P2P (Person to Person): um conceito premente

Human Resources
28 de Março 2022 | 22:00

A referência à lógica H2H (Human to Human) na gestão é cada vez mais utilizada, especificamente integrada não só nas estratégias de marketing, como também nas estratégias de gestão de pessoas. No entanto, tratando-se de pessoas consideramos que este acrónimo deveria passar a P2P (Person to Person), com uma atitude mais dirigida à Pessoa, que assume papéis (em simultâneo) de colaborador, de consumidores e de influenciadores, capazes de elevar ou destruir uma marca ou um negócio.

Por Cláudia Ribau, doutorada em Marketing e Estratégia pela Universidade de Aveiro, docente no ISCA-Universidade de Aveiro, e Paulo Parracho, profissional na área da gestão, gestão de recursos humanos e marketing

 

O conceito H2H é um termo redutor, que peca por não ir mais além e que nos remete automaticamente para os filmes de extraterrestres, em que reforçavam a ideia de ‘transformar a raça humana’ num qualquer estereótipo alienígena. Pois vejamos, no âmbito do conceito H2H a ‘pessoa’ não é o centro na definição da estratégia, mas sim um conjunto de ‘pessoas’ de quem queremos obter uma reação: a obediência de uma regra interna, a aceitação de uma marca, de um produto ou serviço, apresentando-a(o) de forma igual para um todo em conjunto. Na realidade, hoje em dia fazer sentir uma empresa como ‘nossa’ requer muito mais do que isso. Adaptar um mix a ‘cada pessoa’ como se fosse única é uma exigência premente, o que requer uma abordagem única a cada ‘pessoa’ (seja ela colaborador, seja ela cliente, seja ela consumidor, seja ela influenciador). P2P (Person to Person) pressupõe que a ‘pessoa’ tem a sua própria personalidade, única, e para a atrair e, subsequentemente, fazê-la agir (para com uma marca, que é simultaneamente empregadora e fornecedora de produtos e/ou serviços) torna-se imprescindível identificar o que a move e como estimulá-la.

O processo de compra tem mudado muito nos últimos tempos. Partindo do exemplo da aquisição de um automóvel, verificamos que

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Cláudia Ribau

começa logo pela opção do canal cada vez mais digital (sim, hoje já é possível comprar um automóvel através de uma plataforma digital), como também a hipótese de podermos personalizar várias componentes do mesmo (seja a cor, os estofos, as jantes e outros elementos). Outro exemplo cada vez mais comum, a escolha dos canais de televisão (Netflix, Disney, Amazon), que permitem que ‘eu escolha’ o que ‘eu quero’ e ‘quando eu quero’ ver um programa, uma série, um filme. Em todo este processo está subjacente o ‘EU’. Numa marca a lógica do já e agora (não do futuro, porque esta realidade já está a acontecer, para os mais sépticos que ainda consideram que será no futuro), seja do lado do empregador (para atrair e reter talento), seja do lado do lado da venda sustentável do produto e/ou serviço, é o P2P (Person to Person), com foco na personalidade única de cada pessoa e na adaptação de um mix a essa singularidade.

Ao nível da gestão de pessoas (o ‘antigo’ conceito diz respeito à gestão de recursos humanos: RH), motivar um colaborador não se deve basear unicamente numa receita comum a um conjunto de colaboradores. Se para uns funciona o aumento da componente retributiva, para outros funciona a atribuição de um seguro de saúde ou apenas um reconhecimento público, umas férias, tempo para estar com a família, uma experiência. Há imensas opções. O limite é a criatividade, no sentido de estimular uma reação comportamental de opção pela marca como empregadora. Pessoas motivadas e felizes são pessoas mais produtivas, defendem e consomem os produtos da marca e influenciam outras pessoas para a marca. Quem ousar identificar estes estímulos, únicos de cada pessoa, terá maiores probabilidades de sucesso.

Perante a realidade digital em que vivemos, o conceito VUCA tem um encaixe ‘quase perfeito’. Este conceito encerra em si quatro palavras-

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Paulo Parracho

chave: a ‘Volatilidade’ (volatillity), devido às frequentes mudanças; a ‘Incerteza’ (uncertainly), pelo caráter imprevisível dos acontecimentos; a ‘Complexidade’ (complexity), pela multiplicidade de fatores que podem surgir interconectados; e a ‘Ambiguidade’ (ambiguity), relacionada com situações complexas e pouco claras de compreender. Este conceito conjugado com o conceito P2P ditam às empresas um só caminho: inovar, reinventando-se constantemente para conseguirem fazer face a estas mudanças contextuais, de gestão de pessoas e de comportamento de consumo. O conceito P2P reforça a criação de empatia com a marca e o desejo de fazer evoluir a marca num mundo cada vez mais digital. A capacidade de reacção, conjugada com a capacidade proactiva, de flexibilidade e facilidade de adaptação, exigências de um mercado cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, sublinham a necessidade de criar modelos únicos de satisfação e motivação. Estes modelos devem ser exclusivamente desenhados para cada pessoa. Esta pessoa somando a outras pessoas constituem a equipa da empresa, o que gera a sustentabilidade da marca, do negócio, como se pode verificar na Figura 1, refletindo a relação simbiótica das diferentes variáveis, com um foco comum: a materialização de estratégias P2P.

O modelo ‘VUCA’ atribui à gestão de pessoas a importância que esta deve ter: conjugar todas os recursos disponíveis na empresa de forma a que se atinja um equilíbrio sustentável. O paradigma actual traz-nos diferentes desafios, mas também nos mune com outros atributos que nos ajudam a enfrentar esses desafios e sairmos todos ganhadores. As decisões estratégicas de curto, médio e longo prazo da empresa, se sempre na perspectiva do P2P, assentes no modelo ‘VUCA’, terão reflexo na produtividade e notoriedade da marca.

A motivação e a retenção das pessoas à marca depende de um único factor, que deve despoletar a seguinte questão: o foco da marca está na pessoa (individual)? Se o está, o fim é a sustentabilidade da marca a longo prazo. A inovação na cultura organizacional só tem os limites que a própria marca o definir e é fundamental desde o início do processo, com o recrutamento, considerado não apenas o preenchimento de uma profissão, mas de um team-player que acrescente valor à marca, independentemente da sua posição, funções ou responsabilidades. Só é possível quando temos noção de cada pessoa, que interesse à marca. Existem diversas ferramentas (também digitais) que auxiliam este processo e que facilitam a criação de estratégias P2P, que devem acompanhar todo o ciclo de vida da pessoa na marca.

Conheça e compreenda as ‘suas’ pessoas, individualmente. Este é o caminho para as satisfazer, motivar, reter e atingir a sustentabilidade da marca. Isto é P2P.

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