Os resultados revelam que os níveis significativos de problemas de saúde física e psicológica dos veteranos são moldados por factores sociais como o contexto socioeconómico. Participação em associações e sentimento de pertença podem servir como factores protectores.
Durante o serviço militar na Guerra Colonial Portuguesa, muitos veteranos foram expostos de forma reiterada a situações de elevado stress, frequentemente de natureza extrema e traumática como o perigo de vida ou à integridade física. Considerando os desafios da reintegração na vida civil após a guerra, tais experiências podem ter efeitos duradouros na saúde física e psicológica destas pessoas.
Ângela Romão, investigadora no CIS-Iscte e primeira autora do estudo explica que «a perturbação de stress pós-traumático (PSPT), a depressão major, e a perturbação de ansiedade generalizada estão entre as perturbações psicológicas mais identificadas nos veteranos da guerra colonial». De acordo com a equipa de investigação, a maior parte dos estudos previamente realizados tende a considerar o veterano como um caso clínico isolado, ignorando o contexto social mais amplo das suas condições de saúde e doença.
Este trabalho, financiado parcialmente pelo Ministério da Defesa Nacional, surge, assim, como o primeiro no contexto português a explorar como o contexto social pode moldar os impactos de experiências traumáticas na saúde de veteranos.
Luísa Lima, psicóloga social, investigadora no CIS-Iscte e docente no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, esclarece que o objectivo central do estudo passou por «analisar como os determinantes sociais, nomeadamente o estatuto socioeconómico, a participação em associações de veteranos e a identificação com as forças armadas podem impactar a saúde destes ex-combatentes».
O estudo evidencia um forte sentimento de pertença às forças armadas, com 68% dos participantes a manifestarem orgulho em pertencer ao grupo de veteranos. No plano da saúde, pouco mais de metade (52%) refere ter uma condição física diagnosticada, enquanto 35% referem sofrer de uma condição psicológica crónica resultante da exposição a fatores de stress traumáticos durante o serviço militar.
O estudo mostra, no entanto, diferenças significativas em função das condições socioeconómicas. Entre os veteranos em contextos económicos mais desfavoráveis, a prevalência de perturbações psicológicas crónicas atinge 43%, contrastando com 23% entre os que se encontram em situações mais favoráveis. Disparidades semelhantes surgem ao nível da escolaridade: 40% dos participantes com níveis de educação mais baixos reportam estas perturbações, face a cerca de 28% dos mais escolarizados.
O estatuto socioeconómico revela-se também determinante no impacto das limitações físicas e emocionais no quotidiano. Entre os veteranos em situação económica mais frágil, 10% referem que os problemas de saúde condicionam sempre as atividades diárias, valor que desce para cerca de 6% entre os mais favorecidos. Já 8% destes últimos dizem nunca se sentir limitados pela sua condição de saúde, uma proporção que contrasta com 23% entre os que enfrentam maiores dificuldades económicas.
A equipa de investigação analisou ainda como a identidade social e o sentimento de pertença moderavam os impactos das variáveis sociais na saúde. A participação em associações de veteranos atenuou o impacto negativo do baixo estatuto socioeconómico na saúde, especialmente entre aqueles com elevados níveis de identificação militar. Estes efeitos mantiveram-se significativos após o controlo das variáveis de idade e escolaridade. Para a equipa de investigação, este é um dado muito importante, já que é possível intervir de forma mais directa nas variáveis psicológicas (identidade social e sentimento de pertença) do que nas variáveis sociais (estatuto socioeconómico).
Para além de Ângela Romão e Luísa Lima, a equipa de investigação integra as investigadoras do CIS-Iscte Carla Moleiro, Raquel António e Rita Moura. No estudo participaram 480 homens veteranos portugueses entre os 67 e 91 anos.













