Um carro como benefício: faz sentido?

Continua a ser o benefício social mais comum em Portugal atribuído pelas empresas aos trabalhadores e é fortemente subsidiado pelo Estado. Mas é, provavelmente, o activo de uma empresa com a utilização mais ineficiente.

 

Por Ricardo Jorge, fundador e CEO da YoYoLoop

 

 

Há pelo menos duas décadas que a atribuição de um carro da empresa deixou de fazer sentido para quem procura oferecer aos colaboradores um benefício extra que sirva como alternativa aos elevados custos fiscais que um aumento em numerário representa.

O que outrora foi um sinal de status para o colaborador e de boa política de Recursos Humanos para uma qualquer organização, acaba por representar hoje um procedimento com poucas vantagens e, na verdade, um activo de utilização altamente ineficiente. Além disso, penaliza o ambiente, a qualidade de vida das pessoas e diversos aspectos da nossa economia interna. Mesmo que continue a ser o benefício social mais comum em Portugal atribuído pelas empresas aos respectivos trabalhadores por conta de outrem.

O uso individual do automóvel (importado, poluidor e gerador de engarrafamentos, por exemplo), é fortemente subsidiado pelo Estado português. Se não, vejamos: para ganhar os 75 euros que pode custar o chamado “passe”, precisei pagar 11% de segurança social e 25% a 40% de IRS. A minha empresa ainda pagou mais 23,75% em segurança social. No entanto, os 400 euros de renting, mais 200 euros de combustível e 60 euros em portagens que a minha empresa gasta com a minha mobilidade todos os meses, têm apenas 10% de tributação autónoma. O IVA corrige parte deste disparate (o “passe” paga 6% e o combustível 23%), mas isso é muito pouco e não muda o sentido dos incentivos.

E se alguém tiver novas ideias de mobilidade (em regra são soluções de mobilidade partilhada e mais sustentáveis) dentro das cidades ou intercidades, terá que competir com alternativas no mercado subsidiadas pelo Estado.

O enquadramento fiscal do uso do automóvel de empresa foi-se tornando mais exigente, mas a realidade é que a maioria das empresas continua a assumir que os carros estão numa pool partilhada e que, por isso mesmo, o uso não é individual. Todos sabemos que isto não é assim, mas toda a gente vai fechando os olhos porque “já temos uma carga fiscal tão elevada… que há que aproveitar!”

 

Nova geração de benefícios

Por outro lado, o automóvel como complemento de ordenado é, provavelmente, o activo de uma empresa com a utilização mais ineficiente. Se somarmos os valores do renting, do combustível e das portagens, chegaremos facilmente a um valor médio anual de oito mil euros por carro de empresa, a pagar por um activo que está parado 95% do tempo.

A solução passa pela aposta cada vez maior nos chamados Benefícios Flexíveis, que algumas empresas, mais avançadas na gestão de Recursos Humanos, estão já a implementar. Este tipo de benefícios responsabiliza o indivíduo, dando-lhe o poder de escolher como usufruir do benefício fiscal, designadamente escolhendo os serviços de mobilidade individual, colectiva e partilhada que têm uma melhor relação qualidade – preço. Seria importante que fosse adoptado por mais empresas com políticas de Recursos Humanos modernas, mas sobretudo ganhar do Estado uma política fiscal que fomentasse a sua adopção, em vez de simplesmente prolongar a utilização de modelos ultrapassados que apenas encontram vantagens nos interesses instalados.

Em termos práticos, será mais útil ao país (e a para cada um de nós) apostar na existência de benefícios fiscais para quem usa transportes públicos ou soluções de mobilidade partilhada.

E se juntarmos esses mesmos benefícios fiscais a soluções inovadoras de mobilidade, que optimizem recursos já existentes através de plataformas digitais móveis, a breve prazo poderemos ter um novo paradigma de benefícios, integrados em soluções Recursos Humanos cada vez mais úteis para as empresas.

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