«O que nos está a acontecer não é nenhuma anemia para a inovação; é, sim, uma oportunidade para questionar, simplificar, fazer diferente, mas melhor.»
Por Maria João Martins, managing partner da My Change
«Estamos perante o enorme desafio de mudarmos algumas crenças que, por vezes, nos aprisionam. As crenças criam-nos a ideia de que apenas elas são verdadeiras, certas e absolutas. Dão-nos a ilusão de que sabemos muito bem como resolver isto ou aquilo, que caminhos temos para controlar o mundo e ainda nos dão a ideia de que temos tudo organizado. E depois vem uma pandemia e isso abala toda a nossa organização pelas crenças e ficamos sem chão.
Há coisas que não podemos mudar, mas, se observarmos atentamente a situação em que estamos, certamente encontraremos pelo menos algo que está
ao nosso alcance poder fazer. Mudar crenças pode abrir um mundo de possibilidades. Pequenas acções podem fazer uma grande mudança. Que impacto podemos ter na hora de decidir sobre as nossas cações e omissões como pessoas apaixonadas por pessoas? Cada um de nós tem o poder de se influenciar e de influenciar os outros, tanto ao nível prático quanto emocional.
A realidade pós-pandemia será tão novidade como o momento que vivemos, e não considero que seja ainda possível afirmar ao certo todas as suas implicações no futuro. No entanto, acredito que existirão mudanças várias que serão acompanhadas por uma predisposição para a reinvenção.
O que nos está a acontecer não é, em meu entender, nenhuma anemia para a inovação; é, sim, uma oportunidade para questionar, simplificar, fazer diferente, mas melhor. Outro tópico interessante tem sido a tecnologia e a sua utilização, inegável nas suas vantagens, que certamente precisaremos de regular. Muitas foram as empresas que apressaram processos digitais que estavam em planeamento, sem tempo para testes-piloto. A escola online obrigou muitos pais, e até profissionais da educação, a uma capacitação digital aprendida na prática, e a telescola voltou. Museus e galerias mostraram-se no digital, dando-nos a possibilidade de uma, diferente, experiência imersiva. A gamification acelerou. Fizemos e estamos a fazer Yoga pelo Zoom e perdemo-nos em reuniões consecutivas virtuais em todas as plataformas e mais algumas.
Não deixámos de viver, simplesmente intensificámos a vivência de tudo, sem a oportunidade de um abraço. E nós somos seres emocionais. Temos de ajudar os líderes das equipas a serem capazes de dinamizar a concretização de objectivos, mantendo uma proximidade que não permite abraços, e sem se esquecerem de que o “homem sente, logo existe”. Espaço ao reconhecimento das emoções é fundamental, ao mesmo tempo que teremos cada vez mais que saber gerir equipas híbridas, em modo virtual e presencial.
Para mim, apesar de muitos caminhos estarem ainda sem luz, acho que percebemos que, também neste cenário, se fomentou a criatividade no desenvolvimento dos negócios, se percebeu a capacidade de adaptação rápida e a necessidade de digitalização. Ainda mais, questionaram-se os próprios modelos de relacionamento pessoal e a sua adaptabilidade.
As crises potenciam a revisão de valores e a mudança de hábitos. Acredito que a cooperação e a empatia continuarão a imperar, que a criatividade e capacidade de adaptação empresarial não se vão esgotar e que serão trazidas para a realidade, neste mundo reinventado.
Vejo que a liderança deverá ser cada vez mais reforçada por uma atitude de Coaching. É o posicionamento que mais potencia o crescimento das equipas em todo o seu potencial, e que melhor se aplica às gerações de idades diferentes. Vejo o papel dos profissionais de Recursos Humanos alinhados com o negócio, mas estimulando ainda mais algumas praticas junto de todo o colectivo das suas organizações:
1. Viver de forma consciente e comprometida com a estratégia;
2. Assumir as responsabilidades a 100%, fazendo com que se apropriem objectivos interdependentes e onde a colaboração impera; estimular a conectividade e o networking interno;
3. Procurar a auto-afirmação, deixar que os desempenhos e o potencial se revelem;
4. Fazer viver o propósito da organização e espelhar nela os seus propósitos, o que implica criar espaço para a autenticidade e para a escuta activa de ideias;
5. Estimular e proteger a integridade da pessoa completa, com o seu lado A e com o seu lado B;
6. Compreender a compaixão que cada um deve ter por si próprio, pois isso leva à autocrítica, desafio e crescimento;
7. Construir ambientes de verdadeiro feedback, não o demasiado formal que não produz conversas poderosas, mas aquele que se dá para fazer evoluir e também o reconhecimento que é fertilizador da repetição do que realmente interessa.
Construir culturas onde se diz “gosto de ti”, és muito importante para mim, acredito que vais melhorar, gosto de colaborar contigo, sinto que a tua energia me faz ser melhor, sei que tens ideias giras para partilhar, … Cada um de nós pode ser um oasis de paz muito inspirador e contagiante para os outros. Desenvolver a inteligência emocional que constrói pontes com clientes, colegas e parceiros vai ser mais importante do que nunca, num mundo mais digital. Será a combinação perfeita.
Sinto que os directores de Recursos Humanos têm um enorme poder. Podem achar que não, que o “sistema” atrofia o pensamento criativo do líder de People e lhe tira a energia positiva, mas que tem poder, tem. Não é o poder burocratizado das ordens de serviço e procedimentos que podem ditar, mas é o poder de tudo fazer para restituir aos ambientes de trabalho, aos líderes e equipas acreditarem em si e viverem um verdadeiro sentido de propósito. Para isso, é preciso “engenho e arte”, o engenho de saber, e a arte de projectar e fazer sentir.
Acredito que as empresas que souberem melhor valorizar a experiência e o conhecimento, dando vida a iniciativas inter-geracionais, vão ser mais fortes, e apostam numa outra crença que temos que cada vez mais adoptar: é que “quando tu ensinas, tu aprendes!”.
Sinto que temos que investir mais no segredo das boas relações interpessoais, que está em coisas simples e que não pagam imposto: que tom uso quando comunico? Que generosidade aplico? Como agradeço? Como cuido do outro? Como dou e recebo feedback? Isso sim, fará parte das melhores propostas de valor das organizações, onde todos desejarão estar de forma apaixonada.
Este artigo faz parte do tema de capa da edição de Julho (n.º 115) da Human Resources.














