Inteligência artificial com pessoas – e para pessoas

Human Resources
4 de Fevereiro 2025 | 14:00
Inteligência artificial com pessoas – e para pessoas

A inteligência artificial e a sua aplicação a múltiplos domínios da vida serão uma tendência inelutável. A aplicação à Gestão de Pessoas não é excepção. Mas será inteligente não sucumbir à visão romântica da IA, sob pena de o romance se traduzir em pesadelo.

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Por Arménio Rego, professor catedrático e director do LEAD Lab da Católica Porto Business School e Camilo Valverde, professor auxiliar na Católica Porto Business School

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Há quase um século, Keynes previa que os humanos trabalhariam apenas 15 horas por semana. «Três horas de trabalho por dia… são mais que suficientes para satisfazer o velho Adão que existe em cada um de nós», escreveu.

Identificar tendências no mercado de trabalho é, pois, um exercício de adivinhação atrevido. Porém, a inteligência artificial (IA) e a sua aplicação a múltiplos domínios da vida serão uma tendência inelutável. A aplicação à Gestão de Pessoas não é excepção.

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A IA já é aplicada na análise de currículos, de conteúdos de entrevistas e de outro material emergente de processos de candidatura; na medição de perfis de personalidade; na análise de postos de trabalho e correspondentes requisitos de competências; e em processos de gestão do desempenho. Os desenvolvimentos continuarão. Mas importa ser prudente. A IA não é imune a enviesamentos e “decisões” discriminatórias. Produz “alucinações”. Os dados em que se baseiam os algoritmos podem ser insuficientes para representar a realidade – ou podem reflectir uma realidade diferente daquela a que o algoritmo é aplicado.

Ademais, alguns fornecedores de soluções de IA fazem promessas “mirabolantes” – assentes mais na “fé” e no mero ganho comercial do que na verdade dos factos. A opacidade é grande.

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Este intróito conduz-nos a sete pontos: 1 As competências de IA serão cada vez mais procuradas, não apenas por profissionais tecnológicos, mas também pelos seus utilizadores nas organizações – inclusive profissionais e gestores de Recursos Humanos.

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2 É imperioso que estes profissionais e gestores sejam, além de conhecedores de algumas tecnicalidades, suficientemente prudentes e até “desconfiados” de soluções de IA. O seguinte caso ilustra este cepticismo. Uma entidade jurídica foi solicitada a emitir um parecer que requeria pesquisa sobre jurisprudência. A IA foi um auxiliar precioso. Mas as suas alucinações inventaram jurisprudência inexistente, tendo colocado a entidade numa situação crítica.

3 A necessidade de competências relacionadas com a IA não enfraquece a relevância das competências sociais. Pelo contrário: a IA reforça a importância de competências como a gestão de conflitos, a comunicação, a capacidade de coordenação mútua e a cooperação.

4 Em organizações atravessadas por soluções digitais e de IA, é igualmente imperioso que as pessoas detenham competências de liderança pessoal – determinação, curiosidade, amor pela aprendizagem, humildade, empatia, integridade, capacidade de gerir emoções próprias e dos outros, e uma certa sabedoria céptica perante promessas tecnológicas, alegadamente disruptivas e imunes ao erro humano. A essas competências acrescentem-se a inteligência cultural para interagir com pessoas de diferentes culturas, a capacidade de lidar com a ambiguidade e a incerteza, a adaptabilidade, e um certo business acumen – uma combinação de conhecimento acerca do negócio, capacidade de aplicá-lo à situação, e recurso à experiência para que essa aplicação seja sábia e prudente.

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5 No futuro, como no presente e no passado, é também essencial que os membros organizacionais (e, acima de tudo, as lideranças) detenham capacidades de autoconhecimento e autoconsciência.

6 Desprovidas das competências mencionadas, as pessoas – e as organizações – serão escravas da IA e das suas criações, em vez de serem agentes autónomos capazes de usarem responsavelmente as potencialidades da IA.

7 Não havendo profissionais perfeitos, é irrealista esperar que alguém detenha todas essas competências. O segredo, em organizações sustentáveis, radica na gestão das diferenças e das sinergias entre as pessoas.

Em suma: é inteligente não sucumbir à visão romântica da IA, sob pena de o romance se traduzir em pesadelo. As organizações devem ser tomadas como engenhos do progresso humano e não como instrumentos ao serviço de um tecno-optimismo ganancioso, gélido e desprovido de empatia.

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Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº.169) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.

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