Sonae MC: A saúde e segurança como prioridade das empresas

Para a maioria das empresas, uma área de Segurança e Saúde no Trabalho não passa ainda de um imperativo legal. No entanto esta área é muito mais do que isso.

 

A lei define com muita clareza o seu objectivo: promover a saúde e as condições de trabalho em ambiente ocupacional. Eis, então, uma função de âmbito alargado e de natureza fundamentalmente preventiva: engloba acções de vigilância periódica, acções para minimizar o impacto do trabalho na saúde e na segurança de todos e, como saúde não é só ausência de doença, um mundo de oportunidades no domínio do bem-estar geral.

Os serviços internos de saúde ocupacional da Sonae MC foram formalmente constituídos nos anos 80. A crescente dimensão da empresa levou rapidamente à necessidade de focar os dois eixos de intervenção – saúde e segurança – pelo que as duas áreas se autonomizaram trabalhando, porém, com grande ligação, partilhando várias actividades e objectivos, sob a mesma alçada. Na Sonae MC estas áreas estão integradas na Direcção de Recursos Humanos central, assumindo desde o início um scope de actividade que Por: se estende a empresas do grupo.

A área especifica de Medicina do Trabalho na Sonae MC desenvolve-se em dois níveis de actuação:

a) Um nível “operacional” de exercício da medicina. Dispomos de um corpo de profissionais de saúde alargado (cerca de 90) de forma a dar cobertura à dimensão e dispersão da empresa (aproximadamente 40.000 colaboradores) que exercem a sua actividade em 180 gabinetes médicos abrangendo lojas, centros de distribuição de fabrico e estruturas centrais, e suportados por um sistema de gestão de consultas comum atingindo mais de 40.000 exames médicos planeados por ano.

b) Um nível de gestão central, que subdivide a sua actividade entre uma gestão operacional de toda esta equipa de saúde e dos locais físicos e na definição das políticas, orientações, procedimentos e gestão de programas preventivos de bem-estar.

Par da Medicina é a área de Segurança no Trabalho, cujo objectivo é minimizar o risco (acidentes) através da criação de condições de trabalho seguras. Constituída por um conjunto de profissionais de SST que são eminentemente profissionais de terreno, tem uma gestão central, e fundamentalmente avalia riscos, investiga acidentes e quase acidentes, identifica formas de reduzir risco nos equipamentos e no seu manuseamento, analisa processos de trabalho, sensibiliza e forma equipas, desenvolve projectos ergonómicos… São mais de 1200 auditorias de segurança por ano e uma média de 70.000 horas de formação.

Impossível o exercício desta área sem o compromisso dos gestores de negócio onde tudo se passa. O rigor, a excelência operacional e a liderança são factores imprescindíveis para o atingimento de resultados, pois o acidente controla-se no exercício operacional.

A actividade de SST vem resultando numa redução sustentada do número e da gravidade de acidentes e, consequentemente, de dias perdidos de trabalho, demonstrando a importância da sua actuação.

Actualmente colocam-se a estas áreas novos desafios:

  • A crescente preocupação da empresa com o bem-estar da equipa, com a sua motivação e compromisso, trazem para a SO uma maior intervenção em mais eixos de gestão de RH.
  • Por outro lado, a evolução demográfica que se vivencia, com o envelhecimento paulatino e sistemático da nossa população traz-nos a acentuação de problemas de saúde que impõem um foco especial na sua mitigação.
  • Compaginar estas realidades com a necessidade de produtividade acrescida e a optimização de recursos que caraterizam cada vez mais a nossa actividade económica trazem para estas áreas novas complexidades, com preocupações e linhas de acção que exigem uma compreensão do negócio mais alargada.
  • Finalmente, o contexto extremo pandémico que atravessamos e a ameaça que paira de novas formas de risco de saúde pública tornam esta área de intervenção crítica numa óptica até de continuidade e sustentabilidade de negócio.

