A síndrome do impostor. Também já passou por isso?

Human Resources
5 de Novembro 2021 | 09:30

Uma das maiores virtudes numa equipa é a capacidade de os membros conseguirem identificar as fragilidades uns dos outros e ajudarem-se mutuamente a ultrapassá-las. E é preciso não esquecer que essa fragilidade pode estar no que deveria ser o “lado forte” da equipa. Ou seja, na liderança.

 

Por Diana Silva, consultora Funcional na Create IT

 

É fácil pensar em “fragilidades” numa equipa quando existe um lado com “juniores”. Apesar do seu grande entusiasmo, falta-lhes naturalmente experiência. Um (bom) líder é capaz de ajudá-los a superar o medo de falharem com desafios que trarão a experiência necessária para não repetirem erros ou saberem como endereçá-los.

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O problema é quando a fragilidade parte do que deveria ser o “lado forte” da equipa. Quando os colegas ou aqueles que estão sob a sua liderança identificam nessa pessoa fragilidades provocadas pela insegurança de estar numa posição que não lhe é confortável.

Ou, numa situação inversa, um líder que carrega o mundo nas costas e está sempre a desenrascar a vida de toda a gente. Apesar da aparente segurança, ele usa isso como um mecanismo para nunca ser visto como fraco, incompetente ou incapaz. Sente-se obrigado ao perfeccionismo para não ser “desmascarado”.

Em qualquer dos casos, um dos pontos mais relevantes a ter em conta é o sentimento de “não sou bom o suficiente”, levando a uma insegurança transparente ou até mesmo a um perfeccionismo insano, e, em ambos, ao medo extremo de falhar.

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Tal como eu, muitas pessoas já vivenciaram isto em algum momento da vida profissional ou pessoal. No meu caso, era pacífico ver em mim insegurança, o que para a equipa gerava também insegurança ou mesmo falta de credibilidade. Mas ter esse sentimento explícito abriu-me as portas para receber ajuda. No caso oposto, daqueles que compensam a insegurança com o perfeccionismo, passam a sofrer sozinhos e acabam por ganhar a admiração da equipa pela força e trabalho incansáveis, o que os torna ainda mais sobrecarregados na missão de não falhar.

Este tipo de comportamento foi identificado pela primeira vez em 1978 por duas psicólogas, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, e recebeu o nome de Síndrome do Impostor.

A doutora Joana de São João Rodrigues, psicóloga, membro efectivo da Ordem dos Psicólogos e especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, no seu artigo sobre o tema explica:

“A ideia central deste mecanismo envolve a forma como os outros nos vêem e a maneira como cada um se vê a si próprio, principalmente em relação às conquistas profissionais (mas não só). Quem é impostor de si próprio não acredita nas evidências visíveis de que é competente, porque se considera inferior relativamente aos outros e incapaz.”

As pessoas que sofrem da Síndrome do Impostor geralmente apresentam algumas das seguintes características:

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1. Necessidade de se esforçar sempre mais
A pessoa acredita que sabe menos do que os outros, por isso sente que precisa de se esforçar muito mais para justificar as suas concretizações. O perfeccionismo é utilizado como justificação do desempenho, mas causa muita ansiedade, cansaço e desgaste.

 

2. Procrastinar
O facto de a pessoa achar que ao apresentar uma tarefa será avaliada e criticada de forma negativa, pode levar a que se adie compromissos e tarefas e levar o máximo do tempo para cumprir estas obrigações de forma a evitar o momento da avaliação e crítica.

 

3. Auto-sabotagem
A pessoa acredita que o fracasso é inevitável e que a qualquer momento alguém a irá desmascarar à frente dos outros. Desta forma, pode não se esforçar tanto, evitando gastar energia para algo que acredita que não irá correr bem.

 

4. Medo da exposição
É comum que a pessoa esteja constantemente a evitar os possíveis momentos de avaliação, e por isso a escolha de tarefas – e até mesmo da própria profissão – são, muitas vezes, baseadas naquelas em que serão menos perceptíveis, evitando assim ser alvo de avaliações e críticas.

 

5. Comparação com os outros
Ser perfeccionista, exigente consigo e comparar-se com os outros, apercebendo-se de que é inferior ou sabe menos que os outros, são algumas das principais características desta síndrome. Pode mesmo haver a sensação de que nunca se é bom o suficiente em relação aos outros, o que gera muita angústia, tristeza, frustração e insatisfação.

 

6. Querer agradar a todos
Para compensar o que a pessoa acha que não tem e procurar alcançar aprovação pelos outros, pode adoptar uma atitude de tentar causar boa impressão e tentar agradar a todos, podendo até sujeitar-se a situações humilhantes.

 

Daí a grande importância de no ambiente profissional termos também para os líderes, e não só para as suas equipas, um acompanhamento próximo para que se consiga identificar este tipo de fragilidades e dar-lhes consciência do problema para que aceitem ajuda.

Não é simples mudar a forma de pensar, especialmente quando já tornámos o condicionamento involuntário, fazendo- o de forma não consciente, mas seguindo sempre o mesmo padrão.

No meu caso, eu não conseguia perceber esse padrão. Mesmo quando algo corria muito bem o sentimento era de frustração por não ter conseguido ser bem-sucedida noutros pontos ou por não ser suficiente para “compensar as falhas”. Foi preciso, através de coaching e conversas com colegas de equipa, identificar o padrão de comportamento para começar a mudança.

Quebrar o padrão da forma de pensar e agir parte também de se sentir seguro em expor as suas fragilidades. Por isso é tão crítico a abertura da equipa para entender que aquela pessoa que está à frente continua a ser um colega e que precisa do mesmo apoio que os demais. Passa pelo reconhecimento das conquistas, pela aceitação como aprendizagem quando algo não corre bem, pelo não julgamento, pela demostração de confiança e até pela empatia.

 

Este artigo foi publicado na edição de Outubro (nº.130)  da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

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