As mudanças que têm vindo a ocorrer no mundo e no mercado de trabalho podem antecipar um futuro auspicioso para o trabalho temporário.
A Randstad tem uma experiência de décadas na gestão de trabalho temporário e considera que cada vez mais este modelo se afasta da associação à precariedade que imperava no passado, ao mesmo tempo que se apresenta como uma vantagem competitiva para empresas e para profissionais. David Ferreira, director de Staffing e Inhouse da Randstad, explica à Human Resources Portugal como está a evoluir a realidade do trabalho temporário no nosso país, a importância de uma maior flexibilidade do trabalho e as tendências de futuro que podem tornar este modelo ainda mais atractivo para as novas gerações de empresas e trabalhadores.
De que forma está a evoluir o trabalho temporário a par de todas as alterações que têm vindo a ocorrer no mundo do trabalho?
O trabalho temporário ganhou uma relevância ímpar nos últimos anos. Os desafios do pós-pandemia e início da guerra, com acentuadas quebras de cadeias de fornecimento e incremento dos custos generalizados e produção, mostram que é uma ferramenta determinante para a continuidade da maioria dos sectores da nossa economia. Numa altura em que a imprevisibilidade e incerteza invadem os dias dos gestores, o recurso à flexibilidade ou trabalho temporário é, para muitas empresas, uma boia de salvação e a forma de garantir a continuidade dos seus negócios. E hoje vimos que essa continua a ser uma tendência, mostrando-nos que o recurso a trabalho temporário pode ser uma vantagem, tanto para empresas como para trabalhadores. A flexibilidade e a capacidade de adaptação de que tanto se fala não vão desaparecer e continuarão a merecer a atenção do nosso tecido empresarial. O recurso ao trabalho temporário permitirá reforçar e suprir as necessidades de talento dentro das organizações, ao mesmo tempo que estas acompanham e mantêm vivos os seus negócios. Hoje, cada vez mais as empresas se organizam e gerem com base em projectos, também eles temporários, onde os seus trabalhadores são alocados e, por isso, a ideia de que ter um contrato temporário é prejudicial, é uma forma muito redutora de olhar para este segmento do mercado de trabalho.
Quais os sectores de actividade que mais apostam em trabalho temporário, para que funções e para responder a que tipo de necessidades?
De uma forma geral, podemos dizer que grande parte dos sectores apostam neste modelo. É normal que existam empresas de sectores que optaram por este modelo de trabalho com mais recorrência: os casos da restauração, hotelaria, retalho, sectores onde, pela questão da sazonalidade, lhes é indissociável este tipo de contratação. Todas as áreas de produção industrial, construtora, transformadora, passando pelos serviços de atendimento ao cliente, destacam-nos como vitais. O trabalho temporário é uma vantagem competitiva e que lhes permite fazer frente a momentos de pico de produção, e controle de custos, por exemplo.
Nos últimos anos houve algumas alterações, em alguns sectores, face a este tema?
A pandemia e o conflito armado alteraram as necessidades de mão de obra e vieram mostrar as vantagens que este modelo de trabalho pode trazer para as organizações, podendo mesmo ser um facilitador na gestão e integração das necessidades de mão de obra nas organizações. Se anteriormente se pensava em trabalho temporário maioritariamente em sectores como indústria ou serviços de apoio ao cliente, o que hoje vemos é uma maior abrangência tanto em termos de sectores como de perfis, desde os não especializados até aos especializados ou superiores. Os modelos de interim management são exemplos claros disso, onde perfis altamente qualificados, e até quadros médios e superiores, assumem funções em regime de trabalho temporário.
Quais as vantagens, além do vínculo laboral, do trabalho temporário para as empresas?
É sem dúvida uma vantagem para as empresas, permitindo que se dediquem exclusivamente ao core do seu negócio, já que todo o processo de recrutamento, onboarding, gestão contratual e trabalho administrativo que está subjacente à contratação e gestão de pessoas é tratado directamente por um parceiro externo. Vendo por esta óptica, podemos mesmo assumir que se trata de uma parceria onde tudo o que implica a gestão de pessoas está fora do âmbito da própria empresa. Claro que novamente aqui a flexibilidade volta a ser um tópico muito importante, por permitir a contratação de um certo número de trabalhadores de forma muito rápida e para processos específicos, mas nunca esquecendo a legalidade dos procedimentos de acordo com a legislação em vigor. Igualmente, e numa óptica de gestão de custos é também uma vantagem para as empresas, já que este é um custo alocado por um período de tempo determinado e pensado para tal. Ao mesmo tempo, a contratação de um trabalhador temporário pode também servir como um teste para perceber se esta é uma necessidade a longo prazo e que acabe por justificar a contratação sem termo.
E para os profissionais?
A flexibilidade e a procura do equilíbrio entre vida profissional e pessoal, são novamente as palavras de ordem. O conceito de emprego para a vida já há muito que deixou de fazer parte da realidade do mundo do trabalho e, por isso, o estigma que antes existia no que respeita a trabalho temporário já não faz sentido. A oportunidade de adquirir novas e diferentes experiências com base em diferentes projectos é, sem dúvida, uma mais-valia para qualquer profissional. Acredito que haja mais vantagens do que desvantagens, mas também que um dos principais desafios passa por garantir que estes trabalhadores se sintam parte integrante da própria organização e se identifiquem com o seu propósito, e na Randstad essa é uma preocupação constante. O acompanhamento que é feito a estes trabalhadores é também chave para o sucesso.
Que tipo de perfil profissional procura activamente soluções de trabalho temporário e porquê?
Vemos esta tendência em perfis das áreas de indústria e logística, mas também nos profissionais do sector da hotelaria, restauração e agricultura, pela questão da sazonalidade. E agora mais ainda todos os profissionais do âmbito do marketing e tecnologias da informação, muito influenciados pela vontade de trabalhar e assumir diferentes projectos ao longo do seu percurso profissional.
