Por Cláudia Veiga, docente na Escola de Enfermagem (Porto) da Universidade Católica Portuguesa
Nos anos 80, tempo da minha infância, as famílias constituíam uma unidade alargada. As mesas de refeição podiam não ser fartas, mas eram recheadas de conversa e partilha. Os topos da mesa eram reservados aos membros mais importantes da família — no meu caso, uma bisavó. Sempre me fascinou a sua resiliência perante a velhice, que lhe impunha limitações crescentes, associada a uma sabedoria notável, que hoje sabemos representar um ganho do envelhecimento humano.
Esta memória pessoal inspira a reflexão acerca do Dia Internacional da Pessoa Idosa.
A longevidade é uma das maiores conquistas da humanidade. Contudo, vivemos tempos paradoxais. Numa sociedade que valoriza a juventude, procuram-se esconder os sinais do envelhecimento e, muitas vezes, nas mesas de refeição o lugar de destaque já não é reservado aos mais velhos.
Portugal é um país envelhecido. Em 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística, cerca de 23% da população tinha 65 ou mais anos e o índice de envelhecimento ultrapassava os 188 idosos por cada 100 jovens. As doenças adquiridas ao longo da vida, a polifarmácia associada e o impacto do envelhecimento, geram necessidades de cuidados que frequentemente permanecem sem resposta adequada. O isolamento, a solidão, a pobreza, a insegurança habitacional e a fragilidade das redes de suporte têm impacto directo na saúde e na qualidade de vida das pessoas idosas.
Envelhecer de forma bem-sucedida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, implica optimizar oportunidades de saúde, participação e segurança, promovendo a qualidade de vida à medida que se envelhece. Esta optimização exige planeamento da pessoa, das famílias, das instituições e das políticas públicas.
Celebrar o Dia Internacional da Pessoa Idosa exige mais do que homenagens simbólicas: exige compromisso colectivo com um envelhecimento planeado e socialmente sustentado. Envelhecer activamente é ser protagonista da própria vida.
Exige, também, devolver às pessoas idosas, ainda que já não haja mesas de família alargada como a da minha infância, um lugar ao topo da mesa, onde a sua voz continue a ser considerada nas decisões que lhes dizem respeito. Talvez tenha sido esta experiência que moldou a enfermagem que exerço todos os dias: garantir que cada pessoa continua a ter lugar e significado. E quando deixam de conseguir fazer-se ouvir, importa recordar que, embora a funcionalidade e a cognição possam entrar em declínio, as suas emoções permanecem.

















