Por Liliana Marques, psicóloga clínica, co-fundadora e directora da clínica de psicologia O Teu Lugar, em Coimbra
As empresas constroem-se entre paredes, procedimentos e números, mas a sua essência reside nas pessoas que lhes dão propósito e direcção. Por trás de cada empresa que cresce na sua dimensão e resultados, existem pessoas que, com o seu trabalho, transformam objectivos em realidade; são as pessoas que moldam a identidade, a cultura, e o futuro de cada empresa.
No mundo organizacional a tendência acompanha outras dimensões da sociedade: as mudanças ocorrem a uma velocidade estonteante, e isso exige uma necessidade de adaptação constante. Pede-se criatividade e inovação, mas não se pode perder o controlo financeiro; querem-se equipas motivadas e proactivas, mas as exigências em várias frentes fazem com que isso nem sempre seja uma prioridade. Os estudos recentes são unânimes quando analisam as relações entre as várias dimensões de produtividade e felicidade no trabalho: trabalhadores satisfeitos e felizes produzem mais. Investir no seu bem-estar é uma relação win-win.
O capital humano constitui um dos recursos mais valiosos de uma organização. A promoção da saúde mental e da felicidade no trabalho pode ser vista como uma condição essencial para que os colaboradores se sintam comprometidos com os objectivos organizacionais e, consequentemente, contribuam para o sucesso e diferenciação das organizações. Considerando que o bem-estar no trabalho envolve três dimensões (o bem-estar psicológico, associado ao prazer ou realização que o sujeito obtém ao realizar aquele trabalho, o bem-estar físico, relacionado com o nível de protecção da segurança/saúde gerados por aquele trabalho, e o bem-estar social, que advém dos relacionamentos que se estabelecem no trabalho (Santos, 2021)), a formação específica e a capacitação de colaboradores pode ser um caminho que compatibiliza a intervenção nestas três dimensões.
Partindo da premissa de que a capacitação do capital humano deve ser planeada de forma estratégica, considerando as necessidades dos colaboradores e o contexto organizacional, é relevante compreender de que forma algumas variáveis podem influenciar o bem-estar, a saúde mental, o envolvimento no trabalho e a produtividade dos colaboradores, bem como o impacto desses factores no desempenho e nos resultados das organizações. Há alguns estudos que demonstram que as iniciativas de desenvolvimento em áreas como inteligência emocional, gestão de stress e competências relacionais contribuem para um aumento do bem-estar psicológico, melhoria do clima organizacional e redução de factores de risco como o burnout.
De facto, a par com outras estratégias de intervenção psicológica, a capacitação pode ser uma forma eficaz de investimento na saúde mental dos colaboradores, e isso pode ser um caminho essencial para contrariar a tendência: de acordo com a análise da Ordem dos Psicólogos Portugueses (2022), em Portugal, as perdas de produtividade ligadas à saúde mental eram de cerca de 5,3 mil milhões de euros por ano. O absentismo teve um custo de 1,8 mil milhões de euros, e o presentismo (ou seja, quando os trabalhadores vão trabalhar, mas funcionam abaixo das suas capacidades), teve um custo de 3,5 mil milhões de euros. Não obstante, concluiu-se que dois em cada cinco trabalhadores lidam com problemas de saúde mental; esta tendência pode ser contrariada se investirmos em acções preventivas na saúde mental dos colaboradores. O retorno pode ser de 5€ por cada 1€ investido, e as empresas portuguesas podem acumular uma poupança de cerca de 30% por ano (1,6 mil milhões de euros).
O estudo recente da GoodHabitz com a Markteffect refere dados essenciais: a maioria dos colaboradores portugueses (cerca de 86%) afirma que a felicidade no trabalho afecta o seu bem-estar, e 85% dos mesmos acredita que o desenvolvimento pessoal ajuda a melhorar a felicidade no trabalho. Não obstante, 55% dos inquiridos considera que as oportunidades de desenvolvimento pessoal influenciam o facto de se manterem no trabalho actual. Pensarmos, então, em planos estratégicos de capacitação das pessoas e das equipas (e.g. formação específica e direccionada) parece ser um investimento com retorno; isto pode ter efeitos extraordinários na saúde mental e, consequentemente, na produtividade dos colaboradores.
Em suma, investir capacitação específica dos colaboradores pode ser uma alavanca estratégica para melhorar, simultaneamente, a saúde mental dos colaboradores e a produtividade nas empresas. Quando estas acções são contínuas e integradas na cultura da empresa, os seus efeitos estendem-se ao desempenho, traduzindo-se em menor absentismo, maior engagement e melhores resultados. Podemos olhar para a capacitação dos colaboradores, não apenas como um instrumento de qualificação técnica, mas como uma forma de intervenção na saúde mental e no bem-estar dos colaboradores, que desempenha um papel central na promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos, com impacto directo nos resultados das empresas.














