A culpa é do mordomo

Human Resources
7 de Novembro 2025 | 10:30
A culpa é do mordomo

Por Pedro Ramos, CEO da KeepTalent Portugal

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Dizem por aí que, em todas as “boas histórias de mistério”, há sempre um suspeito improvável. Alguém discreto, aparentemente secundário, que só aparece para servir o chá ou para ajeitar as flores da sala de jantar. No final, claro, descobre-se que era ele o responsável por todo o enredo e seu desfecho: o mordomo.

Nas empresas, a trama não é muito diferente. Quando os resultados não aparecem, quando os talentos fogem pela porta “dos fundos” e quando a cultura organizacional perde o brilho, há sempre um olhar que se volta, ainda que discretamente, para uma mesma personagem: o RH. “A culpa é do RH!”, dizem alguns com a convicção de detective experiente.

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Mas será mesmo?

Talvez o RH – o tal “mordomo corporativo” – não seja o assassino da estratégia, mas a vítima silenciosa do enredo. O primeiro a ser chamado para “arrumar a casa”, o último a ser realmente ouvido nas decisões. Afinal, o RH costuma saber onde estão “os corpos”; leia-se, as lacunas de liderança, os talentos desmotivados, as decisões precipitadas que matam a cultura empresarial aos poucos. No entanto, quantas vezes o seu aviso chega tarde demais, abafado pelo barulho das “urgências” e números?

Ser um RH estratégico hoje é como ser um detective de Agatha Christie tentando resolver um crime enquanto participa do jantar dos suspeitos. Requer faro, leitura de sinais, intuição e coragem para dizer o que ninguém quer ouvir. A diferença é que, na vida real, o “crime corporativo” não é resolvido com uma revelação dramática na sala principal; pelo contrário, é prevenido todos os dias, com escuta activa, liderança empática e visão de futuro.

O verdadeiro mistério, portanto, não é descobrir quem matou os resultados, mas entender por que o RH foi afastado da cena do crime. Empresas que mantêm o RH apenas como executor administrativo acabam tornando-o cúmplice involuntário da morte da estratégia. Quando o RH é convidado apenas para preencher vagas e organizar campanhas de bem-estar com entrega de “maçãzinhas”, não tem acesso às motivações do enredo – e sem este, ninguém investiga o que realmente importa: o comportamento humano nas organizações!

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No final, o veredicto é simples. A culpa não é do mordomo, nem do RH. A culpa é da história mal contada, onde o protagonista foi deixado na cozinha enquanto a empresa se desintegrava na sala de jantar.

Talvez seja hora de reescrever o roteiro: dar ao RH o papel central que merece – o de quem não apenas serve a estratégia, mas a cria, a alimenta e a protege. Porque, em qualquer organização que queira sobreviver ao próximo capítulo, o verdadeiro mistério é como fazer das pessoas o melhor enredo possível.

Afinal, morra a culpa “solteira ou casada”, a culpa nem sempre é do RH… mas às vezes até parece!

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