E se um jogo ajudasse a levar o propósito ao mundo corporativo?

O tema do propósito é essencial para as empresas porque permite aumentar o engagement, reforçar a cultura organizacional, promover a comunicação entre as pessoas e criar equipas mais conectadas. Agora há um jogo para levar a experiência vivencial do propósito ao mundo corporativo.

 

Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

 

Carla Gouveia, fundadora da Healthychange e Executive Coach & Advisor, trouxe o Purpose Mining Game para Portugal e é a única embaixadora no País certificada para a sua aplicação a nível corporativo. Em entrevista à Human Resources, explica como funciona e quais as vantagens que traz, quer às empresas, quer aos seus profissionais.

 

O tema do propósito já não é novo nas empresas. Antes da pandemia, surgia, pelo menos na teoria, como prioritário nas agendas de Gestão de Pessoas, até como forma de atrair e reter talento, tido como um dos principais desafios das empresas. Também é importante haver esse propósito nos profissionais?
Eu diria que se antes da pandemia ele já surgia nas agendas, então, durante a pandemia ele tornou-se vital. A pandemia trouxe um conceito de finitude inimaginável. Surgiram ansiedades, medos e receios escondidos e pôs a descoberto o significado mais profundo das coisas e da vida. Por isso, o sentido do propósito passou a ter um impacto maior nas pessoas. E, obviamente, isso inclui o que fazemos em todas as esferas da nossa vida, e também na vertente profissional.

 

Acredita que a maioria das pessoas sabe qual é o seu propósito, a nível profissional?
Não há vários propósitos. Há um propósito apenas. Aquele que nos apaixona, nos faz esquecer o tempo, nos faz sonhar, nos motiva, nos dá prazer. Tenho dúvidas de que a maioria das pessoas saiba o seu propósito a nível profissional, porque a maioria simplesmente não sabe qual é o seu propósito.

Eu própria passei anos e anos sem saber qual era o meu, não sentindo a sua falta. Esta versão chama-se viver com o piloto automático ligado. Este sistema automático é, sem dúvida, muito útil na maioria das nossas actividades diárias, permite-nos poupar imenso tempo em rotinas que não acrescentam valor. No entanto, ele é tão bom quanto é assustador, porque levado ao seu expoente máximo faz com que possamos percorrer a vida toda com ele ligado sem pararmos para pensar e reflectir sobre nós.

O que sei hoje, é que há cada vez mais pessoas interessadas em fazer momentos de paragem e de reflexão para aprofundarem o seu auto-conhecimento incluindo, sem dúvida, a vertente profissional.

 

Que importância teve e como influenciou o seu percurso, descobrir o seu propósito?
Vivi imensos anos sem ele e sobrevivi. Hoje, é mais fácil olhar para trás e pensar que fiz algumas tentativas de me aproximar dele, mas que não fui bem-sucedida, porque, por várias razões e circunstâncias, deixei os automatismos e receios comandarem o meu percurso até então. Em Março de 2020 aconteceu o que aconteceu e, de repente, o mundo parou.

Como eu estava já nesse processo e tinha tomado a decisão de tirar um ano sabático, deixei que as coisas fossem acontecendo. Acabei por me “atirar” para um projecto pessoal e lancei o meu site, mais tarde a minha marca, e, hoje, tenho a minha empresa, a Healthychange.

Entretanto, simultaneamente, resolvi investigar mais sobre o tema do propósito, porque queria trazer algo de mim às pessoas. Queria algo que me fizesse conectar com tudo o que era e sou hoje e que fosse como uma versão melhorada de mim mesma.

Descobrir o propósito deu-me clareza de espírito nas minhas escolhas. Posso partilhar que a sensação é a de estar muito mais alerta ou, melhor, desperta para o que me vai acontecendo, e sentir mais certeza e segurança nas escolhas que vou fazendo dia após dia, trazendo-me prazer e felicidade. A sensação é excelente.

 

E para as empresas, é importante não só saberem qual o seu propósito, mas também que os seus profissionais saibam o seu?
Para as empresas, o tema do propósito é essencial, porque daí advém um conjunto de benefícios e vantagens para a organização em várias vertentes, tais como aumentar o engagement, reforçar culturas, promover a comunicação entre as pessoas, criar equipas mais conectadas e promover sinergias. O propósito corporativo cria e une laços e, como tal, é uma excelente metodologia para atrair e reter talentos, e acelerar a comunicação intra e inter-empresa.

 

Foi por isso que decidiu certificar-se em Purpose Mining Game e trazer o conceito para Portugal, em concreto para o mundo corporativo?
Quais os benefícios que confia que traz? O Purpose Mining Game é uma experiência vivencial forte que quebra barreiras entre as pessoas, agiliza a comunicação, motiva a interacção e activa o trabalho em equipa. É uma ferramenta de desenvolvimento, em forma de jogo de tabuleiro, virtual – apesar de existir fisicamente –, para explorar aspectos profundos e reais do propósito de equipas.

Os benefícios são claros no que diz respeito a contruir equipas com um mindset construtivo e inovador. Em termos de reforço de cultura, o jogo é fantástico, porque explora com as pessoas as características comuns entre elas e a empresa, o que irá permitir construir um mapa de cultura da empresa ou da equipa, activando os valores essenciais e que podem reforçar a cultura dominante e pretendida. Ao mesmo tempo, ficam expostos os elementos do contexto e os valores que não têm aderência com a cultura dominante.

