Por Nádia Novais, directora-geral da IPSIS
Passamos no trabalho uma parte enorme da nossa vida. É ali que muitos de nós aprendem, crescem, falham, recomeçam e, no meio disso tudo, vão descobrindo quem são. Por isso, quando alguém escolhe trabalhar connosco, está a entregar-nos algo que não volta atrás: o seu tempo, o seu talento e, sobretudo, a sua confiança. Tenho cada vez mais a convicção de que a melhor forma de honrar essa escolha é simples de enunciar e difícil de praticar. Devemos ser um motor de apoio para todos aqueles que nos dão o privilégio de colaborar connosco.
Não escrevo isto de uma posição confortável nem ingénua. Sei que as relações de trabalho nem sempre são simples. Há expectativas que se cruzam, exigências que pesam, dias em que falamos línguas diferentes dentro da mesma equipa. Liderar pessoas é, em boa medida, gerir essa complexidade sem perder de vista a pessoa que está do outro lado. E a pessoa que está do outro lado tem uma vida, um percurso e sonhos profissionais que são dela, não nossos.
É aqui que costumo discordar de uma certa cultura de gestão que ainda persiste. Aquela que mede o sucesso pela capacidade de reter, que olha para a saída de um colaborador como uma derrota e para uma proposta externa como uma traição. Compreendo a origem desse instinto, mas parece-me redutora. Reter alguém à força, ou por culpa, raramente produz lealdade. Produz, quando muito, presença. E presença não é o mesmo que entrega.
E, por isso, a minha posição é outra. Acredito que o nosso papel é ajudar as pessoas a concretizarem aquilo a que se propõem, mesmo quando o destino delas não é ficar connosco. Significa dar contexto, dar responsabilidade, dar margem para errar e para aprender. Significa, muitas vezes, dar visibilidade a quem trabalha bem em vez de a guardar para nós. E significa, quando chega o momento, ter a maturidade de reconhecer quando já não conseguimos acompanhar.
Porque esse momento chega. Mais cedo ou mais tarde, alguém recebe uma proposta que nós, enquanto empresa, não temos como igualar. Pode ser mais dinheiro, pode ser um cargo, pode ser um projecto que faz brilhar os olhos de uma forma que nós já não conseguimos provocar. E nesse momento há uma escolha a fazer, que diz muito mais sobre quem lidera do que sobre quem parte. Podemos transformar a despedida num assunto pessoal, criar peso e ressentimento. Ou podemos fazer o que me parece ser o mais decente e, com o tempo, o mais inteligente. Apoiar a pessoa a seguir o seu rumo.
Tenho-o feito e voltaria a fazê-lo sem hesitar. Quando não consigo oferecer a alguém aquilo que a próxima etapa da sua carreira pede, prefiro ser eu a ajudar a abrir a porta. Não por estratégia, mas por respeito. E acabo por perceber, repetidamente, que esse respeito não se perde. Fica. As pessoas lembram-se de quem as tratou como adultos no momento em que era mais fácil tratá-las como propriedade.
Há ainda uma dimensão prática, sobretudo no sector da comunicação, em que a reputação é o activo central. Quem sai bem volta a falar de nós. Recomenda, regressa por vezes, recomenda clientes, recomenda outros profissionais. Constrói-se, sem grande esforço, uma rede de pessoas que carregam connosco uma boa memória. Não conheço melhor investimento de longo prazo do que esse, e nenhum manual de gestão o substitui.
No fim, parece-me que confundimos durante demasiado tempo o sucesso de uma liderança com a sua capacidade de prender. Quando, na verdade, talvez a medida mais honesta seja outra. Quantas pessoas saíram melhores do que entraram. Quantas levaram daqui algo que lhes serviu na etapa seguinte. Quantas, anos depois, ainda dizem que foi connosco que cresceram.
Dar asas a quem passa por nós não é abdicar de nada.
É perceber que ninguém nos pertence e que o melhor que podemos deixar em alguém não é a obrigação de ficar, mas a vontade genuína de ter passado por aqui.
Se conseguirmos isso, então fizemos o essencial. O resto, o voo, é com elas.













