A prevenção do suicídio não começa apenas quando uma pessoa verbaliza que quer morrer, começa muito antes. Em Portugal, estima-se que se suicidam pelo menos três pessoas por dia, sendo esta a segunda causa de morte nos jovens entre os 15 e 34 anos em todo o mundo. Números que continuam a demonstrar a dimensão de um problema de saúde pública que exige prevenção, identificação precoce e um maior acesso a cuidados de saúde mental.
Segundo Cátia Silva, psicóloga especializada em Autoestima, Depressão, Ansiedade, Luto, Burnout e PHDA, quando falamos em prevenção do suicídio, não podemos nem devemos falar apenas da intervenção em situações de crise. Para a psicóloga, a prevenção também acontece quando identificamos uma depressão, um luto que está a ter um impacto significativo, um isolamento progressivo ou alterações importantes no comportamento, para assim conseguirmos intervir antes de o sofrimento se agravar.
«Sabemos que o suicídio é um fenómeno multifactorial, ou seja, isto significa que não existe uma única causa que explique o comportamento suicidário. Por isso, é importante não cairmos na tentativa de encontrar uma única explicação. Na maioria das situações, existe uma combinação de factores e é precisamente por isso que precisamos de olhar para a pessoa, para a sua história e para o contexto em que está inserida», alerta.
Factores de natureza psicológica, biológica, social e cultural podem interagir e aumentar a vulnerabilidade de uma pessoa. Depressão e outras perturbações psicológicas, consumo de álcool ou outras substâncias, doença crónica, acontecimentos de vida adversos, perdas significativas, dificuldades económicas, desemprego, violência, conflitos familiares e isolamento social são alguns dos factores que devem ser considerados. Contudo, a presença de um factor de risco, por si só, não significa que uma pessoa vá tentar suicidar-se. Cátia Silva revela que é necessário fazer uma avaliação individual que permita compreender o sofrimento, os factores de risco presentes e também os factores de protecção de forma a actuar. Para isso, torna-se imperativo falar do acompanhamento psicológico.
«Sabemos que ainda existe a ideia de que se deve procurar um psicólogo apenas quando a pessoa já não consegue lidar com determinada situação. Esta visão tão redutora do acompanhamento psicológico faz com que, muitas vezes, o pedido de ajuda aconteça quando o sofrimento já tem um impacto significativo na vida pessoal, familiar, social ou profissional», diz.
Cátia Silva explica que não precisamos de esperar que uma pessoa chegue ao limite para considerar que precisa de ajuda, o acompanhamento psicológico permite avaliar o estado emocional da pessoa, identificar alterações no seu funcionamento, perceber factores de risco e de protecção e intervir atempadamente sobre problemas que possam aumentar a vulnerabilidade psicológica.
«Quando alguém deixa progressivamente de conseguir trabalhar, cuidar de si, relacionar-se com os outros ou sentir interesse por aquilo que anteriormente fazia parte da sua vida, há sinais que merecem ser avaliados», alerta.
O acompanhamento psicológico pode também permitir trabalhar estratégias para lidar com situações de crise, reforçar recursos pessoais, identificar pessoas que possam fazer parte da rede de suporte e acompanhar a evolução da sintomatologia. Quando existe risco de suicídio, pode ser necessária uma resposta multidisciplinar, com articulação entre Psicologia, Psiquiatria, Medicina e outros serviços de saúde.
Que sinais não devemos ignorar?
Cátia Silva explica que, nem todas as pessoas que têm pensamentos suicidas falam abertamente sobre aquilo que estão a sentir. Por esse motivo, refere ser importante estarmos atentos a mudanças significativas no comportamento.
Alguns sinais podem justificar particular atenção:
. Falar sobre morte, suicídio ou vontade de desaparecer;
. Expressar desesperança relativamente ao futuro;
. Dizer que se sente inútil, sem saída ou um peso para os outros;
. Isolar-se progressivamente de familiares e amigos;
. Perder interesse por actividades anteriormente importantes;
. Apresentar alterações significativas no sono, alimentação ou autocuidado;
. Aumentar o consumo de álcool ou outras substâncias;
. Apresentar mudanças acentuadas no humor ou comportamento;
. Deixar de conseguir cumprir actividades básicas ou responsabilidades habituais.
. Desfazer-se de objectos importantes ou colocar assuntos pessoais em ordem de forma inesperada.
Um destes sinais, isoladamente, não permite concluir que existe risco de suicídio. O que deve chamar particularmente a atenção é a existência de vários sinais, a sua intensidade ou uma mudança significativa relativamente ao funcionamento habitual da pessoa.
A prevenção não acontece apenas no consultório
Falar do papel dos psicólogos na prevenção do suicídio não significa colocar toda a responsabilidade nos profissionais de saúde mental. As condições em que uma pessoa vive também importam. Desemprego, dificuldades económicas, precariedade laboral, violência, isolamento social, doença, discriminação, ausência de suporte familiar e dificuldades no acesso aos cuidados de saúde mental podem contribuir para aumentar a vulnerabilidade.
Por isso, para Cátia Silva, prevenir o suicídio passa também por aumentar o acesso aos cuidados de saúde mental, reduzir o estigma associado ao pedido de ajuda, melhorar a literacia da população e criar respostas que permitam actuar mais cedo. Família, amigos e comunidade também podem ter um papel importante através da identificação de mudanças, da escuta e do apoio na procura de ajuda.
Ao mesmo tempo, relações significativas, suporte familiar e social, acesso a cuidados de saúde, capacidade para pedir ajuda e estratégias adequadas para lidar com situações adversas podem constituir factores de protecção.
Portugal tem uma Linha Nacional de Prevenção do Suicídio
Desde Setembro de 2025, Portugal dispõe da Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico: 1411, uma resposta dirigida a situações de risco de suicídio e de sofrimento psicológico.
A linha é gratuita, funciona 24 horas por dia e assegura apoio por profissionais de saúde com formação específica.
«A criação desta resposta reforça a necessidade de tornar o pedido de ajuda mais acessível, sobretudo quando existe sofrimento psicológico intenso ou pensamentos suicidas. Reforçando a premissa que de não é preciso chegar ao limite para pedir ajuda», reforça Cátia Silva.
Recursos úteis:
– Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico: 1411
– Ordem dos Psicólogos Portugueses: www.ordemdospsicologos.pt/pt/membros
– Linha SNS 24: 808 24 24 24
– SOS Voz Amiga: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660
– INEM (emergências): 112















