Por Sandra Brito Pereira, directora de Pessoas e Sustentabilidade da Securitas Portugal
O debate sobre sustentabilidade empresarial em Portugal tem-se concentrado sobretudo na dimensão ambiental. Falamos de emissões, de energia renovável, de metas para 2030 e de relatórios ESG cada vez mais detalhados. Mas há um pilar essencial que continua a receber muito menos atenção do que deveria: o desenvolvimento das pessoas.
É um paradoxo difícil de ignorar. A economia portuguesa enfrenta desafios estruturais de produtividade, qualificação e retenção de talento. A transição digital acelera, a inteligência artificial transforma sectores inteiros e a pressão competitiva aumenta. Ainda assim, a formação contínua permanece, em muitas organizações, num plano secundário. É vista como um custo variável, e não como uma infra-estrutura crítica para a sustentabilidade económica e social.
A verdade é que não existe sustentabilidade sem capital humano. E esta é uma discussão que Portugal precisa de trazer para a nossa agenda colectiva.
Nos últimos anos, várias empresas — de sectores tão distintos como tecnologia, saúde, indústria ou segurança — passaram a integrar o desenvolvimento das pessoas como um dos pilares das suas estratégias de sustentabilidade. Não se trata de um exercício de comunicação. Trata-se de reconhecer que a sustentabilidade é, antes de tudo, a capacidade de uma organização continuar a criar valor no futuro. E isso depende das pessoas que a constroem todos os dias.
Em entrevistas e debates sobre transformação digital e sustentabilidade, uma ideia surge repetidamente: a tecnologia, por mais avançada que seja, não substitui a capacidade humana de interpretar, decidir e agir com empatia. A inteligência artificial pode analisar padrões e antecipar riscos, mas não substitui o discernimento, a sensibilidade e a capacidade de gerir situações complexas. E estas competências não surgem por acaso — constroem-se.
É precisamente aqui que o desenvolvimento das pessoas se torna estratégico. Num país onde tantos trabalhadores da linha da frente enfrentam carreiras estagnadas e poucas oportunidades de progressão, investir na sua formação não é apenas uma questão de responsabilidade social. É uma questão de competitividade. Quando uma organização aposta em programas estruturados de formação técnica, relacional e interpessoal, de certificação ou reconversão, os resultados são claros: maior qualidade de serviço, maior motivação, menor rotatividade e maior capacidade de adaptação a novas tecnologias.
A ausência de investimento em competências tem custos elevados, ainda que muitas vezes invisíveis: perda de produtividade, maior probabilidade de erros operacionais, desgaste emocional das equipas e maior dificuldade em atrair e reter talento, como vários relatórios da OCDE têm demonstrado. A isto junta‑se um problema estrutural: segundo o Digital Economy and Society Index da Comissão Europeia, Portugal continua abaixo da média da União Europeia em competências digitais básicas e avançadas. E os dados do Eurostat mostram que a participação dos adultos portugueses em formação contínua permanece persistentemente inferior à média europeia. Este défice não se resolve com slogans ou campanhas pontuais; resolve‑se com estratégia, visão e investimento consistente no desenvolvimento das Pessoas.
A sustentabilidade do futuro será híbrida: tecnológica e humana. A inteligência artificial continuará a evoluir, no entanto exigirá trabalhadores capazes de a interpretar e de a integrar no seu trabalho. Os sistemas serão mais autónomos, mas dependerão de pessoas com pensamento crítico, capacidade de decisão, comunicação e liderança.
É por isso que o desenvolvimento das pessoas deve ser entendido como um pilar da sustentabilidade — não apenas das empresas, mas do país. Porque quando uma organização investe nas suas pessoas, está a investir na sua resiliência, na sua capacidade de inovar e na sua relevância futura. E está, também, a contribuir para uma economia mais qualificada, mais justa e mais preparada para enfrentar os desafios que aí vêm.
Portugal não pode continuar a discutir sustentabilidade apenas em torno do carbono. A sustentabilidade que verdadeiramente transforma é a que capacita pessoas. E essa começa dentro das organizações, todos os dias.
É por isso que acreditamos no walk the talk: alinhar discurso, decisões e práticas, colocando as pessoas no centro de uma sustentabilidade que é humana, responsável e transformadora.


















