A nova face do burnout

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho têm levado a um aumento considerável dos riscos psicossociais com forte impacto na sua saúde física e psicológica, pois por razões tecnológicas, de migração e outras, o ambiente laboral tem sido reformatado integrando formas atípicas.

Por Gonçalo Sampaio e Melo, Psicólogo

 

Existem agora múltiplas modalidades que tornam as relações laborais menos seguras. A síndrome de burnout é um distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema. Também denominada esgotamento profissional. Esta síndrome, que afecta quase todas as facetas da vida de um indivíduo, é consequência do aumento da carga e do ritmo das suas tarefas/funções, das transformações socioeconómicas, dos contratos precários que provocam aumento de incerteza, enfim, da instabilidade laboral.

Mas a maior causa do desencadeamento dessa síndrome é, por certo, o excesso de trabalho e responsabilidades que gera, falta de energia e eficácia, ansiedade, declínio cognitivo e doenças psicossomáticas.

Que factores de risco existem?

Este excesso de tensão emocional é comum em profissionais que trabalham sob pressão, circunstância bem comum pois estudos recentes assinalam que 24% dos trabalhadores são afectados. Com as trajectórias profissionais menos lineares, registam-se novos distúrbios, novas doenças e cada vez mais acidentes em contexto laboral. Estima-se 2,78 milhões de mortes atribuídas directamente ao trabalho por ano, o que representa pelo menos 5% das mortes globais.

Existem primeiramente causas mais directas como fontes de esgotamento típicas da actividade profissional como a relação com os clientes, realização pessoal, falta de apoio por parte dos colegas e superiores. Existem factores organizacionais como a elevada carga de tarefas, o desajustamento entre os objectivos ou o isolamento, por último, fatores de ordem pessoal.

Uma vez retirada da situação que induz essa exaustão o colaborador melhora ou pode mesmo recupera depende do diagnóstico e tratamento realizado pelo psicólogo/psiquiatra.

Segundo a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Trabalho, o stress laboral afecta mais de 44 milhões de colaboradores, estimando que as perdas de qualidade no trabalho, absentismo e turnover resultante do stress variam entre 3,5% e 5% do PIB nos países industrializados (dados de 2015).

Um inquérito conduzido antes da pandemia pela DECO proteste 31% dos 1146 inquiridos estavam em situação de stress profissional. Situação essa já considerada como um diagnóstico clínico ainda que apenas aplicável ao contexto profissional. Dois anos antes, Em 2016 afetava apenas 17% das pessoas ativas em Portugal (dados da Associação de Psicologia e Saúde Ocupacional). Os trabalhadores com maior risco são os mais insatisfeitos e com pouco apoio dos superiores hierárquicos.

Burnout em tempos de pandemia

Á medida que o Covid-19 se espalhou as organizações foram forçadas a adoptar o teletrabalho. Mas na verdade ninguém estava preparado para uma mudança tão rápida.
Mais de um ano de pandemia podemos afirmar que o teletrabalho é, para muitos, uma realidade cada vez mais evidente.
Experimentamos através deste confinamento que trabalhar a partir de casa requer uma organização e autodisciplina próprias para enfrentar esta nova realidade. Várias reuniões virtuais, inúmeras mensagens no WhatsApp, caixa de email superlotado, horários confusos, etc. A sua falta induziu ao crescimento expressivo de dificuldades ocupacionais, uma vez que incita maior pressão e quantidade de trabalho. Quando damos por nós, estamos sempre conectados ao trabalho: respondemos a emails invadindo o tempo de descanso. As pessoas acabam por trabalhar bem mais e isoladas, tornando-se mais frias e distantes. Nas mais diversas áreas e sectores não só prazos desmedidos e excesso de trabalho tem conduzido ao esgotamento mas também a falta de limites entre a vida profissional e pessoal.

Se antes da pandemia os profissionais já manifestavam elevados sintomas de exaustão e, consequentemente, uma quebra significativa de produtividade, imaginem agora perante um confinamento marcado pela incerteza e restrições sociais.
Se por um lado o teletrabalho diligenciou o ganho do tempo de deslocamento, o conforto de segurança e outros benefícios, por outro lado, a rotina ficou confusa quer para gestores quer para funcionários induzindo as diferentes exigências a se desordenarem, reduzindo a qualidade. Embora os recursos eletrónicos possibilitem um maior e constante contacto a eficácia da comunicação presencial é insuperável. Importa encontrar soluções inovadoras.

Prevenção
As intervenções para prevenir e tratar esta síndrome indicam a necessidade de implementar medidas organizacionais e individuais de comunicação assertiva devendo incluir formação contínua e ainda a aprendizagem de estratégias de coping.
O exercício físico proporciona sensação de alívio da ansiedade, à medida que ajuda o corpo a liberar endorfinas. Alimentação adequada também é importante para prevenir a síndrome assim como não saltar refeições e ter um espaço para trabalhar ajuda a separar a vida profissional da vida pessoal.

Por último, motivar o trabalhador para que reorganize seus horários e deixe um tempo frequente para outros momentos. Estar com a família e pessoas próximas. É importante manter rotinas, repor a energia criando limites.

Em 2016 um estudo da OMS conclui que por cada dólar investido em saúde mental quatro retornam em produtividade e satisfação no trabalho.

O mundo mudou e agora o trabalho remoto, à distância, adoptado na pandemia está para ficar regime de teletrabalho o que pode representar um risco a longo prazo. É preciso desconstruir com o profissional a cobrança excessiva para consigo mesmo, afinal não somos máquinas. É preciso saber diagnosticar precocemente para investir em tratamento.
O afastamento do ambiente laboral também pode ser considerado em caso de intensa gravidade da síndrome pois saúde mental esta relacionada com o contexto sociocultural em que vivemos, implicados pela natureza do Homem.

Afinal o que nos torna humanos saudáveis é conseguir lida com as vicissitudes da vida as quais não nos é possível escapar.
Sobre o tempo actual, tão bem retratado por este fenómeno pandémico, devemos refletir sobre as marcas da contemporaneidade. A incerteza e o imperativo do presente embebido em conflitos e perturbações. Não podemos ficar na expectativa de as coisas voltem ao normal, como eram dantes. Importa viver para que o futuro se construía dentro do novo. Já no final da sua vida perante a pergunta: – Para que serve a psicanalise? Sigmund Freud respondeu: -Permite ao Homem amar e trabalhar.

 

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