Do algoritmo ao ritmo cardíaco

Opinião de Rui Roque, sociólogo

Human Resources
5 de Junho 2026 | 10:30

Por Rui Roque, sociólogo

 

 “Os pensamentos racionais nunca impulsionaram a criatividade das pessoas tanto quanto as emoções”.

(Marc Brackett, Ph,D)

 

Continue a ler após a publicidade
Ilustração de Soraia Barroca

No seguimento das minhas pesquisas anteriores, a presente pesquisa tem por objectivo avaliar a existência de uma ruptura/ continuidade relativamente aos conceitos de inteligência emocional/inteligência artificial.

Sendo certo que as nossas escolhas do presente se reflectirão no nosso futuro, a ilustração de Soraia Barroca mostra-nos a existência de uma cooperação, e não um conflito entre o ser humano e a máquina.

A imagem faz-nos pensar que a inteligência artificial reflecte a humanidade porque não transporta apenas a tecnologia, mas também os valores, as escolhas e os limites das pessoas que a criam e que desejam que da simbiose de ambas surja um melhor futuro para a Humanidade.

Continue a ler após a publicidade

Esta constatação suscita várias questões:

– de que modo a inteligência emocional poderá/pode condicionar a evolução e implementação da inteligência artificial?

– qual o estado emocional que me permite ser mais criativo?

– de que modo a literacia emocional pode ter um papel de excelência na construção de novas mentalidades, que permitam uma maior aproximação entre o emocional e o racional?

– o que é a literacia emocional e de que modo pode ser considerada, no presente, um ponto de inflexão relativamente ao passado e ao futuro?

Continue a ler após a publicidade

Optei por seguir o conceito de Ricardo Caldeira (2026), para quem a literacia emocional pode ser definida como sendo a capacidade de:

  • ler aquilo que não foi dito;
  • regular estados internos antes de reagir;
  • comunicar com responsabilidade emocional;
  • corrigir com dignidade, nunca com humilhação;
  • proteger a equipa quando o contexto pressiona;
  • utilizar a vulnerabilidade como força e não como fraqueza;
  • dar segurança e não apenas direcção;
  • traduzir as emoções em informação útil, em vez de as tratar como ruído.

Podemos resumir do seguinte modo os objectivos da literacia emocional:

  • melhoria de decisões;
  • redução dos conflitos; com o consequente aumento da colaboração;
  • ajuste de expectativas, aumentando a sensação de pertença o compromisso;
  • prevenção de burnout, uma vez que cria ambientes onde a performance emerge naturalmente por segurança, não por pressão.

Se o percurso percorrido pelo indivíduo é mesurável, o mesmo não se pode falar relativamente ao seu contributo para o futuro.

O traçado desse caminho será fruto das nossas emoções e dos nossos sentimentos, onde o tempo, encontrará sempre reflexo do presente e do passado. Se é certo que o passado pode ser mesurável numa equação, o mesmo não se aplica ao futuro, condicionado pelas emoções e sentimentos do presente. Neste processo colectivo, a inteligência emocional é a pedra de toque, na construção da inteligência artificial, tal como Tolentino Mendonça nos incita a reflectir: “O algoritmo é um mapa dos passos percorridos. O poema é um mapa dos caminhos a percorrer”.

Em suma, podemos afirmar que a IA complementa as capacidades humanas, em vez da sua substituição nua e crua.

Voltando à imagem de Soraia, vemos ainda o contraste entre a textura natural da mão humana e o aspecto metálico da mão robótica o qual evidencia a diferença entre a consciência/emoção e intenção humanas e a lógica e processamento característico das máquinas. Cada um de nós é único e não podemos generalizar, como se tudo fosse redutível a uma simples equação, tal como Arlindo Oliveira, define em Inteligência artificial: “A inteligência tem-se revelado uma prioridade difícil de caracterizar e de reproduzir e, ao longo de décadas, foram propostas muitas abordagens para atingir o objectivo de replicar, num computador, o comportamento inteligente que caracteriza cada um de nós”. Ou dito de um modo mais resumido: “As pessoas não funcionam como máquinas. Vivem, respondem e decidem emocionalmente”. (Caldeira: 2026).

Já Goleman considera que: “O êxito pessoal e profissional não depende da inteligência clássica, mas sim das nossas competências emocionais e sociais”.

Para Miguel de Unamuno (1864-1936), o ser humano é um “animal afectivo” e não apenas racional. A sua filosofia de vida assenta na experiência vivida, bem como na dor e na paixão.

Face, ao exposto anteriormente, torna-se pertinente, a valorização do indivíduo como parte integrante do grupo onde se insere, seja pessoal, seja profissionalmente. Além disso, esta valorização se traduzir-se-á num incremento dos inputs, o que certamente resultará numa mescla mais valorizada entre inteligência emocional e inteligência artificial e que podemos resumir a estas palavras de Miguel de Unamuno: “Sólo el que sabe es libre y más libre el que más sabe”.

Partilhar


Mais Notícias