O aumento do trabalho remoto, aliado à volatilidade e aos despedimentos em massa no mercado de trabalho global, tem tornado cada vez mais ténues os limites do que é um horário de trabalho razoável.
Consequentemente, milhões de europeus estão a perceber que o trabalho está a invadir cada vez mais o seu tempo pessoal.
De acordo com um estudo da Eurofound, publicado em Junho, cerca de um em cada cinco trabalhadores da UE afirma ser contactado por motivos de trabalho fora do horário normal de expediente várias vezes por mês, o que gera um stress adicional significativo e reforça a cultura do “sempre ligado”.
Cerca de 59% dos trabalhadores europeus inquiridos pela Eurofound afirmaram que sentem sempre ou quase sempre stress no trabalho. O estudo constatou que a frequência com que os trabalhadores são contactados fora do horário normal de trabalho está directamente ligada a níveis mais elevados de stress.
Em contrapartida, apenas 17% dos trabalhadores que nunca foram contactados fora do horário de trabalho referiram sentir-se stressados.
A cultura do “sempre ligado”, cada vez mais prevalente, está a ter um impacto significativo na saúde mental e no equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Segundo a Eurofound, a sobrecarga de trabalho foi o principal factor que levou ao contacto fora do horário de expediente.
Os trabalhadores remotos, em particular, tiveram dificuldades em manter os limites e foram mais frequentemente expostos a horas extraordinárias, horários irregulares e “invasões” de trabalho no seu tempo livre, para além da expectativa de que deveriam estar constantemente disponíveis.
«Entre os colaboradores com horários de entrada e saída flexíveis, 64% referem ser contactados fora do horário de trabalho pelo menos ocasionalmente, em comparação com 49% dos que têm horários fixos. Um padrão semelhante aparece em relação ao local de trabalho: 63% dos teletrabalhadores reportam este tipo de contacto, em comparação com 48% dos colaboradores que trabalham exclusivamente no escritório”, referiu o inquérito da Eurofound.
Uma combinação de factores operacionais, pessoais e culturais impede os trabalhadores de se desligarem completamente, incluindo o medo de perder oportunidades, as expectativas da gestão, as aplicações de trabalho nos seus telemóveis e a preocupação de serem percepcionados como substituíveis.
Num esforço para proteger melhor o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal dos trabalhadores, vários países europeus, incluindo França, Itália, Bélgica, Espanha, Portugal, Irlanda, Grécia e Luxemburgo, introduziram medidas legais, regulamentos laborais ou códigos de conduta no local de trabalho com o objectivo de limitar o contacto fora de horas e salvaguardar o direito dos colaboradores ao descanso.
Estas medidas variam desde leis que garantem o direito à desconexão e alterações aos códigos de conduta do trabalho até acordos colectivos e códigos de prática não vinculativos.
Apesar destes avanços, a implementação e fiscalização das regras continuam a ser um desafio. As abordagens nacionais variam consideravelmente, criando um cenário regulamentar fragmentado em toda a Europa. Os empregadores também precisam de lidar com culturas de trabalho profundamente enraizadas, onde a disponibilidade constante é essencial, enquanto o trabalho híbrido, a colaboração internacional e as equipas transfronteiriças podem dificultar o estabelecimento de limites claros entre o tempo profissional e o pessoal.
Isto é particularmente verdade para os gestores seniores e para os colaboradores com regimes de trabalho flexíveis, cujas funções envolvem frequentemente horários irregulares, maior autonomia e colaboração em diferentes fusos horários. Como resultado, pode ser menos claro quando se espera que estejam disponíveis e quando começa o seu tempo pessoal.
Em alguns países, determinadas obrigações aplicam-se apenas a empregadores acima de uma determinada dimensão, o que significa que os trabalhadores de empresas mais pequenas podem não beneficiar do mesmo nível de protecção.
O medo de represálias ou de serem percepcionados como menos empenhados pode também levar os colaboradores a responder voluntariamente a comunicações de trabalho fora do horário normal, dificultando a promoção de mudanças culturais duradouras por parte das organizações.














