Um lugar à mesa

Opinião de Cláudia Veiga, docente na Escola de Enfermagem (Porto) da Universidade Católica Portuguesa

Human Resources
1 de Outubro 2026 | 11:00
Um lugar à mesa

Por Cláudia Veiga, docente na Escola de Enfermagem (Porto) da Universidade Católica Portuguesa

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Nos anos 80, tempo da minha infância, as famílias constituíam uma unidade alargada. As mesas de refeição podiam não ser fartas, mas eram recheadas de conversa e partilha. Os topos da mesa eram reservados aos membros mais importantes da família — no meu caso, uma bisavó. Sempre me fascinou a sua resiliência perante a velhice, que lhe impunha limitações crescentes, associada a uma sabedoria notável, que hoje sabemos representar um ganho do envelhecimento humano.

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Esta memória pessoal inspira a reflexão acerca do Dia Internacional da Pessoa Idosa.

A longevidade é uma das maiores conquistas da humanidade. Contudo, vivemos tempos paradoxais. Numa sociedade que valoriza a juventude, procuram-se esconder os sinais do envelhecimento e, muitas vezes, nas mesas de refeição o lugar de destaque já não é reservado aos mais velhos.

Portugal é um país envelhecido. Em 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística, cerca de 23% da população tinha 65 ou mais anos e o índice de envelhecimento ultrapassava os 188 idosos por cada 100 jovens. As doenças adquiridas ao longo da vida, a polifarmácia associada e o impacto do envelhecimento, geram necessidades de cuidados que frequentemente permanecem sem resposta adequada. O isolamento, a solidão, a pobreza, a insegurança habitacional e a fragilidade das redes de suporte têm impacto directo na saúde e na qualidade de vida das pessoas idosas.

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Envelhecer de forma bem-sucedida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, implica optimizar oportunidades de saúde, participação e segurança, promovendo a qualidade de vida à medida que se envelhece. Esta optimização exige planeamento da pessoa, das famílias, das instituições e das políticas públicas.

Celebrar o Dia Internacional da Pessoa Idosa exige mais do que homenagens simbólicas: exige compromisso colectivo com um envelhecimento planeado e socialmente sustentado. Envelhecer activamente é ser protagonista da própria vida.

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Exige, também, devolver às pessoas idosas, ainda que já não haja mesas de família alargada como a da minha infância, um lugar ao topo da mesa, onde a sua voz continue a ser considerada nas decisões que lhes dizem respeito. Talvez tenha sido esta experiência que moldou a enfermagem que exerço todos os dias: garantir que cada pessoa continua a ter lugar e significado. E quando deixam de conseguir fazer-se ouvir, importa recordar que, embora a funcionalidade e a cognição possam entrar em declínio, as suas emoções permanecem.

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