Por João Bernardo Gonçalves, Executive manager da Michael Page
O recrutamento tem vindo a mudar de “pele” bem depressa. A Inteligência Artificial já faz triagem de CV, escreve anúncios Linkedin, marca entrevistas, prevê taxas de aceitação e gera relatórios com uma eficácia impossível de bater manualmente. E só vai continuar a melhorar. Mas quem acredita que o valor do consultor está nessas tarefas não percebe nada de recrutamento.
Foi sempre um equívoco medir o sucesso do recrutamento pela velocidade de envio de CV. O impacto real nasce naquilo que a tecnologia não consegue replicar: transformar dados em contexto, informação em significado e talento em impacto. É aí que a profissão se joga.
Hoje, contratar por competências deixou de ser “tendência”: é mesmo a regra. O diploma nunca garantiu nada. O que interessa é aprender, executar e acrescentar valor. Há currículos brilhantes que não “mexem” e candidatos improváveis que transformam empresas pelo que trazem de atitude e energia. Separar uns dos outros exige coragem. A coragem de dizer a uma empresa que determinado perfil mais polido não é o que fará a diferença.
E atenção: a IA não é neutra. Algoritmos treinados com dados enviesados reproduzem enviesamentos. A questão não é se a vamos usar, mas como. A máquina detecta padrões; não interpreta nuances. E o recrutamento vive de nuances — carreiras, lideranças, culturas… Reduzir isto a probabilidades é amputar o que realmente importa.
Do lado dos candidatos, a fasquia subiu. Processos longos, pesados e desajustados ao mobile estão mortos. Se para se candidatar é preciso vinte cliques e três passwords, o processo acabou antes de começar. Do lado das empresas, a exigência é a mesma: não pedem só “alguém para a vaga”. Querem dados, benchmarks, previsões e aconselhamento. Querem parceiros estratégicos, e não fornecedores de CV.
O consultor de recrutamento redefine-se aqui: mais curador do que hunter, a dar profundidade aos dados, ética às decisões e humanidade aos processos. Temos de garantir que employer branding, experiência do candidato e confiança não sejam acessórios, mas o centro da estratégia e processo.
O futuro do recrutamento não é preencher vagas, é criar valor. É isso que distingue os substituíveis dos indispensáveis. Porque as carreiras não se confiam a softwares, confiam-se a pessoas. E nós estamos aqui — presentes, humanos e de carne e osso.














