O Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, está a implementar uma nova abordagem na disciplina de Laboratório de Física Experimental (LFE) que incentiva os estudantes a desenharem as suas próprias experiências, deixando de lado o tradicional guião experimental.
Desenvolvida ao longo do ano lectivo de 2025/2026, esta metodologia coloca os alunos no centro do processo, desafiando-os a conceber projectos experimentais que respondam às questões propostas, com orientação mas sem protocolos rígidos. A iniciativa contou com a orientação do físico Eric Mazur, da Universidade de Harvard, que acompanhou a estreia do novo laboratório de Física no Técnico no início deste ano.
Os estudantes iniciam o trabalho fora do laboratório, investigando fenómenos ópticos ou acústicos e recolhendo dados experimentais pela cidade de Lisboa. Posteriormente, utilizam estes dados nos laboratórios do Técnico para desenvolver competências técnicas em instrumentação e análise, culminando na concepção e execução de um projecto da sua autoria.
«Queríamos eliminar o guião sem comprometer os padrões de qualidade», explica Marco Piccardo, docente responsável pela unidade curricular, que liderou o projecto-piloto juntamente com Patrícia Conde Muíño, com o apoio de Gabrielle Vaz e Maria Inês Nunes. Para Marco Piccardo, «os alunos devem apropriar-se da questão e do aparelho, mantendo-se responsáveis pela calibração, repetibilidade, incerteza e evidência». Acrescenta ainda que «o resultado mais importante não é que as ideias funcionem imediatamente, mas sim que os estudantes tratem o fracasso como informação e continuem a aperfeiçoar a experiência».
Um dos estudantes que participou no piloto referiu que «a forma como a informação foi apresentada conseguiu um equilíbrio entre dar pistas suficientes aos estudantes e encorajá-los a procurar e aprender por si próprios». Acrescentou que «noutras aulas, testam a nossa rapidez a seguir o protocolo e a recolher dados, mas aqui temos de pensar mais naquilo que está a acontecer – e é certo que compreendemos o que estamos a fazer, porque fomos nós que decidimos que o deveríamos tentar».
O projecto-piloto dividiu-se em desafios de acústica e de óptica. No desafio de acústica, os alunos tinham de transmitir um sinal, detectá-lo com microfones e identificar os seus componentes de Fourier. No de óptica, o objectivo era construir um espectrómetro.
Embora o objectivo estivesse definido, o percurso para o alcançar ficou a cargo dos estudantes. Esta distinção é fundamental: enquanto uma disciplina experimental convencional prescreve a sequência dos componentes e procedimentos, o novo modelo permite que diferentes grupos escolham fontes, geometrias, sensores e métodos de análise distintos. Os formadores intervêm apenas com perguntas, verificações de viabilidade e marcos técnicos, sem orientar para uma única solução correcta.
O projecto-piloto serviu como teste de viabilidade, não como uma avaliação controlada dos resultados de aprendizagem. Os indicadores foram positivos: os grupos apresentaram soluções visivelmente diferentes para o mesmo briefing técnico, surgiram concepções ambiciosas e os estudantes demonstraram capacidade para desenvolver trabalho autónomo.
A disciplina Laboratório de Física Experimental redesenhada está prevista para começar em Setembro de 2026, integrada na Licenciatura em Engenharia Física Experimental. Os seus dois módulos, acústica e óptica, combinarão investigação ao ar livre, trabalhos de laboratório supervisionados e períodos de laboratório aberto. A avaliação contínua dará ênfase à autonomia, responsabilidade do grupo, rigor experimental, profissionalismo e qualidade do raciocínio subjacente a cada decisão.














