
Este não é mais um texto de IA, é um grito
Artigo de opinião de Ricardo Zózimo, Professor Universitário na Nova SBE
Esta é uma reação emocional a um mundo que neste momento se limita a aceitar de uma forma simplista que estamos perante a maior revolução tecnológica e humana das nossas vidas profissionais. Creio que concordarão comigo que não há espaço da nossa sociedade onde a IA não tenha ainda entrado. A IA está na saúde, nas relações amorosas, na educação, na procura de trabalho, na forma como recrutamos e damos feedback, naquilo que compramos e até nos alimentos que comemos. A IA está em todo o lado.
Nesta nossa sociedade onde a IA é inevitável, notamos ainda com mais força a polarização à volta dos seus benefícios e desafios. Por um lado os humano-puristas que encontram na força humana a sua âncora. Estes resistem, expondo e desafiando os pontos fracos da IA – a exclusão de muitas pessoas, a falta de consciência ética de muitos dos utilizadores que se apropriam das suas palavras, e até aqueles que falam da forma como as nossas escolhas estão a ser condicionadas pela IA. Do outro lado deste ringue, sentam-se os tecno-entusiastas, aqueles que creem profundamente que a tecnologia da IA pode resolver os problemas de eficiencia das empresas, que a IA pode trazer inovação onde os humanos com as suas armas não foram capazes, aqueles que encontraram na IA uma companhia profissional ilimitada de ideias, conceitos e palavras e nunca julgativa (na realidade a IA está sempre a elogiar).
Cada grito que espero dar neste texto reconhece no ser humano algo de único e irrepetível. Cada grito que tentarei dar assume que o ser humano é inquestionável. O primeiro grito tem a ver com amor. Amar depende da profundidade da conexão com que encaramos o ser amado. É a partir daí que se gera uma emoção um pouco adolescente e incontrolável. Esse amor, que se fixa olhos nos olhos, que nos interpela com a sua insconstância, que nos dá momentos de espanto e de desejo, será que esse amor continua a ser possível na era do IA? Será que esse amor de toque, de serviço ao outro que amamos continua a ser desejável? Este grito fala da forma como acho que o amor está a mudar, a forma como construimos amor, como sentimos amor e sobretudo a capacidade de dar amor gratuito e altruista.
O segundo grito que quero dar é sobre a espera. Esperar é, conjuntamente com amar, um dos movimentos mais ancestrais da nossa vida. Esperar é dar atenção ao instante da vida e não àquilo que nele se passa. Esperar, e sobretudo o vazio da espera, é fundamental para que a nossa vida chegue a ser o que pode ser em plenitude. É na espera que o nosso cérebro descansa. É na espera que as nossas emoções ganham forma. Levando ao extremo, é claramente na possibilidade de reflexão e meditação oferecida pela que a nossa vida pode ganhar caminhos e contornos espantosos. Assusta-me pensar que se calhar já não sabemos esperar, que já não sabemos estar em contacto com o vazio da espera pois estamos sempre na possibilidade de contacto com o virtual.
O último grito é sobre ter sede. Pode parecer um pouco estranho mas reflito aqui sobre a necessidade de ter sede das coisas mais simples, de trazer para a minha vida um pouco da simplicidade e gratuidade de um copo de água. Este grito é sobre a complexidade que a IA trouxe à nossa vida que nós não precisávamos. Este grito é sobre devolver à nossa vida a sede de coisas que nos fazem bem, que nos alimentam, que nos oferecem prazeres descomplicados e simples. Este grito é sobre a forma como o prazer nos é oferecido por algoritmos que nunca irão verdadeiramente saciar a nossa sede por coisas simples e autênticas.
Queria com este artigo expressar três gritos. Mas porquê um gritar? Um grito é por definição uma reacção extrema a algo que nos tenta controlar. Um grito expressa a nossa necessidade por fazer parar o sistema e de alguma forma acordar aqueles que estão à nossa volta. Este grito está longe de ser uma revolta ruidosa; é mais mais uma nota alta daquelas que se dão nas canções gospel. Daquelas notas que se sobrepoem ao coro e que ninguém pode ignorar.