Por Elsa Bizarro, directora de Recursos Humanos da Premium Green Mail
Há jogadores que dispensam apresentações longas porque o seu trabalho está visível em cada partida e Vitinha pertence a essa categoria rara de profissionais que sustentam o jogo a partir do meio do terreno, com uma disponibilidade total para receber pressão, reorganizar a equipa e devolver a bola a quem está em melhor posição. O futebol europeu reconheceu esta qualidade, primeiro com hesitação e depois com a evidência dos títulos. Na Selecção, o seu papel é ligar linhas, descomprimir momentos difíceis, oferecer soluções quando o adversário aperta o cerco. Olhar para Vitinha é, no fundo, olhar para aquilo que toda a organização deveria saber identificar e proteger.
Na gestão de pessoas, este tipo de perfil costuma ser subestimado. Os critérios habituais de avaliação privilegiam o brilho individual, a métrica visível, a entrega quantificável, mas um profissional do “tipo Vitinha” funciona noutro registo. A sua contribuição mede-se na qualidade do que acontece à volta dele, na fluidez de processos que poderiam encravar, na capacidade de transformar pressão em transição organizada e quem dirige equipas tem de saber que estes elementos são insubstituíveis. Normalmente, quem não os reconhece em tempo útil acaba por substituí-los por contratações brilhantes, que nunca conseguem ocupar o mesmo espaço, ou perdê-los para a concorrência mais atenta.
Olhemos para a realidade operacional de empresas que compõem o grosso do tecido económico nacional, em especial aquelas que atuam na área da distribuição. A atuação dessas empresas depende, todos os dias, de uma malha de profissionais que asseguram o cumprimento de prazos, a rastreabilidade de processos e a relação de confiança com cidadãos e empresas, ali mesmo no terreno onde todos os erros são imediatamente visíveis. Esses profissionais não aparecem nos lugares de destaque, mas são eles que garantem que a operação funciona em momentos de stress, são eles que recuperam falhas pontuais e que permitem aos colegas mais visíveis brilhar com tranquilidade. Identificar estes perfis é a primeira tarefa de qualquer função de recursos humanos. Protegê-los é a segunda, e talvez a mais difícil.
A protecção implica decisões estruturais, desenhar planos de carreira que valorizem a continuidade e a fiabilidade, e não apenas a explosão pontual. Obriga a criar mecanismos de reconhecimento que olhem para a contribuição efectiva e não para a visibilidade imediata, a políticas de retenção que percebam o impacto silencioso destes profissionais e que se antecipem a propostas externas. Sem este cuidado, perdem-se rapidamente, e a sua saída deixa um vazio que demora meses a ser preenchido, frequentemente com resultados muito negativos para toda a equipa.
Há uma dimensão cultural a considerar. As equipas que aprendem a valorizar o “Vitinha” interno tornam-se mais resilientes, mais cooperativas e menos dependentes de figuras isoladas. A cultura de empresa beneficia quando o reconhecimento se estende a quem facilita o trabalho dos outros, quem partilha informação, quem evita conflitos desnecessários, quem assume sem ruído a responsabilidade pelas operações menos visíveis. Já o contrário, organizações onde só conta o protagonismo individual, gera ambientes competitivos no pior sentido do termo, com desgaste acelerado dos próprios protagonistas.
O Mundial de 2026 oferece-nos uma metáfora oportuna. Numa Selecção repleta de talento individual, com avançados sapodecisivos e laterais de classe internacional, é provável que muitos dos resultados se decidam pela qualidade do trabalho de quem ocupa o miolo do terreno e as empresas vivem o mesmo paradoxo. Podem ter equipas comerciais brilhantes, lideranças carismáticas e estratégias bem desenhadas, mas o desempenho final depende sempre da camada intermédia que faz tudo funcionar. Procurar, formar e reter esses profissionais é uma das tarefas mais sérias dos recursos humanos contemporâneos. Sem eles, não há jogo coordenado nem resultado consistente.














