Era uma vez… uma floresta pouco encantada. Outrora previsível, com ciclos bem definidos e caminhos seguros, hoje em dia irreconhecível e um lugar em constante transformação. Uma verdadeira “natureza morta” ao vivo. Os animais andavam desorientados com tanta mudança. Dizia-se que teria sido contaminada pelo vírus VUCA. Antes disso, parece que era um great place to live. Mas isso era dantes. Agora, parece um cenário dantesco.
Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer da ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
Esta podia ser uma fábula de La Fontaine, dos tempos modernos. Mais adequada a 2025, onde o caos e a ordem florescem no mesmo habitat natural (que mundo “chaordic” este!), e impera a “lei dos que melhor se adaptam”. Mito ou não, pelos corredores todos falavam de uma criatura que prosperava na confusão. Um ser lendário que sabia quando mudar, quando correr e quando esperar, alterando a sua forma e mentalidade.
Diziam que não era um ser comum, mas sim um híbrido “três em um”: um misto de camaleão, lebre e tartaruga. Uma fusão muito improvável, mas que representava tudo o que era necessário para sobreviver e vencer neste novo mundo. Quando havia um “alerta”, este ser ajustava-se à situação e enfrentava-a, com a sua faceta mais adequada. Se esta história se passasse numa floresta de pedra, aliás, num escritório, esta criatura chamar-se-ia intraempreendedor. Atentem nas comparações.
Certa manhã, a floresta acordou envolta num nevoeiro intenso. Os animais entraram em pânico, correndo de um lado para o outro sem saberem para onde ir. No entanto, no meio da desordem e da confusão, surgiu “Camaleão”, que se manteve imóvel. Ele não combatia a névoa, não se debatia contra o desconhecido. De olhos bem abertos, observava, sentia e ajustava-se ao ambiente. Sabia que, quando tudo à sua volta se tornava incerto, era preciso acalmar a mente e adaptar-se ao momento. Não era o mais forte que sobrevivia, mas antes aquele que sabia mudar sem “perder a cabeça”! Que criatura astuta e com elevada inteligência emocional. Os que aprenderam com o “Camaleão” tornaram-se os mestres da adaptação. Dos outros, que não se adaptaram, não reza a história…
Num outro momento, uma tempestade violenta varreu a floresta. Em poucas horas, os trilhos e os caminhos conhecidos desapareceram e muitos animais ficaram paralisados, à espera de que tudo voltasse ao normal. Mas a “Lebre” não hesitou. Correu, saltou, testou novos caminhos e encontrou atalhos que ninguém tinha visto. Sabia que, neste contexto, ficar parado era o mesmo do que ser deixado para trás. Não só era rápida, como era audaciosa e corajosa. Evitava as “rodas de hamster”, para onde tantos corriam sem nunca sairem do lugar, presos a pensamentos ruminantes. Para a “Lebre”, inovar era agir primeiro, aprender depois e ajustar continuamente. Os que a seguiram tornaram-se mestres da experimentação e eternos aprendizes.
Finalmente, quando tudo e todos pensavam que a situação iria acalmar, depois da tempestade não veio a bonança – pois a tradição já não era o que tinha sido. A floresta enfrentou uma seca interminável. Os riachos desapareceram, os alimentos escassearam e o desespero tomou conta de muitos. Sabe-se que a “Tartaruga” terá seguido o seu caminho, devagar, mas sem parar. Sabia que, às vezes, era preciso “engolir sapos” (metaforicamente, claro!) – e aceitar situações difíceis, ser paciente e esperar pelo momento certo para agir. Os que aprenderam com a “Tartaruga” tornaram-se resilientes e persistentes, perante a adversidade.
Algo parecia evidente para todos aqueles que sobreviveram às intempéries e que foram inspirados por esta criatura. A floresta jamais voltaria a ser o que era. O caos estava instalado e fazia parte do seu dia-a-dia. Aceitando este mundo incerto e imprevisível em que viviam, estavam tranquilos porque dominavam a arte de navegar no desconhecido.
Moral da história: esta fábula não é sobre um ser mágico. É um convite à descoberta do “Camaleão”, da “Lebre” e da “Tartaruga” que há em cada um de nós, combinando a astúcia do camaleão, a agilidade da lebre e a persistência da tartaruga. Essa pode ser uma descoberta mágica! E de se lhe tirar o chapéu…
Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 171) da Human Resources, nas bancas.
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