
Susana Sargento, Route25: «Os desafios humanos são sempre os mais complexos, mas ultrapassados dão os melhores frutos»
A mobilidade autónoma deixou de ser apenas uma promessa futurista. Em Portugal, o projecto Route25 está a transformar investigação em soluções concretas. A coordenadora de uma das equipas de investigação do Instituto de Telecomunicações que integra o projecto e professora catedrática da Universidade de Aveiro, Susana Argento, fala sobre os desafios e as oportunidades que esta iniciativa abre para novos perfis profissionais e para a retenção de talento.
Por Tânia Reis
Liderado por uma equipa multidisciplinar, o Route25 assume-se como um marco na inovação tecnológica nacional. Com demonstradores reais já apresentados e veículos autónomos em testes, o projecto integra comunicações 5G, inteligência distribuída e plataformas de realidade aumentada para criar cenários de mobilidade segura e cooperativa.
Em que consiste o projecto Route25?
É um projecto de mobilidade autónoma, que tem como objectivo mobilizar a investigação e a economia nacional em veículos autónomos, mobilidade inteligente, e cidades e estradas conectadas e preparadas para uma mobilidade mais sustentável.
Que objectivos foram definidos? E que resultados alcançaram até agora?
Os objectivos foram muito ambiciosos pois comprometemo-nos em ter demonstradores de larga escala de mobilidade autónoma em cenário real e com veículos reais. Esses demonstradores foram desenvolvidos, os cenários de demonstração reais foram apresentados em Setembro de 2025, e temos dois veículos autónomos no Instituto de Telecomunicações, nos quais testamos todas as novas tecnologias que vamos desenvolvendo. Como exemplos, no demonstrador de Aveiro, tivemos veículos autónomos que comunicam para coordenar manobras de ultrapassagem, interacção segura com peões e ciclistas, soluções de estacionamento inteligente, plataformas de visualização de dados com realidade aumentada, mobilidade intermodal e tecnologias de conectividade 5G e computação distribuída.
Como se lidera uma equipa multidisciplinar que integra especialistas em áreas tão diversas?
Na minha equipa temos vários sub-grupos, cada um numa área concreta, como as manobras cooperativas, as comunicações 5G e V2X, percepção cooperativa, ou gestão de dados, que têm como objectivo evoluir cada uma das áreas. No entanto, estes grupos estão interligados e são definidos muito claramente quais as funcionalidades e requisitos de cada área e sistema, para que a integração seja um processo eficiente. A comunicação entre as pessoas e entre as equipas é chave para que a equipa funcione como um grupo unido.
Que estratégias utiliza para manter a motivação e o alinhamento num projecto tão inovador e exigente?
Tentamos sempre mostrar como estamos a fazer investigação e inovação em algo não existente a nível internacional. Além disso, estamos todos no mesmo patamar, a investigar soluções novas e desafiantes, que requerem muito de nós como um grupo.
Qual o papel da comunicação interna na gestão de equipas científicas e tecnológicas? Há práticas que considera essenciais?
Considero que a comunicação e a abertura são essenciais: comunicação dentro do mesmo sub-grupo e entre os vários grupos para definir onde queremos chegar e o que se espera de cada um; e abertura para que o trabalho seja realmente realizado em equipa, para que cada pessoa saiba o que os colegas estão a desenvolver, e percebam como integrar e ajudar.
Quais foram os maiores desafios humanos e organizacionais no desenvolvimento do projecto?
Dentro da nossa equipa no Instituto de Telecomunicações, os maiores desafios centraram-se na criação de um local amplo e fechado para testes de condução autónoma, de acordo com as regulamentações necessárias, e com os processos de safety necessários para realização dos demonstradores. Foi necessário realizar uma análise de risco minuciosa para poder realizar as demonstrações em segurança. Posso dizer que os desafios científicos e tecnológicos são sempre os mais simples de resolver; os desafios humanos e logísticos são sempre os mais complexos, mas que ultrapassados, dão os melhores frutos.
Como se gere a pressão por resultados concretos quando se trabalha em investigação aplicada com prazos definidos e financiamento público?
Temos sempre de ter um grande profissionalismo e organização: antecipar todos os problemas que podem acontecer, preparar as equipas para os desafios, e ter sempre um tempo extra para os desafios que não estavam contemplados inicialmente.
Como vê a evolução das competências necessárias para trabalhar em projectos que cruzam tecnologia, mobilidade e conectividade?
A área da conectividade é central para este projecto, pois só poderemos evoluir e ter uma segurança máxima na condução autónoma quando um veículo tem informação de tudo o que se encontra à sua volta, que não consegue ser apenas adquirido pelos seus sensores, mas também pelos sensores da infra-estrutura, outros veículos, pessoas, e todos os elementos na ou próximo da estrada. Só com a cooperação entre todos será possível tomar as melhores decisões. Esta área acoplada à mobilidade permite que criemos redes de comunicações em movimento, e poder ter inteligência distribuída por todos. Estas áreas, integradas com inteligência (artificial) e decisão distribuída, são chave para as competências dos nossos engenheiros e investigadores.
Que competências foram mais críticas para transformar a investigação em soluções aplicadas no contexto do Route25?
Como referi acima, muitas vezes o mais difícil é resolver os problemas de logística e regulamentação. Ao nível da investigação, a possibilidade de utilizar computação por visão integrada com percepção cooperativa, comunicações, edge computing e modificação do mecanismo de controlo do veículo, entre outros, foram desafiantes, mas tiveram uma boa evolução. Temos equipas fantásticas com conhecimentos excepcionais e uma óptima motivação.
Que oportunidades trouxe este projecto para a criação de novos perfis profissionais e para a retenção de talento em Portugal?
No nosso caso tivemos a possibilidade de ter contratos de trabalho para investigadores mestres e doutorados, e permitir que eles tenham boas condições de trabalho e remuneração num ambiente de investigação. Sem estas pessoas tão qualificadas, apenas com bolsas de investigação, seria impossível desenvolver trabalho com esta qualidade e ter soluções aplicadas e resilientes.
Este projecto envolve tecnologias emergentes. Como se gere a actualização constante de conhecimento dentro da equipa?
Estamos sempre, constantemente, a aprender. A curiosidade e a partilha de informação entre todos permite que estejamos sempre com informação das últimas novidades, dos últimos artigos científicos. Participamos nas maiores conferências internacionais na área, o que nos permite, não só estar por dentro das mais recentes inovações, como também mostrar até onde conseguimos evoluir, e mostrarmo-nos ao mundo. Felizmente, somos conhecidos internacionalmente pelo trabalho que realizamos, e pelos living labs que criamos em cenário real.
Que lições tem retirado desta experiência e que gostaria de partilhar com outros líderes de equipas científicas?
Os projectos podem ser muito desafiantes, não só tecnologicamente, mas também de implementação em prática e espaço urbano, principalmente se a regulamentação ainda não nos permite avançar. No entanto, este nosso trabalho pode ser utilizado para avançar esse desenvolvimento, e até para implementarmos a mudança de regulamentação associada. Desta forma, os desafios e dificuldades podem ser analisados como oportunidades para criar mudanças mais profundas, novo conhecimento, e preparar equipas mais motivadas e resilientes.