A alemã heinmetall AG criou uma forma atrevida de se apresentar aos jovens candidatos a emprego, reporta a Bloomberg.
Nos eventos de recrutamento, a empresa de defesa costuma distribuir pacotes de preservativos com o logo da empresa e a mensagem: “A segurança importa. Sempre e em todo o lado”.
Na Europa, os fabricantes de armas estão a esforçar-se ao máximo para captar uma nova geração de trabalhadores, recorrendo a truques ousados para atrair uma força de trabalho tradicionalmente masculina.
Outros empregadores do sector de defesa estão a oferecer aulas de ioga, salários generosos e a alargar a rede de recrutamento para converter cozinheiros em soldadores na construção de navios de guerra. A indústria, outrora restrita, está a tentar reinventar-se para atrair o talento necessário para proteger o continente.
Os fabricantes de armas, subitamente cheios de encomendas, estão a correr para renovar uma força de trabalho envelhecida com recém-licenciados e trabalhadores recrutados de outros sectores. Porém, programadores, engenheiros nucleares e até canalizadores não se sentem muito atraídos por carreiras nessa área.
«Esta indústria nunca foi muito atractiva e não estava habituada a competir pelos melhores talentos», disse Christian Kaunert, professor de segurança internacional na Dublin City University. «Agora, precisam de melhorar a sua imagem e tornar-se mais apelativos para os jovens.»
Um aumento da despesa com a defesa para 3% do Produto Interno Bruto — os membros da NATO estabeleceram uma meta a longo prazo de 5% — exigiria até 760 mil trabalhadores qualificados na Europa até 2030, estima a consultora Kearney. De acordo com a Associação das Indústrias Aeroespaciais, de Segurança e Defesa da Europa, em 2023 era de 1 milhão de trabalhadores em 2023.
O sector da defesa está «em declínio há muito tempo», disse David Lockwood, CEO da Babcock International Group Plc, em entrevista. «Se quer um gestor de obra para uma obra com 500 a 600 pessoas, tem mesmo de o formar.» A maior dificuldade da construtora britânica de fragatas, submarinos e porta-aviões é ter as pessoas certas nas funções certas.
Encontrar pessoas com formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática também é outro desafio. Há uma escassez persistente de profissionais em STEM, afirma um porta-voz da empresa italiana de defesa Leonardo SpA. Para chegar aos trabalhadores mais jovens, a empresa oferece salários mais competitivos e reforça os programas de desenvolvimento de carreira, com o objectivo de contratar até 7.000 pessoas até 2028 — incluindo em tecnologias quânticas, inteligência artificial e computação de alto desempenho.
A fabricante de radares Hensoldt AG afirmou que pretende recrutar 1.000 pessoas este ano, com ênfase em cientistas da computação, engenheiros eléctricos e mecatrónica.
Uma potencial fonte de talento estará na indústria automóvel, que tem vindo a eliminar postos de trabalho devido ao excesso de produção. A Rheinmetall está a converter duas das suas fábricas automóveis e a requalificar trabalhadores para a defesa, enquanto a Hensoldt se ofereceu para contratar trabalhadores indesejados dos fornecedores de automóveis Continental AG e Robert Bosch GmbH.
«Toda a gente sabe que, assim que o dinheiro chegar, a disputa pela mão-de-obra vai tornar-se bastante intensa», alertou Timo Lehne, CEO da consultora de recrutamento SThree Plc. «Acreditamos que haverá uma disputa bastante renhida pelos melhores talentos.»
Os colaboradores das empresas europeias de aeroespacial e defesa têm um rendimento médio anual de 59 mil euros, 43% acima da média salarial da região, de acordo com a ASD, a associação do sector.
Perante o facto de não conseguirem contratar com a rapidez suficiente e correrem o risco de perder o boom das despesas que se avizinha, as empresas de defesa estão a renovar a sua imagem e a melhorar os benefícios.
A Rheinmetall também patrocinou a equipa de futebol Borussia Dortmund para atrair trabalhadores mais jovens. A empresa pretende contratar 9.000 colaboradores até 2027, incluindo operadores de centrais eléctricas, soldadores e mecânicos de aeronaves.
A Theon International Plc, fabricante grega de óculos de visão nocturna, afirmou que oferece apoio aos pais, aulas de ioga e cursos de línguas. A Steyr Motors AG, da Áustria, está a colaborar com escolas técnicas e universidades.
Ainda assim, ainda existem desafios para reformular a percepção do sector da defesa.
As pessoas deixaram a Babcock «porque vêem o que está a acontecer no mundo e não querem participar nisso», disse a directora de RH, Louise Atkinson, em entrevista. Ao mesmo tempo, «há mais pessoas que se sentem atraídas pelo sector porque querem defender o que é importante para elas».
As vagas em cargos de colarinho azul, como soldadura e canalização, são particularmente difíceis de preencher.
Contudo há sinais de progresso. O fluxo de candidatos está a intensificar-se, conta Timo Lehne e acredita que maior flexibilidade pode ajudar, uma vez que os fabricantes de armas demonstram um interesse crescente nos trabalhadores contratados.
Na Babcock, os programas de pós-graduação e de iniciação estão significativamente sobrelotados, disse o CEO David Lockwood.
A BAE Systems Plc, fabricante britânica do caça Eurofighter Typhoon, também obteve bons resultados, após ter investido mais de mil milhões de libras nos últimos anos em educação e qualificação. Este ano, a empresa está a recrutar mais de 2.400 novos aprendizes e graduados no Reino Unido.














