Sandra Brito Pereira, DRH do Montepio: «Estando longe, nunca estivemos tão perto»

Human Resources
24 de Agosto 2020 | 11:10

«As hierarquias nas empresas têm vindo a esbater-se e as equipas, líder incluído, estão a trabalhar cada vez mais em conjunto».

 

Sandra Brito Pereira, directora de Recursos Humanos do Banco Montepio

 

 

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«A importância de uma gestão assente no cliente, numa filosofia de customer centricity começou no Marketing e chegou também ao cliente interno das organizações. Hoje, procuramos soluções customizadas e flexíveis, numa lógica de racionalização económica, de grande exigência e competitividade, o que pode parecer uma equação impossível e, não sendo, é seguramente muito desafiante para quem trabalha nesta área.

A Gestão de Pessoas conquistou também um lugar próximo da estratégia das organizações. Actualmente, é muito raro ver uma grande empresa que não tenha sentado no seu board um responsável máximo de Recursos Humanos, o que, há 10 anos, não acontecia com frequência. Hoje, creio que existe a consciencialização de que nenhuma estratégia poderá ser bem-sucedida sem o envolvimento, alinhamento e direcção das Pessoas. As boas lideranças são cruciais nas organizações e a sua permanente formação e desenvolvimento são nevrálgicas para o sucesso.

Nos últimos 10 anos, mudou o paradigma desta gestão, porque mudou a forma como as relações se estabelecem dentro das empresas, especificamente o modelo de hierarquia e as competências necessárias na liderança. Assistimos cada vez mais a relações de trabalho colaborativas, com líderes mais coordenadores e menos impositivos. Ou seja, as hierarquias nas empresas têm vindo a esbater-se e as equipas, líder incluído, estão a trabalhar cada vez mais em conjunto.

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O líder é, cada vez mais, coordenador e criador de pontes entre os elementos da sua equipa, valorizando a complementaridade e a diversidade das competências existentes, partindo do pressuposto de que é com base nessa inteligência colectiva que se conseguem sustentar as vantagens competitivas das empresas e perpetuar os seus factores críticos de sucesso.

Os colaboradores são mais exigentes quanto ao seu envolvimento na missão e estratégia da empresa, e nesse sentido a Gestão de Recursos Humanos deve acompanhar e responder a essa necessidade, alavancando iniciativas de gestão integrada de talento e consolidando o employer branding através da visibilidade positiva de modelos e projectos inovadores na atracção, desenvolvimento e retenção desse talento.

A pandemia veio provar-nos que, com as pessoas motivadas e devidamente alinhadas, é pouco relevante o local, horário e demais condições com que desempenham as suas funções. Efectivamente, os nossos colaboradores demonstraram à evidência que souberam continuar a entregar, em alguns casos, até com mais qualidade, e a atingir os objectivos propostos.

Vou fazer agora em Julho a reunião semestral de balanço com a minha equipa, em zoom, e com a inclusão de um teambuilding como é tradição, e constacto que os objectivos a que nos propusemos para o primeiro semestre, com a excepção de algumas iniciativas que exigiam o presencial, foram todos cumpridos. E algumas matérias como o flexiwork foram alvo de propostas muito mais audaciosas do que teria sido possível há quatro meses atrás.

No caso do Banco Montepio, esta fase veio efectivamente confirmar o potencial de todos os colaboradores para cumprirem qualquer objectivo a que se proponham, porque se encontram alinhados e envolvidos com a estratégia da instituição. Com o estabelecimento do Estado de Emergência, foi necessário, no espaço de uma semana, colocar em teletrabalho cerca de 1400 colaboradores dos serviços centrais, e manter sensivelmente o mesmo número na rede de balcões a prestar o serviço essencial às famílias e empresas portuguesas. E, estando longe, nunca estivemos tão perto. Conseguimos manter as pessoas em teletrabalho a produzirem e a contribuírem para o sucesso da nossa operação, e assegurámos as condições de higiene e segurança para que, quem está na linha da frente, possa desempenhar as suas funções com o devido conforto.

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Curiosamente, temas como a aceleração digital, a legitimação de lideranças informais, a menor hierarquização e formalidade na comunicação e o sentido de emergência e coesão permitiram-nos também ver um “lado B” de muitos colaboradores, verdadeiros “tesouros escondidos”, que em tempos de incerteza demonstraram ter o carácter e a capacidade de liderança que talvez só estas circunstâncias atípicas e excepcionais que estamos a viver nos permitissem fazer emergir e identificar.

Após esta fase, penso que há aspectos no mundo do trabalho que vão mudar para sempre. Um deles tem a ver com a ideia pré-concebida sobre o teletrabalho. Perderam-se os estigmas de menor produtividade e ligação com a empresa, e saiu reforçada a ideia de que o teletrabalho tem vários benefícios, quer para os colaboradores, na sua motivação, quer para as empresas, com a maior necessidade de foco na estratégia e objectivos, maior responsabilização das pessoas e possibilidade de, com este modelo de trabalho, repensarem também a sua estrutura de custos fixos, como edifícios e frota automóvel. O Banco Montepio, tal como muitas empresas, está a estudar a maior flexibilização do trabalho para o futuro.»

Este artigo faz parte do tema de capa da edição de Julho (n.º 115) da Human Resources.

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