Qual o papel da Randstad na consultoria às empresas nesta área?
Enquanto empresa número um no sector dos recursos humanos, fazemos questão de garantir que conseguimos apoiar as empresas, seja qual for o modelo ou regime de trabalho que queiram adotar. Na verdade, mesmo em tempos de pandemia e perante um cenário socioeconómico incerto, nunca deixámos de trabalhar na criação de valor, seja de uma forma mais digital ou de maior proximidade.
Na Randstad, qual a quota que o trabalho temporário ocupa hoje em termos de negócio e como compara aos anos anteriores?
A Randstad tem uma grande experiência no âmbito do trabalho temporário. Assistimos inclusivamente a um crescimento na procura por determinados perfis para sectores como a logística e o atendimento ao cliente, por exemplo. E acredito que foi um momento essencial para perceber a importância que as pessoas têm nos negócios e empresas, pois sem elas não há capacidade para as manter vivas. Por isso, acho que aprendemos muito e vamos continuar a crescer, e que cada vez mais o trabalho temporário vai ser um modelo a adoptar.
Que ferramentas/tecnologias a Randstad usa e disponibiliza aos seus clientes para agilizar a força de trabalho neste contexto?
Na Randstad acreditamos numa estratégia que combina o tech com o touch e utilizamo-la diariamente. Acreditamos que é a combinação entre o lado humano e as ferramentas tecnológicas que permitem que, por um lado, os nossos candidatos atinjam o seu verdadeiro potencial, como nos caso das empresas, consigam chegar mais longe no seu negócio. Por isso, disponibilizamos aos nossos clientes e candidatos um conjunto de ferramentas digitais de suporte à decisão.
O relevate schedule é um exemplo claro disso e um verdadeiro caso de sucesso. Uma app que permite fazer a gestão de horários e turnos e comunicar em tempo real com os trabalhadores. Do lado do cliente permite gerir escalas, planear turnos, propor horas extra, introduzir avaliações, registos de horas e ainda comunicar de forma imediata. Sendo esta uma comunicação bidireccional, já que do lado dos trabalhadores permite também a comunicação com a empresa e aceitar turnos em tempo real de forma rápida e imediata.
Que tipo de desafios se apresentam hoje às empresas que recorrem a trabalho temporário?
Em Portugal sofremos muito com a questão dos salários apesar de termos assistido a um aumento gradual nos últimos tempos. Há ainda uma ideia muito errada e um estigma de quando falamos em trabalho temporário muito ligado à precariedade, o que não é verdade. É importante perceber que nem tudo é mau, e que um profissional com um trabalho temporário não é menos valorizado do que um com contrato a termo incerto. Mais ainda, há que olhar para estas formas flexíveis de contratação como uma vantagem, por exemplo, para pessoas com níveis de integração no mercado de trabalho muito baixos, com escolaridade abaixo da obrigatória, por exemplo.
A maior flexibilidade que existe hoje no mercado laboral contribui de alguma forma para reduzir essa associação do trabalho temporário à precariedade?
A flexibilidade está já a ser encarada como uma das principais formas de atrair e reter talento e não falo aqui na possibilidade apenas de um modelo de teletrabalho. A pandemia obrigou as pessoas a olharem para a sua vida profissional com outros olhos, a repensar aquilo que queriam para a sua carreira e o tema da conciliação vida profissional-vida pessoal foi muito escrutinado. Por isso, cada vez mais há que ter em conta que os trabalhadores procuram um equilíbrio e este passa por um modelo de trabalho que lhes permita crescer enquanto profissionais mas que, ao mesmo tempo, garanta o seu bem-estar e equilíbrio emocional.
Em que medida o trabalho temporário pode ser uma ferramenta útil para inserir os jovens no mercado de trabalho?
Pode ser claramente uma vantagem. Primeiro porque permite a estes jovens um primeiro contacto com a realidade do mercado de trabalho, através do qual podem adquirir conhecimentos e entrar num mundo profissional que em muito difere do académico. Mas também porque é uma forma das empresas conseguirem ter sangue-novo, beberem e aproveitarem esta integração para olhar para novas perspectivas trazidas por estas novas gerações.
O trabalho temporário pode servir também para a inserção de pessoas em fim de carreira e desempregados de longa duração?
Sim e não. Será sempre necessária uma avaliação criteriosa dos envolvidos. Por exemplo, nas gerações mais velhas a ideia de um contrato e de um emprego para a vida era uma ambição, hoje a realidade é diferente. Por outro lado, se olharmos para estas novas gerações, que olham muito para projectos com limites temporais perfeitamente definidos, poderemos estar perante uma oportunidade! Acredito que no futuro a requalificação e a formação profissional serão certamente os temas chave. A capacidade de adquirir novos conhecimentos, novas e diferentes perspectivas vão fazer com que cada vez mais o regresso ao trabalho seja visto com bons olhos.
Quais as tendências de futuro para o trabalho temporário?
O mercado de trabalho já nos dá pistas sobre esse futuro. A verdade é que com a ascensão de novas realidades laborais como a gig economy, que passa por projectos temporários qualificados e bem pagos, e o fim da noção do “emprego para a vida”, é indicador de que há lugar para um futuro brilhante para os modelos de trabalho temporário, onde o profissional é cada vez mais orientado por projecto e não por uma noção de área de trabalho estática. Neste caminho, torna-se ainda mais importante quebrar estigmas e encarar as vantagens desta flexibilidade, agilidade e rapidez que é trazida à tona pelo trabalho temporário.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Trabalho Temporário” na edição de Março (n.º 147) da Human Resources.
Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.














