Teresa Nascimento: «Uma pandemia é uma oportunidade de mudança de mentalidades»

A COVID-19 pode ser uma grande oportunidade de mudança na liderança das organizações. Só não será para quem forçar o mesmo paradigma.

 

Por Teresa Nascimento, VP of People da DefinedCrowd

 

Apesar de por vezes eu própria reagir e me indignar com certas atitudes de líderes que ainda insistem no controlo, no presentismo, na arrogância e na falta de sensibilidade, mais do que nunca sinto uma certa empatia por esses líderes. A enorme pressão de accionistas, investidores, advisors, opinião pública, colaboradores, entre outros é um bloqueador para abandonarem as suas crenças, a mentalidade retrógada e a sua capacidade para experimentarem novos modelos.

Cada vez mais pressionados pelos resultados e pela necessidade de manter postos de trabalho, vêem com perplexidade muitos outros sectores e empresas florescerem, liderados por gestores, alguns muito mais jovens, que se preocupam em não manter a sua força de trabalho refém no home office e suas consequências. Preocupados em lidar com a ansiedade dos profissionais e garantir o seu bem-estar. Preocupados em manter os níveis de produtividade entre colaboradores, as relações profissionais saudáveis, entre outros. Às vezes penso que estávamos doentes e não sabíamos.

Esta nova era, altamente acelerada pela tecnologia, que vai ver empresas morrerem repentinamente, também vai ver novos modelos emergirem com uma força imparável e que são a corporização das novas atitudes e das novas formas de estar na liderança de pessoas.

No que de melhor tenho visto, destaco sem dúvida a emergência da coragem. A coragem de viver com a diferença alheia e respeitá-la como nunca, apreciá-la de facto. A coragem de demonstrar fragilidade e de navegar a ambiguidade sem saber o que será o amanhã e comunicá-lo com transparência, convicção e regularidade, dando conforto mas partilhando as dúvidas.

A empatia que gera afiliação como nunca, a preocupação em manter as equipas unidas, a comunicar e a ventilar o medo que se instala. A saúde mental e o equilíbrio emocional nunca foram tão importantes e vão estar no topo das agendas muito em breve, sob pena de nos confrontarmos com problemas muito maiores.

A abertura de canais de comunicação e a auto-consciência de que o ser humano é gregário, um ser social, e que seres humanos confinados são a denegação da liberdade que gera insatisfação, a qual virá ao de cima com uma força animal que só líderes e managers com coragem e verdadeira conexão às pessoas conseguirão gerir.

É esta a grande lição da história e a grande oportunidade de termos uma liderança mais equilibrada, menos falsa, menos irresponsável e mais solidária. O momento exige mesmo mais humanidade e líderes mais preparados para lidar com a fragilidade humana.

Para muitos, este é um momento assustador, mas eu sinto uma enorme esperança no futuro. Ainda vou ver, na minha vida profissional activa, a liderança com que sempre sonhei e que me esforço por implementar por onde passo. E também verei certamente o fim de paradigmas enfermos que já não servem senão para manter líderes infelizes e geradores de pessoas sem a auto-estima e a força para darem o seu melhor. Este é um momento de esperança, se me é permitido um nadinha de lirismo e sonho.

De novo a minha enorme empatia para com todos os líderes que têm a coragem de navegar áreas nunca antes exploradas na gestão das suas pessoas.

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 116) da Human Resources.

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