 

A situação da pandemia que atravessamos tem sido uma prova de fogo à preparação e resiliência de Saúde Ocupacional (Medicina e Segurança). Não se tratou só de definir as regras de saúde, mas de apoiar o negócio no procedimento concreto da sua implementação.

Mas começando pelo princípio: quando as primeiras campainhas de alerta soaram do outro lado do mundo e assistíamos estupefactos ao que ali se passava, ainda com a esperança de que a evolução da doença se invertesse ou ficasse geograficamente localizada, montámos o nosso Observatório de Saúde (DGS, ECDC, OMS), elaborámos uma matriz de risco que nos apoiasse na gestão da crise e identificámos as principais acções de preparação.

Ao mais alto nível da organização fomos chamados a constituir uma equipa de “Gestão de Crise COVID-19” que mobilizasse a empresa a preparar-se para a emergência que poderia advir. E foi assim que começou um dos maiores desafios que tivemos na nossa vida profissional, num projecto que foi de mobilização, engenho e superação inimagináveis.

Tratou-se de mobilizar e preparar para esta emergência centros de produção, de distribuição e de retalho, estruturas centrais, num total de aproximadamente 40.000 colaboradores dispersos por várias geografias, com centros de decisão autónomos e estendendo ainda a acção a outras empresas do grupo.

Constituímos a equipa com um núcleo core de SST conjuntamente com algumas áreas imprescindíveis: a Gestão de Risco, a Comunicação Interna e a Gestão de Recursos Humanos das várias unidades de negócio. Criámos de seguida grupos de trabalho nas áreas core de negócio: Comercial e Cadeia de Abastecimento, Operações Logísticas, Operações Retalho, Operações E-commerce, áreas de serviços (Segurança, Limpeza e Manutenção).

Janeiro e Fevereiro foram meses de trabalho incrível no desenvolvimento de todos os planos de contingência (14 planos elaborados de negócio), dos procedimentos operacionais e de edificação da estrutura que haveria de gerir a crise conjuntamente com a Comissão de Liderança e os negócios. De salientar aqui a constituição de uma Linha de Apoio Interna que se revelou a espinha dorsal do combate e de controlo à doença. Criada para esclarecimentos, orientação, análise de casos suspeitos, tratamento de casos confirmados e registo interno de ocorrências, esta linha recebeu e efectuou cerca de 240.000 chamadas e trabalhou 24x24horas nos períodos críticos.

O negócio tropeçou em muitas dificuldades, partilhadas pela generalidade das empresas, mas que vivemos na primeira pessoa: o afluxo brutal de clientes às nossas lojas que nos deixaram perto da ruptura; o aumento exponencial do acesso ao on-line; o absentismo; a inexistência de máscaras e gel nos primeiros tempos, dificultando a implementação de medidas de protecção dos nossos trabalhadores, primeira linha de exposição; as cercas sanitárias e fecho de unidades.

Olhamos para trás e vemos uma Saúde Ocupacional integrada com uma gestão de Recursos Humanos e com os negócios a produzir um conjunto de soluções. Porque foi um tempo de fazer acontecer: teletrabalho nas estruturas centrais, antes de ser obrigatório; defesa das populações de risco; identificação das funções críticas a proteger; novos regulamentos de viagens com limitações de mobilidade; definição política de quarentena, assumindo a Sonae MC os custos das ausências; procedimentos de como actuar em caso suspeito, casos confirmados, espaços e limpezas; avaliação de temperaturas à entrada de entrepostos, unidades e outros edifícios; elaboração de cartazes, manuais e mensagens de formação e informação das equipas – 12.000 horas em 2020, abrangendo 34.000 colaboradores; desenvolvimento de um plano de rastreio através de aplicação de testes (logo a partir de Abril); desenvolvimento de uma ferramenta de gestão de risco (Trace COVID); maior programa de vacinação da gripe gratuita de sempre, abrangendo cerca de 9000 colaboradores; formação específica dirigida aos colaboradores em teletrabalho para gestão de tempos, organização pessoal, profissional.

