Por Luís Domingos, Head of Construction na Tétris, empresa de design & build do Grupo JLL
Quando se inaugura uma flagship de uma marca de luxo ou um escritório de uma multinacional, o que fica registado é o espaço. A arquitectura, os materiais e a precisão dos acabamentos. O que raramente se vê é o trabalho desenvolvido, durante meses, por uma equipa capaz de transformar um projecto exigente numa realidade.
O activo mais difícil de construir numa obra não é a obra, é a equipa. Ao longo de mais de duas décadas no sector do fit-out de luxo, tornou-se evidente uma lição fundamental: os projectos mais complexos raramente falham por falta de competência técnica. Falham, sobretudo, quando não existe uma equipa preparada para responder à pressão e à complexidade da obra.
É natural que o sector valorize o conhecimento técnico. As margens de erro são mínimas, os clientes são cada vez mais exigentes e os prazos raramente admitem desvios. No entanto, contratar apenas com base nas competências técnicas é uma armadilha. Os profissionais que mais contribuem para o sucesso de uma obra não são necessariamente os que dominam melhor a construção, mas aqueles que conseguem manter a equipa coesa, comunicar eficazmente com clientes, subempreiteiros e colegas e tomar decisões acertadas num contexto em que a informação é, quase sempre, incompleta.
Construir uma equipa de excelência exige tempo. Exige combinar experiência com talento, competências técnicas com capacidade de liderança e perfis que se complementam. Ninguém é bom em tudo, mas uma equipa bem construída pode ser.
O desafio começa no recrutamento, mas não termina aí. Identificar o perfil certo é apenas o primeiro passo. O verdadeiro investimento está na formação contínua, na responsabilidade atribuída às pessoas e na oportunidade de crescer através de projetos exigentes.
Esta realidade torna-se ainda mais evidente perante a escassez de talento qualificado em Portugal. O fit-out de luxo exige profissionais capazes de coordenar especialidades, interpretar projetos complexos e responder às expectativas de clientes internacionais, onde cada detalhe conta. Esses perfis dificilmente se encontram no mercado. Formam-se dentro das empresas, através da experiência, da partilha de conhecimento e de uma liderança comprometida com o desenvolvimento das equipas.
Liderar neste contexto significa saber gerir a pressão. Os prazos são curtos, os imprevistos inevitáveis e a exigência permanente. O papel da liderança não é eliminar essa tensão, mas criar as condições para que a equipa responda com confiança, comunicação e capacidade de decisão.
O mercado do fit-out de luxo continuará a crescer em Portugal. No entanto, o futuro do setor dependerá menos da dimensão das empresas e mais da sua capacidade para atrair, formar e reter talento, porque a excelência não começa quando se abre o estaleiro. Começa muito antes, na forma como se lidera e se desenvolvem pessoas.
Num sector onde todos olham para as obras concluídas, talvez esteja na altura de reconhecermos que a construção mais importante começa muito antes da primeira pedra. A obra mais difícil que uma empresa alguma vez construirá não tem paredes. Tem pessoas.














