Crescer Dói

Por Cátia Rodrigues, Professora Adjunta Convidada da eshte

Human Resources
21 de Julho 2026 | 11:00

Por Cátia Rodrigues, Professora Adjunta Convidada da eshte

Enquanto docente e investigadora em gestão de recursos humanos aplicada ao turismo e à hospitalidade, faço-me com frequência a mesma pergunta: estaremos a proporcionar aos nossos estudantes tanto contacto real com o terreno quanto eles e o próprio sector precisam? Acredito que sim, em muitos casos, e tenho o privilégio de ver bons exemplos de perto. Mas acredito, sobretudo, que precisamos de ir mais longe.

O turismo e a hospitalidade são actividades feitas por Pessoas, com Pessoas, para Pessoas. A sua sustentabilidade depende menos de processos e mais da capacidade de atrair, desenvolver e reter talento, num contexto de elevada rotatividade, sazonalidade e pressão operacional que todos conhecemos bem. Formar quem vai gerir pessoas nestas áreas exige muito mais do que transmitir conteúdos teóricos sobre liderança, motivação ou gestão de conflitos: exige multiplicar o contacto real com a complexidade do terreno, ainda durante a formação académica.

É aqui que entram as metodologias activas de ensino-aprendizagem, e é nelas que, cada vez mais, acredito. Ao contrário do modelo puramente expositivo, em que o estudante é receptor passivo de conhecimento, abordagens como a aprendizagem baseada em projectos, o design thinking aplicado ou a organização de iniciativas profissionais em sala de aula colocam o estudante no centro da acção. Já existem, felizmente, muitas destas práticas nas nossas escolas. O que falta, creio eu, é escala, regularidade e reconhecimento do seu valor central e não apenas pontual.

Uso a organização de eventos, com frequência, como ferramenta pedagógica. Mesas redondas, congressos, bootcamps, entre outras iniciativas são colocadas, propositadamente, nas mãos dos estudantes. Sei, de antemão, que a reação inicial é quase sempre de resistência. Habituados a métodos mais tradicionais, em que o seu papel é maioritariamente passivo, estes exercícios assustam: exigem trabalho redobrado, geram frustração e atritos no grupo e a sensação de estarem a fazer muito mais do que esperavam de uma disciplina. Não escondo isto dos estudantes, nem o escondo aqui: é um processo exigente, também para mim, que os acompanho de perto.

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Mas é precisamente nesse desconforto que mora o crescimento. Quando se envolvem verdadeiramente no trabalho em equipa, ao meu lado, algo muda. Vejo-os ganhar autonomia, capacidade de decisão e confiança nas suas próprias competências. E, no final, são eles próprios que avaliam positivamente a experiência e reconhecem vantagens que inicialmente não previam: mais clareza profissional e um confronto direto, ainda que simulado, com a realidade do sector que os espera.

É também aqui que reside um dos maiores contributos da academia à empregabilidade: não só certificar conhecimento, mas construir pontes reais com o mercado de trabalho. Ao convidar profissionais para a sala de aula e colocar estudantes a interagir diretamente com quem recruta, gere equipas ou lidera departamentos, antecipamos o primeiro encontro entre o talento emergente e o sector que o vai empregar, proporcionando, assim, às organizações a oportunidade de identificar, mais cedo, perfis com potencial.

Felizmente, tenho sentido, com satisfação crescente, mais abertura por parte das empresas e dos seus líderes, que parecem compreender, cada vez mais e cada vez melhor, o valor desta sinergia e o retorno deste investimento. Quando aceitam o convite para entrar na sala de aula e partilhar experiências reais, não estão a fazer um favor à escola: estão a investir no talento que mais tarde vão precisar de recrutar, formar e reter. Quanto mais este movimento for recíproco e sustentado, mais o setor ganha.

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Igualmente decisiva é a clareza que estas actividades trazem aos estudantes: o que querem, e o que não querem, para o seu futuro profissional. E essa clareza vale ouro. A retenção de talento não começa no dia da contratação, começa muito antes, na forma como cada um vai construindo expectativas realistas sobre a cultura, os valores e as exigências reais de um setor.

Não defendo que as metodologias activas substituam a sólida formação teórica, indispensável. Defendo, sim, que ganhem mais espaço, regularidade e reconhecimento nos planos curriculares, que deixem de ser a excepção feliz e passem a ser a regra. As novas gerações que vão gerir pessoas neste sector precisam de sair das escolas a saber o que é liderança ou inteligência emocional, mas também a tê-las testado em contextos reais.

Se queremos profissionais de turismo e de hospitalidade preparados para os desafios de um setor marcado por volatilidade, exigência emocional e adaptação constante, a formação não pode ficar apenas pelo que se ensina. Tem de ser sobre o que se vive enquanto se aprende e é essa convicção que me move!

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