Passámos já por três vagas oficiais e o bom momento que atravessamos permite olhar o futuro com esperança. A estrutura e o acompanhamento de SST mantêm-se vivos, mas reduziram a sua dimensão e intensidade no acompanhamento COVID.

Reatámos um movimento muito aguardado (e já anteriormente vivido), denominado internamente de “Better Return”. Trata-se da preparação cuidada de regresso aos escritórios (inquéritos, formação, comunicação interna, regras de presença nos espaços de trabalho e sociais, de horários de início, de utilização de EPIS, exame médico de regresso…) com implementação de um modelo de trabalho semi presencial e rotativo, assim assegurando o cumprimento de todas as medidas de segurança.

Os nossos colaboradores disseram-nos que se sentiram seguros na primeira fase de regresso e sabemos que actualmente têm vontade de regressar, mas também que valorizam bastante um modelo de trabalho híbrido.

Reconhecemos que estas alterações não são meramente transitórias e afectarão os modelos de trabalho futuro: este período tão continuado de trabalho à distância veio demonstrar as vantagens do mesmo, quer para a empresa quer para o colaborador. E, nessa medida, um novo mundo na organização do trabalho se antecipa e irá seguramente ser integrado. Na Sonae MC temos vindo a avaliar estes modelos futuros e parece claro que trabalho em escritório, em modelo híbrido e até full remote poderão vir a ser adoptados com atenção ao contexto e necessidades individuais.

O trabalho em casa veio evidenciar vários impactos no âmbito da saúde ocupacional, alguns completamente novos que tenderão a ser objecto de muita reflexão futura. Por exemplo, como se estende a segurança no trabalho à casa de cada um; a tipificação de “acidente de trabalho”; a proliferação do trabalho “ao computador” com toda a problemática ergonómica que acarreta; o impacto da autogestão do trabalho à distância (sempre on/produtividade/equilíbrio físico e mental); a motivação e o engagement do trabalhador, o exercício da liderança, o isolamento vs, convívio e networking informal; a integração e aprendizagem…

Se nos últimos anos o tema dos riscos psicossociais e da saúde mental tem vindo a ganhar dimensão, afirma-se agora matéria incontornável, designadamente com o confinamento a que fomos sujeitos e com a pressão verificada sobre os pais em teletrabalho.

Na Sonae MC tentamos dar as melhores condições aos colaboradores que têm estado em casa, quer físicas (equipamentos), quer motivacionais, quer de equilíbrio emocional. O período pandémico foi fértil em comunicação interna que nos tentou manter todos próximos: formação online diversa, programas e eventos motivacionais, reuniões live streams, ginástica online… Introduzimos consultas online de psicologia, reforçamos seguro de saúde, alargámos o seguro de AT ao teletrabalho, acelerámos as consultas de medicina do Trabalho, etc.

Porém, mais do que dinamizar iniciativas avulsas, que temos em abundância, pretendemos trabalhar este tema de forma integrada e sustentável, como programa de equilíbrio que traga naturalidade na abordagem às questões de saúde mental e ajude as pessoas a lidarem com elas ou a procurar ajuda específica.

Termino sublinhando o papel crescente e os desafios assinaláveis que se colocam à Saúde Ocupacional na empresa, assumindo-se esta, cada vez mais, como eixo fundamental de sustentabilidade da empresa. Na recente carta aos seus stakeolders onde recupera o incrível percurso de crescimento da Amazon, Jeff Bezos declara a sua visão de médio-longo prazo que destaco aqui: “We are going to be Earth’s Best Employer and Earth’s Safest place to work”. Sem dúvida uma referência inspiradora para nossa reflexão!

 

Esta entrevista faz parte do Caderno Especial “Segurança e Saúde no Trabalho”, publicado na edição de Maio (n.º 125) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.

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