Ao actuarmos na cultura organizacional e daí definirmos o propósito, aumentamos automaticamente a retenção dos colaboradores, que é claramente outro dos benefícios desta abordagem, a atracção e retenção de pessoas.

O propósito foca-se no presente, e isso faz com que as pessoas tenham uma maior motivação e satisfação com o seu próprio trabalho.

 

Decidiu certificar-se numa abordagem que acreditou ser diferenciadora e capaz de trazer grandes benefícios a quem a experiencia e nomeadamente aos líderes e às suas equipas…
Sim, sem dúvida. Fazemos muitos brainstormings, muitos workshops, muitos momentos de team building, mas o “Jogo do Propósito” é inovador e único. Nasceu de muita pesquisa cruzada e vai buscar elementos a inúmeras bases teóricas, como a Gamificação, Psicologia Positiva, Teoria Integral, Teoria U, Cultura e Aprendizagem Organizacional, entre outras. Toda esta base científica subjacente dá segurança ao que se está a fazer e atribui um significado lógico ao processo em si mesmo.

O purpose mining pode fazer a diferença nos líderes e em como eles actuam nas suas equipas. O tema da liderança sempre me fascinou, e acho que é um tema inesgotável, porque são humanos a liderar, com todas as suas inseguranças, crenças e virtudes, inerentes à condição humana. Então, a responsabilidade de ser um líder atento, criador, responsável, cuidador, sábio, com dimensão humana, é algo muito exigente que precisa de uma estrutura de suporte forte e de muito treino.

Muito se fala da liderança e dos líderes dos dias de hoje, mas não há nada como viver a liderança, envolver genuinamente as pessoas e as equipas, ajustar, treinar e descobrir juntos, num verdadeiro processo de conexão entre todos. Esta abordagem é isso mesmo: descobrir e vivenciar o propósito em conjunto. Por isso acredito tanto nos seus efeitos práticos. O propósito é acção. Sem acção, não há propósito. Há apenas intenção.

 

O que é exactamente o Purpose Mining Game e como pode ser jogado nas empresas?
Como disse, é um jogo. E a metodologia para as empresas começa por explorar os aspectos do propósito, na cultura organizacional, através do jogo, com as pessoas de toda a empresa, de uma equipa ou de um grupo de trabalho, ou seja, de um colectivo que faça sentido para a empresa.

Depois de se explorarem os aspectos do propósito na cultura da empresa, consolidam- se esses aspectos num propósito declarado consensual. Essa declaração de propósito é convertida numa estratégia e, em seguida, em objectivos que englobam o sistema de forma integral – perspectivas interna e externa, individual e colectiva. Esses objectivos são desdobrados em acções e indicadores, metas e actividades. Juntamente com este processo, capacita-se a equipa interna para desenvolver e promover o envolvimento com a cultura de propósito, que será a base para qualquer execução estratégica.

 

Joga-se individual ou colectivamente?
No propósito corporativo constrói-se com as pessoas e não para as pessoas. Vamos usar o exemplo de uma equipa e imaginar que o que queremos trabalhar é o propósito dessa equipa. Ora, temos de o fazer através das pessoas que compõem essa equipa. O que significa que, apesar de estarmos a jogar individualmente, estamos a fazê-lo com foco no propósito desse grupo, dessa equipa. Primeiro exploramos através do jogo, e depois fazemos uma sessão em equipa para consenso e consolidação da declaração do propósito.

No propósito individual, em que a empresa quer dar a oportunidade aos colaboradores de descobrirem o seu propósito, a empresa pode fazê-lo de várias formas. A primeira, e a mais simples de todas, é colocar isso no seu plano de formação e desenvolvimento pessoal e profissional, com foco no bem-estar emocional das pessoas e no impacto que isso traz às suas relações com os que as rodeiam.

Outra forma é propiciar o jogo individual, mas jogado, num grupo de pessoas, que se podem conhecer ou não, mas com foco no propósito individual. A empresa, ao fazer isso, tem de dar a possibilidade às pessoas de decidirem se querem ou não jogar. A decisão não pode ser da empresa, tem de ser de cada um. Há exposição, por isso o ambiente tem de ser de confiança. Se o colaborador se sentir confortável com a decisão, irá receber imensos presentes das outras pessoas, como feedback e até mesmo palpites. É um jogo colaborativo.

O jogo pode ser feito 100% online, o que se revela como um factor de interesse adicional para conectar pessoas, de diferentes geografias e contextos.

 

Diria que áreas como estas, ligadas ao propósito e ao bem-estar, serão determinantes para o sucesso das empresas no pós-pandemia?
Acredito que o equilíbrio emocional dos colaboradores nas empresas é fundamental, e isso passa por aumentar o número de vezes em que nos sentimos bem e temos prazer no que estamos a fazer. Então, o propósito conecta-se com o conceito de realização no presente.

Atrevo-me a dizer que viver mais o presente implica aumentar o potencial de felicidade. E para que haja a possibilidade de isso acontecer, há uma jornada que envolve foco, trabalho e muita determinação das empresas. Há muito a fazer no pós-pandemia. Que tal começar por conectarmos propósitos?!

 

Esta entrevista foi publicada na edição de Outubro (nº.130)  da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

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