Barómetro: Ética, uma questão de negócio

À partida, quando se fala em ética, pensamos em valores, princípios morais, mas quando se trata de ética empresarial, e dela depende a confiança dos stakeholders, a questão parece estar para além disso. Mas será que as empresas, e as pessoas, estão de facto dispostas a abdicar de certos benefícios/ lucros em prol da ética?

 

Por Ana Leonor Martins

 

A ética empresarial é um tema que está, cada vez mais, na ordem do dia, motivado por alguns escândalos a envolver empresas e grupos económicos de relevo. Como resultado, em vários países a regulamentação tornou-se mais pró-activa e punitiva. Por outro lado, a comunicação digital expõe mais as empresas e, com o maior e mais fácil acesso a informação, a opinião pública tornou-se mais crítica. O estudo “Strategy & CEO Success”, da PWC, divulgado o ano passado, revelou que as substituições forçadas nas 2500 maiores empresas cotadas do mundo aumentaram 36% no período entre 2012 e 2016, face aos cinco anos anteriores. Ou seja, há cada vez mais CEOs despedidos por questões éticas.

Mas é questão é, foram despedidos apenas por questões éticas ou por questões legais? Por exemplo, conduta imprópria como, por exemplo, mentir sobre o curriculum será uma coisa, fraude ou suborno outra, que já incorrerá na esfera criminal. O que significa ética, afinal? O conceito deriva do grego ethos (carácter), traduzindo, segundo o dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora), princípios morais por que um indivíduo rege a sua conduta pessoal ou profissional, ou a disciplina que procura determinar a finalidade da vida humana e os meios de a alcançar, preconizando juízos de valor que permitem distinguir entre o bem e o mal.

Há precisamente um ano atrás, na 9.ª edição do Barómetro Human Resources, o tema da Ética já tinha sido abordado. Questionámos o painel de especialistas sobre o nível de ética empresarial que acreditavam existir em Portugal e, a larga maioria (68%), respondeu ser apenas “razoável”, com 15% a defender que é elevado, mas outros 15% a considerar que é baixo. Um panorama não propriamente muito optimista. No entanto, quando lhes foi pedido para partilharem se já se sintam sentido pressionados para comprometer os princípios e normas de actuação ética da organização, 53% dos inquiridos afirmaram “nunca” ter acontecido. Mas 48% foi confrontado com essa situação (35% “raramente” e 13% “ocasionalmente”).

No XX Barómetro Human Resources fomos mais longe e, dada a importância que acreditamos que o tema tem, esta edição foi-lhe dedicada na íntegra. Procurámos perceber se a ética tem, de facto, algum valor para os negócios, e que valor é esse; se as empresas em Portugal são eticamente responsáveis e, no casos e não serem, o que o motiva. No final de contas, a questão fundamental será se as empresas estão, na realidade, dispostas a abdicar e certos benefícios/ lucros em prol da ética. E para aferir como se passam das palavras à actuação questionámos ainda o que fazem as empresas para assegurar um comportamento ético.

Se, quando se trata da teoria, as perguntas são consensuais, quando passamos para a prática a realidade altera-se. Vejamos então os resultados.

 

O valor da ética

Começámos pela teoria, inquirindo o painel sobre se a ética tem algum valor para os negócios. A resposta foi consensual, não havendo ninguém que respondesse que não. Uns “sonantes” 91% afirmaram que sim, que tem muito valor, enquanto 9% considera que “sim, mas pouco”.

Centrando a questão no valor que a ética assume para as empresas em Portugal, e dando a hipótese de escolherem duas opções, a maioria (59%) defendeu que se trata de criar confiança perante os stakeholders e de preservar a imagem corporativa (43%). Para 30% é uma forma de assegurar a sustentabilidade e para 21% de reforçar o Employer Branding. 6% referiram ainda ser um factor competitivo. Por outro lado, apenas 1% considerou ser uma questão de justiça e só para 10% é uma questão de honestidade. Ou seja, parece que, mais do que um tema de valores, a ética empresarial é um tema de negócio, mais concretamente, de sustentabilidade do negócio.

Continuando a especificar, e passando para a prática, questionámos se as empresas em Portugal são eticamente responsáveis. O sim voltou a ser peremptório, com 90% das respostas, mas só 4% respondeu sim, sem dúvidas (curiosamente a mesma percentagem de quem afirma que não). Para 49% a maioria das empresas age de forma ética, mas para 37% só uma minoria o faz. 1% afirmou que não, mas acredita que tencionam sê-lo.

De forma ainda mais directa, quisemos saber se o painel de especialistas acredita que as empresas e pessoas estão dispostas a abdicar de certos benefícios/ lucros em prol da ética. Voltou a destacar-se o sim, com 48% das respostas, mas o não chegou aos 33%. Curioso é que, apesar do inquérito ser anónimo, 20% escolheu a opção “não sabe/ não responde”, algo absolutamente inédito em 20 edições de Barómetro.

Conheça os resultados na íntegra na edição de Junho da Human Resources Portugal e leia os comentários de:
– Paulo Pisano, Chief Peopla Officer do Grupo Galp
– Marta Lopes Maia, Chief People Officer do Grupo Jerónimo Martins
– Rui Moita, Director de Recursos Humanos da LG Electronics Portugal
– Paulo Santos, Director de Recursos Humanos da Renova

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