Propósito e bem-estar não são abstracções; são forças vivas que enfrentam a adversidade, fortalecem culturas e moldam organizações

Human Resources com Lusa
24 de Outubro 2025 | 12:30
Propósito e bem-estar não são abstracções; são forças vivas que enfrentam a adversidade, fortalecem culturas e moldam organizações

Não são apenas conceitos ou iniciativas periféricas: moldam culturas, inspiram pessoas e impulsionam resultados concretos. Esta foi uma das ideias centrais da mesa-debate que teve como mote “O valor do propósito e do bem-estar”, e que juntou Elsa Carvalho (WTW), Joana Queiroz Ribeiro (Fidelidade), e Verónica Soares Franco (Pestana Hotel Group), sob moderação de Pedro Rocha e Silva (LHH/DBM Portugal), na XXX Conferência Human Resources.

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O debate começou com uma reflexão sobre a dimensão emocional do propósito nas organizações. Elsa Carvalho, director – Business Development na WTW, destacou que, muitas vezes, as empresas concentram-se no “como” e no “o quê”, esquecendo o “porquê”. «É explicar porque fazemos as coisas da forma como fazemos, qual o bem maior, qual o significado da empresa na sociedade e no mundo, qual o legado que deixamos», esclareceu. E ilustrou com exemplos do dia-a-dia que tocam o coração: uma vizinha idosa, com limitações físicas, que desceu no elevador radiante por ter participado na Corrida da Mulher no domingo anterior. «Não foi pelo exercício – foi pelo propósito e pelo efeito mobilizador, pelo significado de ir àquela corrida.»

Outro exemplo mais profundo foi o legado de Francisco Pinto Balsemão, falecido recentemente, cujo impacto foi além de criar veículos de comunicação. «Era o que queria na realidade: uma imprensa livre, com liberdade de expressão, mas acima de tudo, pessoas informadas. Queria informar a população.»

Elsa Carvalho concluiu: «O propósito mobiliza. Quando explicamos o ‘porquê’ – não só o que fazemos ou como, mas porque o fazemos –, criamos uma cultura à nossa volta, mobilizadora. As pessoas acreditam muito mais no que fazemos do que no que dizemos. Uma coisa é o que dizemos que somos ou queremos ser; outra é o comportamento dos líderes e as acções práticas que transmitem – é aí o verdadeiro porquê.»

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Este enfoque emocional abre caminho para uma perspectiva prática: traduzir propósito em acções tangíveis. Joana Queiroz Ribeiro explicou que, na Fidelidade, o propósito deve ser claro e vivido desde o primeiro contacto. «Vamos trabalhar todos os dias para que a vida das pessoas não falhe.» Para a directora de Pessoas e Organização, comunicar o propósito é exigente: «No recrutamento, nem todos querem trabalhar aqui – e não tem de ser. Nem todos alinham com este propósito. Precisamos de boas pessoas para esta missão.» Ao mesmo tempo, há espaço para valores pessoais: patrocínios para corridas ou participação em causas. «As pessoas sentem no dia-a-dia, na forma como exigimos e pedimos que estejam na organização.»

 

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Alinhamento global: desafios e ferramentas

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Verónica Soares Franco trouxe a perspectiva global, mostrando como o propósito se traduz em organizações multinacionais. «Como trabalhar propósito em 16 geografias distintas, culturas e funções?» Com mais de 40 nacionalidades e presença em mais de 100 hotéis, o Pestana Hotel Group estruturou workshops e roadshows para integrar valores em funções diversas, de cozinheiros a directores. «A dinâmica é incrível: funções distintas na mesma sala interagem, conhecem-se melhor, pensam como incorporar no dia-a-dia.»

A administradora e CHRO no Pestana Hotel Group destacou também a Pestana Academy e os programas de mobilidade como ferramentas de disseminação da cultura. «Permite perceber como funcionam noutros países, incorporando formas de estar alinhadas.» A proximidade da liderança é outro ponto central: visitas da Comissão Executiva às unidades garantem contacto directo com colaboradores. «Elas sabem quem são os líderes – cria confiança.»

Elsa Carvalho reforçou: «O propósito tem de vencer o teste da adversidade. Em tempos prósperos, flui; em pressão – custos, resultados -, testa coerência. Somos convenientes ou coerentes? Para termos propósito, devemos ser coerentes acima de tudo.»

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Bem-estar como estratégia e visão de futuro

O debate evoluiu naturalmente para a estratégia de bem-estar. Elsa Carvalho frisou: «Uma empresa pode ter lucros extraordinários, mas sem sustentabilidade e reputação, não tem futuro.» Dados de 2025 da WTW mostram que o investimento em bem-estar aumenta produtividade, inovação e retenção, reduzindo custos e absentismo. 70% das empresas focam-se em prevenção, literacia, apoio emocional e financeiro.

Pedro Rocha e Silva provocou: «Cultura de dados e IA ajuda ou atrapalha o bem-estar?» Verónica Soares Franco explicou: «Os dados devem servir as pessoas em decisões focadas e transparentes. Usamos dados internos – clima, desempenho – para identificar oportunidades e condições; externos  – satisfação de clientes em redes sociais – para melhorar comportamentos.» Elsa Carvalho completou: «Dados podem ser ameaça ou bem, depende da ética e intenção.»

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A longevidade e a diversidade foram outro eixo de debate. Joana Queiroz Ribeiro sublinhou: «Vamos viver mais anos, com qualidade. Pensamos em 20-30 anos pós-reforma: com a saúde, o que fazemos? Não queremos ir cedo – preocupa-nos muitíssimo.» Verónica Soares Franco acrescentou: «A tecnologia permite eficiência e produtividade, criando espaço para empatia e relacionamento com o cliente. No sector hoteleiro, oportunidades surgem para todos – um estagiário em Porto Santo tornou-se director de um hotel em Nova Iorque. Isso contribui para relações humanas e compatibilização.»

O painel encerrou com uma síntese inspiradora: propósito e bem-estar não são abstracções; são forças vivas que enfrentam a adversidade, fortalecem culturas e moldam organizações resilientes, inovadoras e humanas. Para profissionais de RH, o recado é claro: declarar o «porquê», dar espaço individual, medir coerência e usar dados de forma ética. Num mundo algorítmico, o humano continua a mobilizar, cuidar e perdurar.

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