Se um RH chateia muita gente…

Opinião de Pedro Ramos, CEO Dale Carnegie Portugal.

Human Resources
26 de Maio 2026 | 10:29
Se um RH chateia muita gente…

Por Pedro Ramos, CEO Dale Carnegie Portugal

 

Recentemente, a Bolt voltou aos holofotes quando o seu CEO, Ryan Breslow, decidiu despedir toda a equipa de RH e justificou a decisão dizendo que o departamento estava a “criar problemas que não existiam”. A mensagem foi brutal na forma e ainda mais brutal no conteúdo: num tempo em que tantas empresas falam de cultura, liderança e people strategy, houve quem preferisse transformar o RH no bode expiatório da organização.

E é precisamente por isso que este tema merece ser discutido sem hipocrisia e sem floreados. Porque a frase “o RH cria problemas onde eles não acontecem” não é apenas uma provocação. É uma visão muito pobre sobre o que é, de facto, gerir pessoas, liderar equipas e sustentar performance numa organização (supostamente) madura.

Há uma fantasia muito conveniente no mundo empresarial que consiste em acreditar que, se retirarmos o RH da equação, a empresa passa a ser mais ágil, mais directa e mais focada em resultados. Como se o RH fosse um travão administrativo, um centro de resistência, um departamento de obstáculos burocráticos. É uma narrativa sedutora para líderes que gostam de “velocidade de execução”, mas não gostam de contraditório, mesmo que apregoem expressões bonitas como “a importância do propósito”, a “necessidade de promover a diversidade de pensamento” e de garantirem “a pé juntos” que nas suas empresas tudo acontece sobre uma total segurança psicológica…

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O papel do RH não é inventar tensões. O papel do RH é expor as tensões. O RH não cria conflitos. O RH dá nome aos conflitos que já existem e que muitas vezes a liderança prefere não ver. O RH não fabrica problemas. O RH mostra onde a cultura está a falhar, onde a liderança está a falhar, onde a comunicação está a falhar e onde a organização está, silenciosamente, a acumular risco humano e risco para o negócio.

É por isso que demitir o RH em nome da eficiência pode soar arrojado, mas muitas vezes é apenas uma forma sofisticada de amputar a função que obriga a empresa a olhar para si própria. E poucas coisas incomodam mais um líder do que alguém capaz de traduzir o clima real da organização sem o verniz da conveniência. O RH, quando é sério, é precisamente isso: o espelho que devolve uma imagem menos confortável do que a narrativa oficial.

O futuro do RH não está em ser simpático, decorativo ou excessivamente “service oriented”. Isso já não chega. O futuro do RH está em ser estrategicamente incómodo. Está em saber dizer ao negócio aquilo que o negócio precisa de ouvir, não aquilo que lhe apetece ouvir. Está em ler padrões de comportamento antes de eles se transformarem em crises. Está em perceber que fidelização de talentos, engagement, liderança e cultura não são temas “fofinhos”, são temas de sobrevivência organizacional.

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Já agora, uma empresa pode sobreviver algum tempo sem processos sofisticados de people management. Porém, não sobrevive por muito tempo a lideranças tóxicas, a equipas em silêncio, a managers sem preparação e a culturas onde o medo substitui a confiança. E é aqui que o RH se torna indispensável: não como polícia, não como decoração institucional, mas como função crítica de inteligência organizacional.

O grande erro de muitos executivos é confundir ausência de conflito com saúde organizacional. Não é. Muitas vezes é apenas medo. E o medo não desaparece porque se despede o RH. O medo apenas muda de forma, cresce em silêncio e cobra a factura mais tarde, quase sempre em talento perdido, produtividade reduzida, reputação ferida e execução de menor qualidade.

O RH do futuro tem de deixar de pedir desculpa por existir. Tem de abandonar a postura defensiva e assumir uma voz estratégica, clara e adulta. Tem de parar de ser visto como o departamento que “complica” e passar a ser reconhecido como o departamento que impede que a empresa se engane a si própria. Essa é a verdadeira utilidade do RH. E é exactamente por isso que ele é tão necessário.

A pergunta certa nunca foi se o RH cria problemas. A pergunta certa é outra: quantos problemas a organização está a esconder quando decide calar o RH?

É que… Se o RH chateia muita gente… talvez seja exatamente por isso que a empresa precisa dele!

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