sempre sozinhas. Daí que a solidão seja um tema nuclear e com forte impacto nas condições de saúde mental.

Será que somos facilitistas quando defendemos, privilegiamos e apelamos a um trabalho ágil, flexível e remoto? À partida é a via mais correcta para os tempos actuais. Mas há um enorme desafio para as organizações: podemos estar tecnologicamente conectados, mas será que estamos relacionalmente conectados? A solidão não afecta exclusivamente cada pessoa, afecta os negócios e a sociedade. Um conjunto alargado de investigações demonstra que os trabalhadores solitários têm o dobro dos dias de licença por doença, manifestam um menor engagement organizacional e os níveis de desempenho diminuem significativamente. A solidão é notória no desempenho dos colaboradores, já que tende a prejudicar a criatividade, os níveis de produtividade e contribui para a diminuição da capacidade de tomar decisões. Os colaboradores mais solitários são vistos como pessoas de relação difícil, com impacto no trabalho colaborativo.

Como se verifica, a solidão não é tão só uma questão social. Os estudos demonstram que pode também aumentar o risco de se desenvolverem sérios problemas de saúde, como o aumento do risco de doenças cardíacas, maior propensão para o acidente vascular cerebral (AVC), estados depressivos, défice cognitivo ou mesmo um quadro de demência.

Outros estudos relacionam a COVID-19 e a forma como a mesma afecta a ansiedade das pessoas, demonstrando que os indivíduos que se sentem sozinhos frequentemente ou sempre têm cerca de cinco vezes maior probabilidade de terem níveis elevados de ansiedade. Ou seja, o impacto da solidão pode ser efectivamente tangível.

As empresas devem estar bem posicionadas para oferecerem suporte aos colaboradores que se sentem sós, definindo políticas claras e ajustadas à realidade em termos de bem-estar.

Mas como combater a solidão no espaço laboral? Garantindo que a integração inicial de um colaborador na organização tem uma componente social; incentivando o networking, dinamizando a colaboração entre equipas isoladas e proporcionando que cada colaborador amplie a sua própria rede de contactos; criando espaços sociais (presenciais e virtuais); organizando eventos de teambuilding (presenciais ou virtuais); reconhecendo e celebrando as conquistas individuais, colectivas e da concretização dos objectivos da empresa; criando estruturas de suporte para obviar a solidão: o poder do coaching, da dinamização de um wellbeing team, da formação, esquemas de trabalho flexível e do acesso a aconselhamento específico ou apoio a processos CBT (Cognitive Behavioural Therapy).

Há que valorizar a temática da solidão. Num contexto organizacional, muitas empresas já possuem mecanismos para a acção. Mas e o impacto significativo de forma transversal na sociedade? Em particular, em certos grupos como os idosos e, também, nos mais jovens? Mas esse é outro tema…

Se actuarmos sobre a solidão, é um passo significativo para a redução do estigma associado à saúde mental.

 

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº 120) da Human Resources.

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