Adiar uma tarefa importante, deixar um e-mail por responder durante dias ou evitar iniciar um projecto com um prazo apertado são comportamentos frequentemente associados à falta de organização ou disciplina. No entanto, especialistas em saúde mental defendem que a procrastinação pode ser, em muitos casos, uma manifestação de ansiedade no contexto laboral.
Segundo os especialistas citados pela HuffPost, quando os profissionais se sentem sobrecarregados, excessivamente pressionados ou preocupados com o seu desempenho, o sistema nervoso pode interpretar essas situações como ameaças. Em vez da habitual reacção de luta ou fuga, muitas pessoas entram num estado de bloqueio, caracterizado precisamente pela procrastinação.
A psicoterapeuta Cathy Ranieri explica que este é um dos sintomas menos discutidos da ansiedade, precisamente porque tende a ser encarado como uma escolha individual. Na prática, porém, o adiamento constante de tarefas pode funcionar como uma estratégia de evitamento perante sentimentos de insegurança, medo de falhar ou receio de não corresponder às expectativas.
O problema é que esta resposta tende a alimentar um ciclo difícil de quebrar. Embora evitar uma tarefa possa proporcionar um alívio momentâneo, a acumulação de trabalho acaba por aumentar o stress e reforçar a ansiedade. A longo prazo, isto pode traduzir-se em menor produtividade, sensação de impotência e desgaste emocional.
De acordo com Jordan White, assistente social clínico especializado no acompanhamento de adultos com ansiedade, muitas pessoas evitam determinadas actividades profissionais porque estas desencadeiam preocupações profundas relacionadas com o medo do fracasso ou a percepção de não serem suficientemente competentes.
Quando responsabilidades, prazos e expectativas se acumulam, a procrastinação pode assumir uma função quase automática de autoprotecção. Neste estado de bloqueio, o organismo procura conservar energia para lidar com aquilo que interpreta como uma ameaça, originando frequentemente fadiga, falta de motivação e dificuldade em avançar com o trabalho.
Como quebrar o ciclo
Os especialistas referem que pequenas mudanças de hábitos podem ajudar os profissionais a gerir melhor a ansiedade associada à procrastinação.
Entre as estratégias recomendadas estão a criação de um planeamento semanal detalhado, que reduza as oportunidades de “fuga”, e a divisão das tarefas em objectivos de menor dimensão, permitindo obter conquistas rápidas e gerar uma sensação de progresso.
Outra recomendação passa por fazer pausas estratégicas quando uma tarefa parece demasiado avassaladora. Afastar-se temporariamente do trabalho pode proporcionar uma nova perspectiva e facilitar a retoma da actividade.
Os especialistas admitem ainda que não existe uma abordagem universal. Enquanto algumas pessoas beneficiam de começar pelas tarefas mais simples, outras conseguem reduzir a ansiedade enfrentando logo a actividade que mais querem evitar.
Por fim, é deixado um alerta para a importância da autocompaixão. Pensamentos como “sou preguiçoso” ou “não sou capaz” tendem a reforçar o estado de ameaça e a agravar o problema. Em vez disso, os especialistas defendem uma abordagem mais compreensiva, reconhecendo as dificuldades sem recorrer à autocrítica excessiva.


















