Gestão e IA: O impacto real da automação operacional

Opinião de José Carlos Pereira, director Financeiro da Ipsis – Consultores de Relações Públicas, S.A.

Human Resources
14 de Setembro 2026 | 11:00
Gestão e IA: O impacto real da automação operacional

Por José Carlos Pereira, director Financeiro da Ipsis – Consultores de Relações Públicas, S.A.

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No sector da comunicação, o debate sobre Inteligência Artificial (IA) é frequentemente confinado ao resultado criativo e à geração de conteúdos. O essencial, porém, joga-se noutro lado. Segundo os dados mais recentes do Eurostat, 20% das empresas da União Europeia com 10 ou mais trabalhadores utilizaram tecnologias de IA em 2025, contra 13,5% no ano anterior. Portugal ficou nos 11,5%, quase nove pontos abaixo da média europeia, ainda que entre as grandes empresas a adopção chegue aos 49,1%, de acordo com o INE. O fosso não está na curiosidade sobre a tecnologia: está na capacidade de a integrar na operação.

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Na minha experiência, a IA deixou de ser uma promessa futurista para se tornar um pilar estruturante da nossa gestão diária. Não serve apenas para responder a dúvidas ou gerar texto; está integrada na própria execução das nossas tarefas, a montante das equipas financeiras e de Recursos Humanos.

Este nível de maturidade digital não surge por acaso. Foi o resultado de anos de trabalho na consolidação de um sistema de gestão integrado (ERP) rigoroso. E é aqui que reside a diferenciação entre adoptar IA e beneficiar dela. Em Junho deste ano, a Gartner divulgou um número que devia fazer parar qualquer direcção financeira: 84% das organizações financeiras já implementaram ou planeiam implementar IA, mas apenas 7% reportam um impacto elevado ou muito elevado dessas iniciativas. O problema não é de tecnologia. É de execução. A existência de uma base de dados fidedigna e de fluxos operacionais bem definidos é, precisamente, o alicerce que permite à IA operar com precisão e verdadeiro impacto no negócio.

A transição de tarefas puramente administrativas para processos de análise apoiados por IA alterou radicalmente o dia-a-dia das equipas operacionais da DAF e de Recursos Humanos. Ao automatizar a interpretação inteligente de documentos, a validação de dados fiscais e a gestão do ciclo de vida do colaborador, conseguimos uma redução de cerca de 50% no tempo despendido em tarefas de processamento de dados e burocracia administrativa. Esta libertação de recursos permite que as equipas operacionais deixem de “introduzir dados” para passarem a focar-se exclusivamente na validação de excepções, no suporte directo ao negócio e no acompanhamento do talento interno.

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A adopção de IA levanta sempre questões legítimas de risco. E os dados mostram que a governação está atrasada face à tecnologia. O estudo da McKinsey sobre maturidade em IA responsável, publicado em Março, conclui que apenas cerca de 30% das organizações atingem um nível maduro em estratégia, governação e controlo de sistemas agênticos, e que perto de dois terços apontam a segurança e o risco como o principal obstáculo a escalar estas soluções. A moldura regulatória, entretanto, já mudou: o Regulamento (UE) 2026/1744 está em vigor desde 27 de Julho e adiou para 2 de Dezembro de 2027 a aplicação das obrigações aos sistemas de alto risco do Anexo III do AI Act — uma lista que inclui, precisamente, os sistemas usados em recrutamento e gestão de trabalhadores. Um prazo adiado não é uma preparação adiada.

A regra que sigo é simples: a tecnologia trata o volume e a complexidade, mas as decisões finais e a leitura humana continuam a ser estritamente nossas. Na prática, os algoritmos processam os dados, mas a aprovação final passa sempre por pessoas, cumprindo rigorosamente as regras de privacidade e segurança exigidas pelo nosso negócio.

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A combinação da nossa infra-estrutura de dados com a IA mudou a forma como acompanhamos o negócio. Abandonámos a dependência exclusiva do fecho contabilístico do mês anterior, que nos obrigava a tomar decisões com base em dados de “ontem”, para passarmos a trabalhar com informação actualizada e consolidada. A IA assegura o cruzamento contínuo dos dados operacionais, o que nos permite ter uma leitura clara da execução orçamental e dos custos de projecto em cada momento. E é aqui que se decide o retorno: um inquérito da Gartner a 204 líderes financeiros, realizado em Março e divulgado no mês passado, revelou que 45% do investimento em IA nas finanças está orientado para produtividade e apenas 20% para a qualidade da decisão; quando é justamente esta última que os conselhos de administração valorizam. Automatizar tarefas dá ganhos; melhorar decisões dá vantagem competitiva.

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A Inteligência Artificial não veio substituir as pessoas, mas sim dar-lhes ferramentas para trabalharem melhor. Ao automatizar o processamento de dados e as rotinas diárias, a IA devolve às equipas da DAF e de RH o activo mais valioso: tempo para a análise crítica, para antecipar problemas e para se focarem no que realmente acrescenta valor ao negócio. É este o uso prático e realista que faz sentido darmos à tecnologia. E, a julgar pelos números europeus, ainda há muito caminho por fazer.

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