Liderança. Burnout ou Brain-out?

O cérebro dos executivos como território estratégico de Recursos Humanos. Leia o artigo de Carlos Alves, fundador da Brain World.

Human Resources
31 de Março 2026 | 10:10
Liderança. Burnout ou Brain-out?

Por Carlos Alves, fundador da Brain World

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Na edição de Novembro de 2025, escrevi nesta revista sobre liderança regulada e sobre a necessidade de integrar a Neurociência na reflexão estratégica das organizações. Depois desse artigo, recebi mensagens curiosas, outras cépticas, muitas pragmáticas. A pergunta repetia-se: “Tudo isto é interessante, mas o que muda realmente, na prática?”

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Talvez a pergunta deva ser outra. Falamos muito de competências de liderança, de liderança ágil, inclusiva, digital ou consciente. Multiplicamos modelos, frameworks e rótulos, quase sempre focados no que o líder deve fazer, mas falamos muito menos do estado a partir do qual ele faz. E isso é estratégico.

Muitas vezes, o que distingue líderes que fazem a diferença não é apenas a acção visível, é o estado interno que a sustenta. É esse estado que define se, sob pressão, há clareza ou reactividade, presença ou pressa, critério ou impulso.

Importa clarificar desde já que não estamos a falar de diagnósticos, nem de saúde mental em sentido clínico. Estamos a falar de funcionamento. Do cérebro no dia-a-dia, sob pressão, nas decisões em cadeia e na capacidade de recuperar depois de mais um “fogo apagado”.

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O que acontece quando líderes continuam a cumprir metas, a ser promovidos e a parecer totalmente funcionais, mas já não operam com a mesma margem cognitiva? Quantos estão a decidir mais rapidamente, mas com menos profundidade? Quantos gerem complexidade com resistência em vez de clareza? Quantos continuam eficazes, mas já não estão no seu melhor nível estratégico? O problema raramente é visível, e é a essa erosão silenciosa da capacidade estratégica no dia-a-dia que chamo brain-out.

 

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Um caso real: funcional por fora, comprimido por dentro
Há alguns meses, acompanhei um executivo numa função exigente, com performance sólida, equipa estável e decisões com impacto relevante. Externamente, nada indicava fragilidade. Internamente, começaram sinais mais subtis. “Cabeça cheia” quase constante, menor tolerância à ambiguidade, mais reactividade em momentos críticos, menos intervalo entre estímulo e resposta, e dificuldade crescente em desligar do ciclo de urgência. Continuava funcional, mas já não estava no seu melhor nível de clareza.

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Ao longo de cerca de seis meses, realizámos três momentos de avaliação, incluindo mapeamento cerebral. No primeiro, as zonas a vermelho representam redes cerebrais em sobreactividade, um padrão consistente de hiperactivação associado a um esforço cognitivo contínuo e a um estado de alerta persistente. Não era doença, era sobrecarga funcional. Um cérebro a operar como se a urgência fosse permanente, mesmo quando não era.

O Neurotreino começou com duas sessões semanais de uma hora. O foco inicial foi estabilizar a hiperactivação e aumentar a capacidade de recuperação. Depois passámos para uma sessão semanal de uma hora, em dois momentos. Cerca de 20 minutos de photobiomodulação transcraniana para apoiar a modulação da actividade cerebral, e cerca de 20 minutos de neurofeedback (2), como treino directo de auto-regulação. Não houve mudança de cargo, não houve redução de metas, nem retiro sabático. Houve treino.

Ao segundo mapeamento, após as primeiras 10 sessões, a hiperactivação já tinha reduzido de forma consistente. A estabilidade global era maior. No terceiro, após 20 sessões, observou-se uma normalização quase total da actividade cerebral.

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Na prática, esta reorganização funcional traduz-se em foco mais estável e com menor esforço, redução da microtensão e aceleração interna, e uma atenção mais sustentada ao longo do dia, com menor fadiga cognitiva, algo que, para muitos líderes, é o verdadeiro activo invisível.

Não tratámos uma doença. Treinámos um cérebro funcional em sobrecarga crónica. Este não é um caso clínico, é um caso organizacional. E nunca é demais reforçar que estes padrões não são sinal de fraqueza, são sinal de carga acumulada.

 

O que isto muda para a Gestão de Pessoas?
Nas empresas, medimos performance, engagement, clima, potencial e sucessão. Criamos formações de liderança e frameworks sofisticados. Medimos quase tudo o que é visível, mas raramente perguntamos em que estado interno estão os líderes e as equipas que sustentam essas competências.

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E talvez isso revele algo mais profundo. Será porque ainda associamos regulação a fragilidade? Ou porque é mais confortável acreditar que apenas os “menos resilientes” se esgotam?

A realidade é bem menos conveniente. Nenhum cérebro, por mais capaz e talentoso, aguenta indefinidamente um modo de alerta contínuo, sem pagar um preço. Muitas vezes não é colapso, é erosão, é brain-out.

Um líder pode dominar modelos de gestão. Pode conhecer estratégia, cultura, change management, comunicação, mas, se estiver permanentemente em alerta, a qualidade da decisão altera-se, o foco estreita, a tolerância à incerteza diminui, a empatia encurta e a criatividade retrai-se.

À superfície, tudo parece funcionar. Por dentro, a capacidade estratégica começa a encolher. E é aqui que a conversa deixa de ser individual e passa a ser estrutural para os Recursos Humanos:

Quando falamos de work-life balance, estamos a falar de equilíbrio real, ou apenas de um conceito útil para tornar o excesso mais aceitável?

Estamos a desenvolver competências ou a exigir que elas operem sem margem interna?

Os nossos contextos promovem a estratégia ou normalizam a sobrevivência de alto desempenho?

 

Liderança regulada não é liderança “soft”. Não é baixar a exigência nem romantizar o equilíbrio. É reconhecer que a qualidade das decisões que definem o futuro depende do estado fisiológico de quem as toma.

O Neurotreino não é uma solução mágica, não substitui a cultura, o desenho organizacional ou, até mesmo, a maturidade emocional. Trata-se de uma ferramenta dentro de uma abordagem mais ampla de auto-regulação e consciência estratégica.

O ponto não é a tecnologia. O ponto é que, se ignorarmos o estado interno de quem decide, estamos a construir estratégias sobre terreno instável. Talvez a pergunta mais estratégica para os próximos anos seja: “Em que estado queremos os nossos líderes quando a pressão aumenta?” Porque a pressão não vai diminuir, a complexidade não vai simplificar e a incerteza não vai desaparecer.

No fim, nenhuma cultura se sustenta apenas em valores escritos, slogans ou programas bem desenhados. Sustenta-se nos corpos e nos cérebros de quem decide todos os dias. É nesse território invisível e profundamente humano que começa ou termina, a verdadeira transformação organizacional, sem estigmas, sem tabus e sem etiquetas.

 

Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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