O novo mundo das organizações: Ou um extremo, ou o outro

Human Resources
8 de Abril 2024 | 14:00

Com as redes sociais a moldarem a nossa vida em sociedade, parece que temos sempre de nos encaixar numa categoria simplista. Não há espaço para opiniões mais aprofundadas do que dicotomias superficiais. O mundo, em toda a sua complexidade social, está agora condicionado frequentemente a opções redutoras como “estou a favor” ou “estou contra”. E o problema é quando algumas das dinâmicas subjacentes das redes sociais se transmutam nas organizações.

 

Por Fernando Pinto Santos, professor coordenador e director do mestrado em Marketing e Tecnologia do IPAM

 

No outro dia, contaram-me o caso de uma nova administração de uma empresa, na área do Retalho, que estava a fazer reuniões internas com diferentes departamentos para os conhecer e ouvir, como é defendido nos livros de gestão e nas ted talks da moda. O responsável do serviço pós- -venda apresentou-se e começou por referir que eram necessários mais recursos financeiros e, em particular, um investimento em novos recursos humanos para que a sua equipa pudesse desempenhar bem as suas tarefas. A resposta foi imediata, e algo como um “começamos mal!” foi lançado num tom subitamente exasperado pelo responsável da administração, juntamente com um olhar de desprezo evidente.

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Lá se foram pelo cano abaixo todas aquelas frases bonitas sobre comunicação interna, abertura às ideias de todos e desenvolvimento organizacional. O sinal foi claro para todos os presentes na reunião: a nova administração não estava ali para realmente ouvir ninguém. A administração estava ali para se ouvir a si própria e às suas macro-definições estratégicas, bem distantes da realidade da experiência dos clientes e das condições de trabalho dos funcionários. No belo mundo de muitas organizações contemporâneas só há um caminho: unanimismo. Temos a opção de estar de acordo com os líderes do momento, ou seremos vistos no outro extremo, como estando contra estes.

Isto é muito pouco saudável, não é? Onde fica o espaço para perspectivas novas, discussão de experiências e reflexões sobre o que poderia ser diferente? Nas redes sociais, ou escolhemos “gosto” ou não o fazemos. Com certeza que também podemos escolher um símbolo de polegar para cima, ou um coração, entre outros, mas no fundo apenas temos a possibilidade de expressar reacções essencialmente positivas ou negativas. Para além disso, as redes sociais têm uma lógica de conteúdo baseada em pouco ou nenhum contexto. E parece assim que, no novo mundo das redes sociais, se tornou normal não termos vontade de ouvir realmente, e em detalhe, quem discorda de nós. Aliás, não há tempo sequer para o fazermos. Ou estamos contra ou a favor, simplesmente, em relação a tudo, e frequentemente de uma forma superficial. Como os algoritmos destas redes alimentam o nosso feed com conteúdos de quem pensa de forma similar, habituamo-nos à ausência de reais debates e troca de ideias.

Em organizações com ambientes saudáveis, os líderes devem fomentar a pluralidade, a iniciativa e a capacidade de análise, reflexão e sentido crítico. O problema é quando os líderes se tornam – mesmo que inadvertidamente – promotores da ausência destas qualidades.

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Mais do que colaboradores desmotivados, preocupam-me lideranças motivadas pela sedução da burocracia e da quantificação de tudo, pela ideologia de resultados a qualquer custo, e pela ânsia de promover um caminho único – aquele que elas decidiram, naturalmente –, condicionando as suas equipas a pensar e agir de forma semelhante. Eu diria que este tipo de liderança é muito pouco sustentável, mas há organizações que só se apercebem disso quando é demasiado tarde.

 

Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 159) da Human Resources.

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